LG_jc.gif (3670 bytes)

TECNOLOGIA
E o mundo fica menor...

Eniac, primeiro computador da história, ocupava uma sala inteira e pesava trinta toneladas. Não é de se estranhar que seus sucessores sejam chamados de `microcomputadores'. Os lançamentos tecnológicos mais recentes já não podem ser vistos a olho nu - caso do transistor duas mil vezes mais fino que um fio de cabelo, anunciado pela Lucent. Mal se começa a acreditar que não se trata de ficção, mais novidades: a nanotecnologia pretende manipular átomos para construir todo tipo de objeto, como um robô que navega na corrente sangüínea. Não é tão estranho para um mercado onde já existe um sistema operacional que cabe num disquete e um player de mp3 menor que uma caixa de fósforos.

por ROBERTA RÊGO
roberta@jc.com.br

Inflando-se uma bola de tênis até que ela ficasse com as mesmas dimensões da Terra, seria possível enxergar cada um dos seus átomos do tamanho de uma uva. Quatro `uvas' ocupariam, aproximadamente, um nanômetro. Esta é a unidade de medida usada na nanotecnologia, um campo de pesquisa que promete maravilhas para as próximas décadas. A técnica permite construir dispositivos - de todos os tipos - átomo por átomo, molécula por molécula. Com seu `jeitão' de filme de ficção, o assunto está tomando corpo - tem até revista e jornal especializados, além de diversos laboratórios de pesquisas. E não há quem não se interesse pelo tema depois de saber das possibilidades que a nanotecnologia oferece.

A maior expectativa volta-se para a área de saúde. Estudiosos da microscópica ciência falam em montar robôs minúsculos, capazes de viajar pela corrente sangüínea, patrulhar o organismo como um sistema imunológico artificial e fazer micro-reparos no corpo - como corrigir erros no DNA ou reverter o envelhecimento. Familiar para quem assistiu ao filme Viagem Insólita (Inner Space, 1987), onde um cientista viaja pelo corpo de um homem a bordo de uma minúscula nave.

Voltando-se para o mercado, promessas infinitas de aplicações. A nanotecnologia deve tornar viável a montagem de computadores do tamanho de um grão de sal e bilhões de vezes mais rápido que os atuais micros (ou seriam macros?!). Qualquer bem de consumo poderia ser produzido em casa, pelo cidadão comum. A vida em sociedade também ganharia facilidades. Estradas poderiam ser pavimentadas com células auto-montáveis de energia solar. Nada de gente passando fome, uma vez que a sintetização de comida seria extremamente simples.

Os mais realistas não vêem perspectivas de aplicações práticas para a técnica nos próximos dez anos. Interessado no assunto, o engenheiro da Intel, Tom R. Craver, acredita que deve demorar alguns anos até que a nanotecnologia possa ser usada dentro do corpo humano com segurança. "Continua sendo assunto de laboratório, mas já há muitos cientistas sérios envolvidos com o assunto e pondo em prática as implicações da nanotecnologia", ressalta Craver. A produção mais `concreta' conseguida até agora foi a montagem da marca da IBM com 35 átomos de xenônio.

Para funcionar de fato, a nanotecnologia depende de duas estruturas: os montadores (assemblers) e os auto-replicadores (self-replicators). As primeiras, também chamadas de nanomáquinas, permitirão colocar átomos em qualquer posição ou arranjo espacial. Já os auto-replicadores farão com que as nanoestruturas produzam cópias de si mesmas. Os dois `equipamentos' são o principal objetivo da empresa privada Zyvex, a primeira dedicada ao assunto.

A idéia é levar nanotecnolgia às casas das pessoas em forma de um montador universal (universal assembler), um equipamento parecido com um forno de microondas. Ele seria conectado a um estoque de átomos `crus' (de carbono, oxigênio, enxofre...) que, comandados por software, dariam forma aos mais variados objetos - de computadores a alimentos. A reposição do estoque seria feita por um montador portátil, que recolheria átomos do solo e do ar.

________________________________


Jornal do Commercio
Recife - 24.11.99
Quarta-feira