LG_jc.gif (3670 bytes)
COTIDIANO III
Boêmios mantêm-se fiéis ao tradicional reduto

Ninguém imagina, mas o restaurante Dom Pedro também funciona como uma espécie de quartel-general da tropa que quer continuar brigando para não ver o logradouro cair de vez na indiferença do poder público. Apesar da informalidade, aliás, marca registrada dos integrantes, a Associação dos Amigos da Rua do Imperador segue arregimentando forças, embora ninguém saia das esporádicas reuniões suficientemente certo de que recebeu munição extra para disparar uma bala sequer contra a decadência. Explica-se: o coração dos boêmios, no final das contas, pulsa mesmo é por outro tipo de conversa, que não pode acontecer sem o auxílio luxuoso de um scotch.

Presidente em fim de mandato, o jornalista Valdetário Guedes, 63 anos, explica que só havia um requisito para admissão dos sócios - freqüentar com assiduidade o restaurante. Ou seja, se à maioria dos clientes só faltava mesmo encarar um cartão de ponto, deduzia-se que eles tivessem o mesmo carinho pela rua e, conseqüentemente, a mesma disposição em defendê-la.

Por essa lista de defensores, diz Valdetário Guedes, já desfilaram o governador Jarbas Vasconcelos, à época prefeito da cidade do Recife, o interventor de Jaboatão dos Guararapes, Byron Sarinho, o desembargador Benildes Ribeiro e o jornalista Esmaragdo Marroquim, só para citar alguns dos diversos nomes a integrar a lista.

São vagas as conquistas. "Já conseguimos, por exemplo, um grupamento da Guarda Municipal, apoio da polícia e várias doações de livros", afirma o presidente, forçando a memória. A esperança é que a nova diretoria, eleita em abril, consiga ser, de fato, atuante, e ajude a livrar a rua de males crônicos como o comércio ambulante, a falta de higiene e o trânsito caótico.

A grande briga, no entanto, promete ser de foice. Apesar de a prefeitura mostrar simpatia pela desocupação das calçadas da Capela Dourada, a associação sabe que qualquer movimento contra a permanência dos mendigos terá a hostilidade dos guardiões.

Em tempos passados, bem que já houve algum esforço nesse sentido, mas a reação dos religiosos foi imediata. "Aquilo é um absurdo, uma falta completa de higiene e de segurança, que acaba afugentando os turistas do local", reclama, irritado, um funcionário do Museu Franciscano de Arte Sacra.

________________________________________