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URBANISMO VIII
Evolução dos transportes cria nova cidade

João Ferreira Neves, 75 anos, guarda saudades dos finais dos anos 40, quando guiava ônibus de luxo da Pernambuco Autoviária, nas linhas de Casa Amarela e Iputinga. Naquele tempo, cruzava a cidade sem a concorrência excessiva dos automóveis nem ameaça de assaltos. "A cidade ficou mais bonita, mas piorou para o motorista. Ninguém respeita ninguém", lamenta ele, hoje aposentado, que deixa para o filho Marcos Antônio, 38 anos, a tarefa de enfrentar a nova paisagem da cidade, dirigindo um ônibus elétrico.

A convivência entre transporte coletivo e particular não é de hoje, e deve permanecer. Os planos de crescimento da cidade prevêem não só expansão dos transportes públicos, como também abertura de novas vias que vão beneficiar sobretudo o automóvel. Isso é visível no presente. Ao mesmo tempo em que são criadas duas novas linhas de metrô, o Recife se prepara para receber a Linha Verde, estrada expressa que terá cobrança de pedágio. O projeto, nova versão da Via Costeira Sul, que causou polêmica no início dos anos 90, será executado pela iniciativa privada, a partir deste ano.

Se na metade do século a concorrência era entre automóveis, bondes e ônibus improvisados em caminhões, a disputa de hoje se dá entre várias modalidades. Não há mais bonde, mas existe metrô de superfície. São mais de 1.500 ônibus rodando no Grande Recife e passando por alguma parte da capital. Há outros 3.500 táxis e uma infinidade de kombis-lotação. Essas, em maior número que os ônibus, e com condições de fazer trajetos alternativos, acabaram ganhando a simpatia da população, embora de vez em quando estejam envolvidas em acidentes. Tudo isso mais 310 mil automóveis particulares registrados na cidade e outros milhares herdados pela função de metrópole.

Os deslocamentos no Recife cresceram por terra e por ar nestas oito décadas. Por água, não progrediram, apesar das tentativas de tornar o Rio Capibaribe navegável. Enquanto as avenidas eram abertas e em pouco tempo iam se tornando saturadas, o ar se enchia de de grandes aeronaves.

Os garotos que assistiram, na década de 30, o dirigível Graf Zeppelin tomar os céus, 28 anos mais tarde tiveram a oportunidade de ver a inauguração do Aeroporto Internacional dos Guararapes.

UM NOVO MAPA VIÁRIO - A variedade de meios de transporte reflete as mudanças de hábito da população e exige mudanças no desenho da cidade, com abertura de ruas e avenidas, construção de pontes e viadutos. Na década de 50, era aberta a Avenida Guararapes, e construídas as pontes Limoeiro e da Boa Vista. Nos anos 60 e 70, a cidade ganhou o prolongamento da Avenida Dantas Barreto, os viadutos das Cinco Pontas, João de Barros e Avenida Norte.

Nos anos 70 e 80, foram construídas a Ponte Paulo Guerra, no Pina, e o Viaduto Capitão Temudo, ligando a Agamenon Magalhães ao Cabanga, além da Ponte-Viaduto Torre-Parnamirim. O transporte coletivo ganhou faixa exclusiva na Avenida Caxangá, e o metrô começou a funcionar em 86, atendendo a área oeste da cidade. Já nos anos 90, o Recife assistiu à abertura da Avenida Alfredo Lisboa, no Bairro do Recife. O viaduto Ulisses Guimarães, pistas e túneis margeando o Canal do Jordão, além da Ponte Gilberto Freyre, em Afogados, passaram a compor o sistema viário.

O uso do automóvel, que explodiu com os primeiros dias do Plano Real, era inexpressivo até a década de 30. Naquela época, os costumes e hábitos da população recifense exigiam poucos deslocamentos. Quando necessários, eram feitos a pé ou em bonde. O uso de carros de passeio começou a crescer nos anos 40, acelerando na década de 60, com a indústria automobilística nacional.

Depois de atingir o auge no início dos anos 70, o automóvel caiu em desuso em 1979, com a crise do petróleo. Na era do Plano Real, o congelamento dos preços do álcool e da gasolina estimulou a compra e a utilização dos veículos.

Os primeiros serviços de transporte público datam do século passado, precisamente 1841 ou 1852, com carruagens puxadas por animais. Os bondes (a vapor ou puxados pelo burro) são de 1867, e os elétricos, de 1914, desaparecendo definitivamente em 1955. Entre 1930 e 1940, Recife e Porto Alegre dividiam o título de cidades com o melhor serviço de transporte coletivo do país.

A era ônibus prosperou. Primeiro com caminhões adaptados, depois com autolotações. Em 1956, por exemplo, existiam 106 empresas operando 48 linhas do Recife. Três anos depois era criada a CTU, com seus ônibus elétricos que não devem entrar para o terceiro milênio.

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