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COTIDIANO II Comerciantes propõem revitalização da rua Pela memória do português Júlio Crucho, 62 anos, brasileiro há 42, desfilam histórias impagáveis, a maioria delas acontecidas nas mesas do restaurante Dom Pedro, que construiu quase no final da década de 60, onde antes fôra um banco, uma capela e uma loja de jogo de bicho. E quanto mais escancarava os ouvidos para o que lhe diziam muitos dos famosos e assíduos clientes, mais alargava o coração para recebê-los como amigos. Era inevitável que tantas e tão freqüentes conversas terminassem estabelecendo ligações fraternas, e que a rua passasse a ser uma extensão da própria casa. Trinta e dois anos de convivência, afinal, é tempo suficiente para brotarem cumplicidades e afetos. Os de Crucho levaram-no cedo a se perguntar por que a rua mais antiga da Cidade Maurícia, chão de poetas, berço da história do Recife, foi esquecida. Não sabe. Viu o movimentado comércio desaparecer, as calçadas virarem dormitório de pedintes, as árvores subirem sem cuidados acima dos edifícios decadentes, os moradores arrumarem as malas em busca de mais sossego. Viu o que não queria ver, inclusive a omissão do poder público, que faz questão de ignorar até a ameaça mais iminente - a de vários imóveis serem consumidos pelo fogo. As fachadas de dez deles, aliás, indicam que a qualquer momento os bombeiros podem ter trabalho extra. Crucho tem planos para melhorar a rua. Muitos. Imagina ser possível fazer renascer das cinzas a idéia de Nassau ao construir ali seu palácio. "E por que não criar atrativos, opções de lazer, ações capazes de também transformar o centro numa área residencial?", indaga, inconformado. Sim. Água, beleza, história, monumentos e geografia o bairro possui, mas falta verba. Falta até mesmo um estudo sobre a viabilidade da proposta. No Projeto Capital, recém-entregue ao Governo do Estado, só constam benfeitorias na Praça da República. Mesmo assim, a secretária de Planejamento da Prefeitura da Cidade do Recife, Celecina Pontual, diz que é toda ouvidos para as sugestões vindas dos comerciantes. CAIXA MAGRO - Enquanto reclamam que a prefeitura só morre de amores pelo Bairro do Recife, os comerciantes vão vendo o caixa emagrecer a cada dia. Maria Martins, a atual proprietária de uma das casas mais antigas da Rua, a lanchonete A Cristal, chegou de Portugal de mala e cuia, há 37 anos, e desde então espera por dias melhores. "As coisas não eram tão ruins, na década de 60, mas de lá para cá o movimento caiu muito, os bons fregueses foram dando lugar a consumidores sem recursos", diz ela, que desistiu de abrir aos domingos e de morar no andar superior do prédio, hoje aos pedaços. "Não temos nem dinheiro para fazer uma pequena reforma". Quem não resistiu ao marasmo tratou logo de mudar de ares, como as tradicionais Casas José Araújo e Ramiro Costa. Bem antes, lembra o dono da extinta Copiadora Pernambucana, Garpar Peres, 66 anos, já haviam desaparecido pelo menos seis bancos. "E a situação vai piorar", profetiza Peres, prevendo que, com a provável transferência dos cartórios para as imediações do novo fórum, na Ilha de Joana Bezerra, e a mudança dos jornais para áreas mais amplas, o centro vai ficar de vez sob o domínio dos donos de casas de jogos. |
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