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COTIDIANO
E o imperador deu lugar aos mendigos

por LUCE PEREIRA

Mendigos pelas calçadas, trânsito desordenado, imóveis decadentes, sujeira. O visitante olha em volta e não consegue entender de onde veio o nome da rua que abriga o majestoso prédio do Tribunal de Justiça de Pernambuco, em estilo neoclássico, nascido da prancheta do arquiteto italiano Giácomo Palumbo, lá pelo ano de 1924. Imagina que o imperador Pedro II não poderia virar nome de uma rua qualquer, ainda mais feito aquela, onde hoje se anda com uma mão na bolsa e outra no coração.

Mas, coitado do visitante. Vai continuar no escuro se uma dessas coincidências não levá-lo a ter meio dedo de prosa com o engraxate Sebastião Laurentino, 71 anos, ou a fome não conduzi-lo ao Restaurante Dom Pedro, que se mantém fiel à tarefa de reunir os mais árduos defensores da rua - poetas, políticos, escritores, jornalistas, gente que viveu o apogeu e a decadência da via mais antiga da Cidade Maurícia. E tanto conhecimento de causa têm essas pessoas que, ao se dizerem filhos, não exageram na intimidade.

Laurentino não freqüenta as mesas do Dom Pedro, mas, plantado com sua caixa na calçada do restaurante, há meio século, já viu de tudo por ali. Ainda traz nos olhos os últimos sacolejos do bonde que se foi com a estruturação do sistema de transportes, na década de 50, e suspira ao lembrar das inúmeras personalidades que saíram de sua cadeira com os sapatos tinindo. Os cantores Augusto Calheiros, Orlando Silva, Carlos Galhardo, Jackson do Pandeiro ... Até já perdeu a conta de quantos clientes famosos atendia antes de subirem para as alardeadas apresentações na Rádio Jornal do Commercio, que "falava para o mundo" diretamente do prédio onde hoje funciona o JC. Só não esquece as gordas gorjetas.

"Um dia, até fui tomar uma cachaça com o sambista Jamelão, na Leiteria do Imperador (atualmente, a loja da Telpe), e o homem me deu 5 mil réis. Era tanto dinheiro nesse mundo, que eu fiquei zonzo", conta o animado Laurentino, reverenciando as lembranças com um largo sorriso sem dentes. Aliás, é bom que se diga, mesmo tendo dia em que consegue engraxar apenas um par de sapatos e meter R$ 2,00 no bolso, insiste no bom humor e no propósito de não abandonar o local. "Daqui só saio depois de morrer".

ALMA E FÉ - Laurentino não sabe, naturalmente, mas muitos ilustres fizeram a mesma promessa e cumpriram. Durante os longos anos passados na direção do Arquivo Público Estadual - que já abrigou a cadeia nova, de onde Frei Caneca saiu para a forca, em 13 de janeiro de 1825, e a Biblioteca Pública do Estado -, o poeta Mauro Mota entranhou-se na alma da rua. Pertencia a ela com a mesma fé que mantém firmes as paredes da Venerável Ordem Terceira de São Francisco, o primeiro conjunto arquitetônico da Ilha de Antonio Vaz ou Ilha de Santo Antonio, como era chamado o bairro até o século XVIII.

Conta o historiador Leonardo Dantas que nem mesmo o governador Manoel Borba resistia ao charme da rua, reduto de gente enfronhada, doida por cultura e política. Ia ele, em muitas tardes, juntar-se ao burburinho do Lafayette (hoje, prédio do Banco Francês e Brasileiro) onde chegava a despachar, entre um café e outro. Devia ser esse clima que atraía para a Leiteria do Imperador poetas como Ascenso Ferreira e gigantes do teatro como Joaquim Cardoso que, dizem os estudiosos, lá protagonizaram episódios engraçadíssimos na década de 40.

Por essa época, o imponente prédio do Gabinete Português de Leitura, fundado em 1850, já era parada obrigatória para quem quisesse descobrir os mistérios de livros raros, reunidos num acervo de tirar o fôlego. Dele devem ter usufruído, por exemplo, hóspedes endinheirados que viveram os áureos tempos do Recife Hotel, na esquina da Imperador com a Marquês do Recife. Nascido nos anos 30, o estabelecimento, hoje fechado, tinha mordomo a atender a clientela e não abria mão de usar louça inglesa em seu restaurante. "Era um luxo", diz o proprietário do Dom Pedro, Júlio Crucho, 62 anos.

TRANSFORMAÇÃO - Do luxo ao lixo. Quando dom Pedro II desceu de uma galeota, em 1858, no Cais do Colégio (imediações do cais de Santa Rita) para assistir a um tedéu na rua que levaria o seu nome (antes Rua do Colégio e Rua Direita da Cadeia Nova), deparou-se com o suntuoso palácio de Nassau, denominado Palácio das Torres, Palácio de Friburgo e, finalmente, Palácio do Campo das Princesas, porque abrigava membros da família imperial.

Estava ali a magnífica construção concluída há cerca de 17 anos, além da Ordem Terceira de São Francisco, com sua bela Capela Dourada, e o Gabinete Português de Leitura. Tudo levaria a crer que nem os séculos arrasariam a imponência da rua. Mas bastou apenas um. Hoje o turista tem razão de duvidar do nome escolhido pela Câmara Provincial, em 5 de dezembro de 1859. Acham, no mínimo, que dom Pedro reprovaria o assédio dos pedintes, acostumados a cutucar visitantes branquelos gritando Money! Money!.

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LUCE PEREIRA
- Assina a coluna JC nas Ruas desde março de 1998. Formada em jornalismo pela Universidade Católica de Pernambuco, dez anos de profissão, ingressou no Jornal do Commercio como redatora, em 1993, e passou a repórter da Editoria de Cidades. Antes, exerceu a função de correspondente da Voice of America - a rádio do Governo dos Estados Unidos -, foi redatora da Rede Manchete, da Rádio Clube de Pernambuco, da Secretaria de Imprensa do Governo do Estado, e passou por diversas assessorias.