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ENTREVISTA\ João Carlos Paes Mendonça
"Compromisso é com Pernambuco"

por IVANILDO SAMPAIO

O empresário João Carlos Paes Mendonça, presidente do Grupo Bompreço e do Sistema Jornal do Commercio de Comunicação, é um homem que exorciza o pessimismo. Mesmo consciente da profunda crise econômica que o Brasil atravessa, das dificuldades que o Governo enfrenta para administrar o déficit fiscal que coloca nas alturas a dívida pública, de uma recessão que se avizinha e do desemprego que aumenta - ele continua acreditando que esse quadro será superado: "O mundo não vai acabar, o país também não. Com trabalho, bom senso e perseverança nós vamos sair dessa crise, vamos voltar a crescer e criar oportunidades de emprego", costuma pregar.

Essa maneira realista e pouco ortodoxa de ver o país talvez se justifique pela própria formação de João Carlos: na sua biografia, já exaustivamente comentada e divulgada pela imprensa nacional, está escrito que tudo começou num pequeno lugarejo de Sergipe - Serra do Machado - quando, numa pequena mercearia, ao lado do pai, iniciou-se no mundo do varejo.

Hoje um dos líderes empresariais mais respeitados do País, presidindo um conjunto de empresas que, no último exercício, registrou vendas superiores a R$ 2,4 bilhões e deu emprego a cerca de 16 mil pessoas, João Carlos Paes Mendonça empresta ao Sistema de Comunicação que dirige, além de conceitos e comportamentos éticos que servem de modelo para os subordinados (que ele prefere chamar de "associados"), a filosofia de acreditar ser possível criar e fazer, mesmo nos momentos de crises mais agudas.

JORNAL DO COMMERCIO Presidente, o Jornal do Commercio está completando hoje 80 anos, 12 dos quais sob a sua liderança. Se o senhor tivesse que fazer um balanço de todo esse período, qual seria hoje a sua avaliação?

JOÃO CARLOS PAES MENDONÇA - Antes de nada, é preciso deixar claro que o ramo das comunicações não é a atividade principal do nosso Grupo, embora não se deixe de reconhecer sua importância nem o quanto a Imprensa pode ajudar na construção do desenvolvimento. Como já frisei em oportunidades anteriores, não constava dos nossos projetos a aquisição do controle acionário da Empresa Jornal do Commercio. Todos se recordam da crise que esta empresa enfrentava, de como se apresentava obsoleta diante do mercado, com equipamentos ultrapassados e sucateados, com inúmeras questões trabalhistas, descrédito na praça e falta de credibilidade junto ao público. Nós conseguimos restaurar o patrimônio físico e cultural de uma empresa que era um ícone de Pernambuco e que estava ameaçada de desaparecer. Restaurou-se não apenas o Jornal, que hoje é o segundo em circulaçao paga no Norte e Nordeste e o décimo sétimo do País. A Radio Jornal AM é líder absoluta de audiência há mais de sete anos. A TV Jornal, afiliada do SBT, tem igualmente os maiores índices de audiência de toda a rede, excetuando-se a praça de São Paulo. Então, para responder de forma direta à sua pergunta, eu diria que somados os prós e os contras, o nosso saldo é altamente positivo.

JC - O senhor falou que, como empresário, nunca havia cogitado em ingressar no ramo das comunicações. Hoje, 12 anos depois, que avaliação o senhor poderia fazer dessa experiência? Foi positiva ou negativa?

JCPM - Eu não era um empresário do setor de comunicações, mas era empresário. Tinha uma visão de mercado, trazia uma longa experiência adquirida não apenas no comércio varejista, mas também nos setores de indústria e de serviços. Foi essa experiência que - mais como um orientador do que como executivo - coloquei a serviço da recuperação da Empresa Jornal do Commercio, primeiro visando sanea-la; depois, determinando os investimentos necessários para torná-la competitiva. Foi assim que nós investimos na aquisição de equipamentos para tornar possível a informatização do Jornal - aliás, o primeiro a concluir um projeto desse porte no Nordeste -; que adquirimos uma rotativa com capacidade de imprimir em off-set e a quatro cores; que apoiamos a estruturação de uma redação onde, desde então, se buscou o equilíbrio entre profissionais experientes e conceituados contratados no mercado, com o talento de uma juventude que saía dos bancos das faculdades. Aliás, o Jornal do Commercio é nacionalmente conhecido como uma grande escola de jornalismo, com vários dos profissionais que por aqui passaram hoje brilhando na grande imprensa nacional. Como se vê, não foi uma tarefa que se realizasse do dia para a noite, mas um projeto que foi sendo gradativamente executado, com a participação de toda uma equipe que sempre acreditou no seu grupo dirigente.

JC - Embora não seja a atividade principal do Grupo Bompreço, hoje o senhor é visto pela comunidade como um empresário do ramo das comunicações. Como o senhor vê isso? É bom ou é ruim?

JCPM - Como eu disse antes, essa não é a nossa atividade principal. Empresário de comunicação é um dr. Roberto Marinho, foi um Adolfo Bloch, um Vitor Civita. Mas como empresário que preside também um Sistema de Comunicação, eu acho que nós podemos prestar bons serviços à sociedade. No Jornal do Commercio, nós levantamos a bandeira de "Pernambuco em Primeiro Lugar", realizando discussões, foruns e reuniões onde se procurou avaliar as potencialidades do Estado. Lideramos a campanha em defesa de uma Refinaria de Petróleo. Participamos de diversas campanhas de interesse comunitário. Ajudamos a difundir e divulgar nossos valores culturais. Combatemos a violência, denunciamos o flagelo da seca, cobramos providências das autoridades para os nossos sérios e graves problemas. E acho que podemos continuar fazendo muito mais pelo nosso Estado e pela nossa Região. Como não tenho ambições nem pretensões políticas, creio que a comunidade entendeu ser esse nosso esforço, o esforço do Sistema Jornal do Commercio de Comunicação, um serviço que se presta à sociedade. Aprendi, também, nesses 12 anos, que a maior qualidade de um jornal é a seriedade e a independência de sua linha editorial. Isso, algumas vezes, tem gerado imcompreensões de algumas pessoas que julgam seus interesses pessoais maiores do que os interesses gerais da coletividade. É o preço que se tem a pagar - mas não é muito quando se tem a consciência tranqüila do dever cumprido.

JC - Presidente, o país vive, provavelmente, a sua maior crise neste século. Há uma dívida interna que assusta pela sua dimensão; os níveis de desemprego são os mais altos desde o final da Segunda Guerra; crescem os números de falências e concordatas; aumentam os índices de probreza nos grandes aglomerados urbanos; há receio pela volta da inflação. Dentro de um quadro como este, dá prá ser otimista?

JCPM - O quadro é difícil, todos reconhecem, mas o Brasil não vai acabar. Nós continuamos acreditando no País e na nossa Região, mantendo o nosso cronograma de investimentos anteriormente traçado. Ainda este mês o Bompreço inaugura o seu primeiro Hiper em Feira de Santana, na Bahia. Depois, em setembro, será a vez do Hiper de São Luis, no Maranhão. Em novembro, será aberto o Hiper de João Pessoa. Ao mesmo tempo, estão sendo remodeladas e modernizadas várias lojas da rede Bompreço, nos diversos Estados onde ela está presente. No Jornal do Commercio, nós estamos adquirindo uma nova rotativa, de última geração, e ampliando a capacidade do nosso parque industrial. Recentemente, concluimos mais uma reforma gráfica no Jornal, que o coloca como um dos mais modernos do País. O rádio e a televisão também se modernizam e se atualizam. Não há razão para euforia - mas também não é cultivando pessimismo que se constrói

JC - Para finalizar, que mensagem o senhor deixaria para os leitores do Jornal do Commercio?

JCPM - Quando o Jornal completou 75 anos, em discurso que pronunciei na oportunidade, entre outras coisas eu disse o seguinte: o Jornal do Commercio, renovado mas fiel aos velhos compromissos, está consciente de sua função social e de que tem um papel importante a realizar nestes tempos difíceis, inclusive para restaurar a autoestima dos pernambucanos. Eu creio que aquelas palavras pronunciadas há cinco anos continuam atuais. Todos nós temos uma importante tarefa a desempenhar - empresários, líderes políticos, jornalistas, todos, enfim, precisamos nos engajar num grande projeto que traga de volta a crença que sempre tivemos no nosso futuro e que nos últimos tempos andou meio abalada. Precisamos construir o Pernambuco de amanhã, um Estado que seja forte, pu-jante, independente. Um estado onde nossos netos tenham justificado orgulho de residir.

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