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COMPORTAMENTO - Anos 30
Zeppelin traz a época dos filmes sonoros

José Pernambucano da Silva pára para tomar fôlego. A vertiginosa década de 20 parece não ter deixado mais nada para acontecer nos próximos dez anos que se seguiram. Apenas três anos antes do início da década de 30, foi estabelecida a correspondência aérea entre o Recife, Rio de Janeiro e Buenos Ayres, no dia 7 de março de 1927. Antes disso, em 1922, no dia 30 de março, os aviadores portugueses Gago Coutinho e Sacadura Cabral desembarcaram no Recife vindos de Lisboa, um trajeto inconcebivelmente longo.

Mesmo assim, a aparição do Graf Zeppelin, no dia 22 de maio de 1930, causa comoção. O grande charuto prateado, pilotado pelo comandante Hugo Eckener, sobrevôa a cidade a 300 metros de altura, saudado pelos moradores do Recife que, encarapitados nos edifícios mais altos da cidade, observavam seu trajeto rumo ao Campo do Jiquiá.

A cidade continua com seu clima de belle époque: as orquestras passam a incorporar o jazz ao seus repertórios, o número de salas de cinema sobe para 18, e os filmes sonoros vêm pôr uma pá de cal na produção cinematográfica made in Recife, junto com as orquestras que animavam as exibições dos filmes mudos da década passada.

Damas e cavalheiros ganham ares mais "globalizados", ou menos "provincianos". O banho de mar durante o verão torna-se hábito consagrado. Nesta estação, poucas são as famílias que (não) migram para Olinda ou Boa Viagem. Os patriarcas, não podendo tirar férias, junto com a esposa e a criançada, levam-nos em carros alugados, atulhados de toda a sorte de tranqueira: de cortinados a doce de jaca. Boa Viagem, um ermo ainda sem transporte público, recebe as famílias endinheiradas do açúcar; Olinda democratiza o banho de mar graças aos bondes. Os trajes são roupas inteiriças para homens e mulheres, uma espécie de maiô feito de um tecido grosso, quase sempre preto, que não revela a totalidade das formas femininas. As matronas ainda resistem e preferem se banhar nos camisolões de antigamente.

OUTRAS DIVERSÕES - O futebol ocupa finalmente um lugar de destaque no coração dos recifenses. Apesar de já ser praticado regularmente em clubes desde 1901, com a fundação do Clube Náutico Capibaribe, e o posterior surgimento do Sport (1905) e do Santa Cruz (1914), o futebol no Recife só foi se profissionalizar nos idos de 1939, com a importação de grandes craques.

Os ingleses levavam o esporte tão ou mais a sério que os brasileiros e se encarregaram da criação dos primeiros times. Os funcionários da Great Western, Western Telegraph e Tramways já jogavam entre si, e não tardou para para que a socialização com os brasileiros começasse a acontecer, e as disputas com times locais como o Flamengo, o Torre, o Peres e o América ficassem cada vez mais acirradas. O Tramways ("Trâmis"), inclusive, chegou a ser campeão estadual em 1936 e 1937.

A influência inglesa, aliás, encontra-se no auge. A inauguração do The British Country Club como uma segunda casa das famílias britânicas e ponto de confraternização binacional, no início da década passada, vem aumentar a mistura de influências. Se o brasileiro passa a incorporar em seu vocabulário palavras como goal-keeper, center-forward e off-side, o inglês passa a ser um amante dedicado dos bailes de Carnaval.

É uma década ruidosa esta. Ninguém desconfia que uma segunda guerra mundial se avizinha, mas o clima no país não parece ser tão livre de nuvens assim. No dia 26 de julho de 1930, João Pessoa, o presidente da Paraíba, que, segundo os costumes da época, sempre que vinha ao Recife encontrava-se com industriais e políticos para debater a delicada situação da política nacional, é morto a tiros por João Dantas, que apoiava o governo federal. Durante praticamente toda a década, a cidade convive com os conflitos que explodem nas ruas e nos quartéis. A cidade respira no mesmo ritmo do resto do país, entre suspiros aliviados da vida mundana, e arquejos de suspense quanto ao futuro nacional. A década de quarenta está ali na esquina, e, esta sim, mudaria os costumes como nunca no Recife tradicional.

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