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DROGAS II
Dependência ainda é um mistério

Uma das grandes dúvidas em relação ao consumo de drogas é saber porque algumas pessoas tornam-se dependentes e outras não. Essa variabilidade de resistência orgânica e psicológica às substâncias tóxicas levam, muitas vezes, a pessoa a acreditar que pode manter o controle da situação, utilizando-as apenas quando bem entender, na quantidade e regularidade que desejar.

O que acontece é que a maioria das pessoas que consomem bebida alcoólica, por exemplo, não se torna um dependente, o que é válido também para os outros tipos de drogas. Segundo a Organização Mundial de Saúde, apenas 15% das pessoas que utilizam drogas no mundo são dependentes. De uma maniera geral, o consumo começa embalado na curiosidade e na experimentação, realizado uma vez ou outra, sem maiores conseqüências de vício, apesar de poder produzir danos à saúde. Os dependentes, que as utilizam quase que diariamente, são, na verdade, a minoria.

"O problema é que não dá para saber, entre as pessoas que iniciam o consumo, quais vão utilizar esporadicamente e quais se tornarão dependentes. É como dar um salto no escuro, sem saber onde vai pisar e em que lugar vai parar. "Alguns estudiosos falam de pré-disposição genética, mas geralmente é a conduta que o indivíduo adota ao longo de sua vida que pode deixá-lo mais propenso ao uso rotineiro destas substâncias", analisa o acompanhante terapêutico Marcílio Cavalcanti Lima.

OS FATORES - Essa conduta, segundo Lima, é resultado da junção de três fatores: a influência do ambiente em que a pessoa vive, as características físicas e biológicas e a falta de preparo para encarar dificuldades e passar por momentos advsersos em determinadas circunstâncias. Quando a perspectiva não existe, há uma busca pelo `alívio' do sofrimento. "Basta o `barato' passar, que o sofrimento volta, só que agora mais forte e muitas vezes acompanhado dos efeitos que a droga produz, como angústia, irritabilidade e ansiedade intensa", completa a psicóloga e psicanalista Eliane Resende.

Foi mais ou menos assim que o estudante Anderson Leal (nome fictício), 17 anos, foi caindo, aos poucos, no vício. Depois de iniciar o consumo da maconha, há três anos, ele começou a se desinteressar pelos estudos até chegar ao ponto de abandonar tudo e passar o dia inteiro fumando, sem parar. Sem dificuldades, a droga era obtida através de amigos, nos lugares mais comuns e transitáveis da cidade, como escolas, parques ou shoppings. "Achei que a felicidade estava num cigarro de maconha e que, assim como meus colegas, eu podia utilizá-la sem problemas. Hoje eu sei que estava enganado".

CORRENDO RISCO - Em tratamento, Anderson espera se livrar do vício e retomar seus planos de vida, mas acredita que um dia vai poder consumir a droga com equilíbrio e limitações. Só que, na opinião de especialistas, o rapaz está correndo o risco de voltar ao vício. "Esse é o sonho e erro de todo dependente. Como doente, tendo como característica a falta de controle, ele pode voltar a consumir da mesma forma ou mais do que fazia quando iniciou o tratamento", ressalta Vilma Dorneles, gerente da Divisão de Atenção à Saúde do Centro de Prevenção Tratamento e Reabilitação do Alcoolismo (CPTRA).

A recaída, como é chamada, geralmente pega o usuário de surpresa. Esse processo, no entanto, faz parte do processo de reabilitação e serve, muitas vezes, para conscientizar o dependente de que ele não pode utilizar a droga, mostrando, na prática, a necessidade de aperfeiçoar o método de abstinência. Até conseguir se livrar totalmente, no entanto, o processo pode durar alguns anos, desde que haja a real e espontânea vontade de se recuperar. (J.M.)

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Jornal do Commercio
Recife - 28.11.99
Domingo