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COTIDIANO Muita farra na Sete de Setembro por JOSÉ TELES Numa data tão assim, como direi, magna deste JC, não poderiam faltar umas mal tecladas sobre a Sete de Setembro, uma rua que, tal certas mulheres lindas, mesmo devastadas pela insensatez do tempo não perdem o charme. Por Sete de Setembro quero dizer a parte que vai da esquina com a Conde da Boa Vista até a esquina com a Riachuelo. O maracatu começou ali por volta de 1970. Não fui sócio-fundador, nesta época baixava eu nas cercanias: na lanchonete Fun's, na conde da Boa Vista, esquina da Saudade, onde hoje é um banco. Na Fun's foi onde rolou a primeira batata frita decente do Recife. Só em 70, pode? A Sete de Setembro começou a engrenar quando a Livro 7 passou para a galeria onde tem hoje as lojas Disco de Ouro, Disco 7, e um maracanã chinês do self-service. Idos dos 70 e poucos. Poetas a dar com o pau. Universitários afanando livros e Tarcísio 7 nem aí. Quase simultâneo à livraria veio o bar Casarão 7. Grande bar. Sob aquelas mangueiras de saudosa memória, rolaram muitos poemas e outros tantos romances. Aí a livraria de Tarcísio mudou-se para aquele galpão metros adiante. E a coisa engrenou de vez. A estudantada toda baixava lá porque a intelectualidade toda baixava lá. Ali nasceu a arte interativa. Artistas sempre pedindo um trocado pra inteirar alguma coisa: um cartaz, um show, uma sopa no Beco da Fome. De Bar só o Casarão e o Bierhouse, escurinho, com reservados, ótimo prum esquente antes do bem-bom. Um belo dia, os casais correm tudo pra calçada, uns ainda sem os devidos ajustes exigidos pelo decoro. O motivo. O cupim fez parte do forro ceder, e caiu com o forro uma nuvem de baratas. Trocaram-se suspiros de prazer pelos gritos de pavor. E aí veio o bloco, Nóis Sofre Mais Nóis Goza. Chique ir à concentração, sair nele, e conhecer as figuras que pontificavam na rua; uma delas era Wellington Virgolino com sua charmosa peruca Kanekalon de nylon. Se for citar todos os nomes, vira um catálogo: tinha um monte de pintores, poetas saindo pelo ladrão, tudo com livro editado pela Pirata, comunistas de várias alas, e universitários, tudo barbudo. Nos sábados estavam todos lá em frente à livraria azarando as moças e vice-versa, entornando a batida de caju da Livro 7 e conferindo os lançamentos. Os próceres da cultura oficial pintavam também: Amaro Quintas, Nilo Coelho, vez perdida, mestre Giba. COMEÇA O ESCRACHO - Em 1984, surgiu o Papa-Figo, o semanário quinzenal que eu, Ral e Bione fizemos ressurgir das cinzas. Ele logo se tornaria o orgão oficioso, vibrante e latejante da artéria. A Livro Sete, logicamente, patrocinava, e a Síntese, também. Nesta época o Bierhouse havia dançado com suas baratas e o barato era o bar que lhe sucedeu, o Golden Pizza. Um monte de gente baixava ali, o muro de Berlim ainda não havia tombado, havia do MR8 até o PC do B. É difícil nomear todo mundo: Domingos Alexandre, nós do Papa, Marcos Cordeiro, Paulo Caldas e Paulo Caldas (um escreve outro pinta), Ismael Caldas, Montez Magno, Tarcisio Barbudo, Assunção, Godoya, Suzana, Norma, Iracema, Edna Costa, Luís Pessoa, Branco Patriota, Ângelo Monteiro, Wellington Virgolino, Targino, Marco Polo, Djalma Negão, Emílio, Arnaldo Tobias, Mano Teodósio, Jaci Bezerra, enfim, intelectual às pencas. Nisso, como quem não quer nada, Anselmo DL (Delírios & Delícias), invade a calçada do outro lado do bar, e vai arrebanhando a freguesia do Golden Pizza. Comprava-se peixe fresco e Anselmo fritava o bicho no ato. Deglutia-se o pescado também no ato com uma braminha da antárctica estupidamente gelada. Nem em Paris. Um belo dia, tá todo mundo na mesa, altos papos, quando chegam os crentes e tome hinos e palavreado na vã tentativa de salvar nossas almas perdidas e mal pagas. Depois do hino, um dos crentes olha no olho de cada um de nós e lasca: "Irmãos, pensem no fogo do inferno! Larguem desta vida do álcool, da maconha e da pederastia." A cada lançamento de um Papafigão (coletânea com vinte números do Papa-Figo), fazia-se um show na Livro Sete, cada qual pior do que o outro. Num deles, no estacionamento, enquanto a banda Pão Com Banha (Lailson, violão; eu, guitarra; Clériston, violão; e Bione, cabaço, que perdeu num show/baile do Pão Com Banha em Batutas de São José, em 1990) apresentava seu último número, cujo refrão dizia: "Por isto eu dou, glória a Jesus/Glória a Jesus/Foi Jesus quem me salvou!", o saudoso e treloso Lúcio Flávio Regueira incorporou um caboco, e começou rodopiar pelos pedregulhos do estacionamento, Bione usou seus poderes de exorcista em Lúcio Flávio. Hilariante. Falando em incorporar um santo. A Igreja Universal comprou o estacionamento em frente ao hoje Calabouço, pra construir um templo, ou se sabe lá o quê. Então toda semana era um grupo de fiéis na frente do bar fazendo pregação. Uma noite, uma pastora pregava e súbito uma moça entrou em transe. Entronchou-se toda, e começou a falar esquisito. A pastora começou o exorcismo, na base do "Sai deste corpo, satanás!", "Fora desta irmã, Demônio". A gente só olhando. Eis que Mané Bione aproximou-se da pastora e da suposta endomoniada e começou a peleja do diabo com o dono do céu. A pastora bradava: "Vai-te embora satanás!!". E Bione: "Não vá embora satanás". "Deixa este corpo sofrido, Demônio!!". E Bione: "Fica aí, demônio". O demônio acabou enchendo o saco, deixou ele, a pastora e endomoniada no solo, e saltou fora. Grande rua, bons tempos. Onde hoje ponteiam trombadinhas, camelôs, doidos, flanelinhas, malas, uma noite a gente se banqueteou de queijos finos, vinho, poesia idem, sem surgir uma única mão estendida pedindo um "pedacinho, que eu tô com fome". Só em Paris. SIDNEY SHELDON & CIA. - Os lançamentos faziam da rua uma festa. João Cabral, Eventuschenko, Mauro Mota, artistas de cinema. Um dia quem lançou livro na 7 foi Vanja Orico, a atriz de O Cangaceiro, de Lima Barreto. O poeta Domingos Alexandre tentou entabular um papo: "Vanja, quando eu era garoto assisti a muitos filmes seus". E Vanja Orico, pê da vida; "O senhor tá me chamando de velha, é?". O mais badalado lançamento foi o de Sidney Sheldon. Fila de autógrafos maior do que a de caixão de metade de dupla caipira falecida. Ninguém da turma foi conferir o xaroposo romancista, continuamos entornando o precioso líquido. Mas todos o vimos, e até se levantou suspeita sobre sua (lá dele) masculinidade. Sidney Sheldon passou, ao lado de nossa mesa, acompanhado de um galego, bem mais jovem, (chegou a nos cumprimentar com um meneio de cabeça). Quando ele se afastou, alguém da malta comentou: "Aquele deve ser o rapaz dele". O escritor gringo só não pegou fama de frango porque Tarcísio Sete apareceu depois do lançamento e apressou-se em esclarecer: o galego não era o bofe de Sheldon, era o filho. Eita racinha maldosa. Foram muitos chopes, muitos poetas, muitos amigos que se foram, afastaram-se, partiram pra outra, feito Alberto Cunha Melo e seus conheques. que nós do Papa alcunhamos de Alberto Cana Brava (dez anos antes de Tom Cavalcanti, é bom que se frise). Parodiei até Carlos Pena Filho num poema pro bar: "São trinta copos de chope/ São trinta versos quebrados/ São trinta poetas lisos/ E um garçom preocupado". Falar em poeta liso, um dia a gente bebe lá, na maior, aí passa um senhor, com outro cara, aponta pra nossa mesa e diz pro amigo; "isto aqui é a Sete de Setembro. Tá sempre cheia de intelectual liso e fuleiro". Como diria Roberto Carlos, são muitas histórias, muitas recordações: o dia em que comemos um leitão em protesto contra a fedentina da rua; o dia em que dois poetas quase vão aos tapas e em vez de xingarem as respectivas genitoras, xingaram as obras poéticas: "Tua poesia é uma merda"! "Pera lá, merda é a sua poesia!"; figuras conhecidas de outras plagas que já baixaram pra tomar um chope na artéria Jaguar, Nani, Olga Savary, Duda Guennes. Uma noite, Edu Lobo, sozinho, entornando um chopinho, sem ser importunado por ninguém; mais recentemente Gretchen e as filhas balançando os fornidos bumbuns pras câmeras da TV Jornal. Enfim, bicho, foram muitas emoções. Caber tudo, só num livro. Posto Scriptum - Este texto vai para os últimos moicanos da Sete: Domingos, Branco, Antonio Falcão, Bione, Sergio Magão, Paulo Caldas, Emílio, Tarcísio Sete, Orley Mesquita, Gilvan Lemos e seu biógrafo Mulatinho, os eventuais Farfan, Sergio Gusmão, Demócrito Viagra, Maciel Melo e, lógico, para os donos do calabouço, que nos vendem fiado e ainda emprestam o dinheiro do táxi, e, especialmente, para os garçons Carlos e João, que nos saciam a sede de saber, enquanto falamos mal do governo e do próximo. |
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