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Avanços de uma CPI

Tanto se disse, no passado, que Comissão Parlamentar de Inquérito apenas faz barulho, mas não pune, que os integrantes da atual CPI do Narcotráfico resolveram contrariar tal idéia e já levaram muita gente importante para a dormir atrás das grades.

Claro que as prisões até agora ocorridas, após os interrogatórios, devem-se todas a ordens judiciais. Foram decretadas por juízes togados, após denúncia do Ministério Público, porque, como muito bem asseverou o ministro Nelson Jobim, do Supremo Tribunal Federal, "a CPI não tem poder de prisão" (salvo em flagrante delito, quando qualquer cidadão pode entregar o criminoso à autoridade policial). Mas, o fato é que estão ocorrendo, e têm recebido um apoio muito claro da opinião pública, cansada de ver tantos crimes trazidos a público em que os autores, por serem importantes, ficam impunes.

As suspeitas - algumas transformadas em evidências - levantadas até agora atingem políticos, empresários, agentes da segurança pública, juízes e peritos criminais. E isso, naturalmente, vem também despertando descontentamentos e receios de que possa ser manchada a honra de pessoas inocentes, através de noticiário apressado sobre envolvimento não comprovado em ações criminosas ligadas ao narcotráfico.

É próprio do crime organizado infiltrar-se nas instituições que têm o dever constitucional de combatê-lo, e em outras de quem se espera sempre uma ação contrária aos seus interesses. Entre outras, algumas do Legislativo e do Judiciário, da polícia civil e demais organismos de segurança pública. A devassa levada agora a efeito pela CPI tem revelado justamente isso.

Dizíamos, neste espaço, ao final de abril último, que em tese uma comissão de inquérito não deve ser considerada, em princípio, contra nem a favor de alguém. Ela tem como objetivo "a apuração de fato determinado e por prazo certo" (Art. 58, Parágrafo Terceiro, da Constituição) "sendo suas conclusões, se for o caso, encaminhadas ao Ministério Público, para que promova a responsabilidade civil ou criminal dos infratores".

No caso presente, ainda não está de todo esclarecida a morte (assassinato ou suicídio?) acontecida no interior de uma delegacia em Campinas, SP, de um investigador de Polícia que fora convocado para depor. Ficou no ar a declaração do seu chefe hierárquico, afirmando que ele se matara na véspera do depoimento porque "todos que se sentam naquela cadeira saem presos". Talvez por essa acusação velada à CPI, alguns membros da Comissão sugeriram que o respectivo inquérito seja acompanhado por integrante da Procuradoria e feito por policiais da capital paulista.

Algumas comissões de inquérito foram esvaziadas por não conseguirem depoimentos de pessoas dispostas a falar, ou por desinteresse de alguns integrantes em aprofundar as averiguações. Não é o caso da atual. E, apesar de tantos revezes anteriores, quando hábeis e caros advogados conseguiram evitar a prisão de alguns acusados identificados através de investigações conduzidas por parlamentares, os membros da CPI do Narcotráfico já acabaram com a tranqüilidade de muitos integrantes do crime organizado, com conexões no exterior.

Para o fornecimento de novas pistas e o aproveitamento das já levantadas, conta-se com o fortalecimento do recém-criado Programa Federal de Proteção a Testemunhas. Esse tipo de ação tem sido responsável, em países como os Estados Unidos e a Itália, pelo desbaratamento de poderosas organizações voltadas para o crime. É que os próprios criminosos envolvidos - geralmente os peões, ou autores intermediários - algumas vezes, com seu depoimento, ajudam a mandar para a prisão os chefes das quadrilhas. Mas, para garantir sua integridade física, os informantes chegam a ter a identidade substituída, emprego garantido pelo Estado e novo endereço.

Proteger testemunhas sai muito caro. Mas, por outro lado, o desbaratamento parcial do narcotráfico pela CPI respectiva já levou à apreensão de quatro aeronaves, vários caminhões e diversas mercadorias encontradas com os criminosos. O leilão dos bens apreendidos pode ser uma fonte de financiamento para o programa, através do Fundo de Combate ao Tráfico de Drogas. Eis uma idéia que não pode ser desprezada pelo governo.


Jornal do Commercio
Recife - 29.11.99
Segunda-feira