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DROGAS
O vício pode começar em casa

por JULLIANA DE MELO

O assunto já virou mote de campanhas publicitárias, debates e fóruns em todo o mundo, a exemplo do 1º Fórum Pernambucano sobre o Consumo Indevido de Drogas, realizado no início do mês, no Recife. O evento teve a participação de especialistas nacionais e internacionais, que abordaram políticas de prevenção, tratamento e redução dessas substâncias no Estado e lembraram que o problema pode estar dentro de casa.

Já se foi o tempo em que o usuário de drogas era visto como alguém de classe pobre, mal vestido e com aspecto perverso. A caricatura não procede, visto que, independente de classe social, idade, cor, raça ou sexo, o dependente é muito mais uma vítima diante das pressões do mundo moderno.

E aí já não se fala apenas das substâncias ilícitas, como a maconha, cocaína ou ácidos, mas também das legalizadas, socialmente aceitas e igualmente prejudiciais, como o álcool, o cigarro e os tranqüilizantes. Essas últimas, incentivadas ao consumo desde cedo. As crianças e adolescentes começam a saber o que é droga quando observam os próprios familiares influenciando mais do que simples informações preventivas que são passadas de maneira autoritária e ineficaz.

"O consumo indevido não pode ser considerado `caso de polícia', mas uma ampla questão social", afirma Marcílio Cavalcanti Lima, que é acompanhante terapêutico e coordenador administrativo do Instituto Recife de Atenção Integral às Dependências (Raid). Segundo ele, quando a imagem da droga é vinculada a questões emocionais, como beber para passar a raiva, para curar mágoas ou até para conseguir se divertir, a situação piora, já que, ao lidar com frustrações, a procura ao tóxico será a primeira saída.

O comerciante Marcelo Miranda (nome fictício), 21 anos, passou praticamente toda a sua vida em contato com o álcool. Chegou a presenciar cenas violentas quando o pai, que era alcoólatra, chegava em casa bêbado para brigar e bater na sua mãe. Resultado: começou a beber e se embriagar aos 13 anos. "Bebia quando estava alegre e, principalmente, quando estava triste". A situação piorou quando o pai foi preso por matar a mãe.

Preocupados com o grau de dependência de Marcelo, que já não trabalhava mais para beber, os familiares decidiram ajudá-lo. A internação numa clínica de desintoxicação e reabilitação foi a solução. Em tratamento há três meses, recebendo a visita regular de sua esposa e filha, Marcelo está aprendendo sobre o alcoolismo e como viver com a doença. "Quase que tive uma recaída, cheguei a tremer quando entrei num bar, mas tive medo de voltar tudo novamente e não ser mais reconhecido por ninguém", admite.

DIÁLOGO - Os motivos para buscar as drogas podem ser os mais variados, mas, geralmente, é a falta de diálogo dentro de casa que permite um maior comprometimento. "É preciso quebrar tabus e encarar as drogas sem preconceito, colocando o assunto em pauta nas conversas familiares", sugere a psicóloga e psicanalista Elianne Resende, que está em fase de pré-lançamento do seu livro Droga, que Tabu é Esse?

Ela parte do pressuposto de que se há a procura é porque existe o espaço vazio, onde as drogas funcionam como elemento `mágico e imaginário' para suprir essa lacuna, decorrente de alguma falha na relação familiar. É aí que mora o perigo da dependência. "Quando a droga começa a ganhar um lugar de destaque na vida da pessoa, certamente será mais difícil se desvencilhar dela, até porque, sem ela e, principalmente, sem apoio, o vazio retornará, fortalecendo o ciclo do vício". A psicóloga fala da importância dos pais e familiares de prestar mais atenção ao comportamento dos filhos e acima de tudo, procurar ser amigo deles.

No último levantamento do Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas (Cebrid), realizado em 1997, foi revelado que o percentual de adolescentes que já consumiram drogas entre os 10 e 12 anos de idade é altíssimo: 51,2% usaram álcool; 11% usaram tabaco; 7,8%, solventes; 2%, ansiolíticos e 1,8%, anfetamínicos.

Além de acarretar um alto custo social (cerca de US$ 28 bilhões em tratamento e internações decorrentes do uso indevido de substâncias psicoativas) e ser responsável por 50% dos indíces de faltas ao trabalho, a dependência química pode ser relacionada ao abandono escolar, à violência, à AIDS e aos acidentes no trânsito. "Fica aos diversos setores - governamental e não-governamental - a responsabilidade de combater o problema das drogas com muita informação e diálogo, seja na escola, no trabalho ou dentro do lar" alerta o secretário nacional Antidrogas, Walter Maierovitch.

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Jornal do Commercio
Recife - 28.11.99
Domingo