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COMPORTAMENTO - Anos 40
Reflexos da guerra vêm em transportes coletivos

O começo da década de 40 muda um hábito simples de José Pernambucano da Silva: em vez de colar o ouvido no grande rádio de válvula para ouvir a PRA-8, primeira e, até então, única estação da cidade, seus dedos procuravam capturar no dial a BBC de Londres. Tal escolha era uma pista precisa do que se desenrolaria a seguir e da influência que a 2ª Guerra Mundial teria sobre os costumes da população local.

Embora as peripécias de Hitler e Mussolini provocassem apreensão, a Grande Guerra ainda estava longe e, mais longe ainda, dos trópicos. A cidade aproveitava para se divertir: o Teatro de Amadores de Pernambuco iniciava sua longa trajetória com a montagem de Dr. Knock ou o Triunfo da Medicina, levada pelos médicos e suas esposas, sob a batuta de Waldemar de Oliveira.

Surgiam os germanófilos de plantão que, invariavelmente, conflitavam com aqueles simpáticos aos aliados, a grande maioria. Hitler era motivo de galhofa. Com a típica mania brasileira de fazer humor com coisa séria, surgiam no Rio de Janeiro - e espalhava-se por todo o país - as primeiras marchinhas em torno da figura de Hitler: "Quem é que usa cabelinho na testa/e um bigodinho que parece mosca/só cumprimenta levantando o braço/êêê, palhaço".

O calor do momento fazia com que a população local se posicionasse contra alguns estrangeiros que nada tinham com o conflito. Na verdade, váias famílias estrangeiras passariam a sofrer discriminação e ser condenadas ao ostracismo pela sociedade. Em 1942, após o afundamento dos navios brasileiros Baependi, Taubaté e Bahia, um vergonhoso quebra-quebra contra as casas Vanthuil, a Herman Stoltz, o Regulador da Marinha, a Gino Luchesi e a Sorveteria Gemba e outros estabelecimentos de propriedade de estrangeiros, veio coroar o clima de animosidade.

TEMPOS DUROS - Em 1942, o Recife virou uma cidade diurna e teve de dispensar a velocidade e praticidade do automóvel. Um racionamento de gasolina imposto pela Guerra obrigou todos, exceto os médicos, a utilizarem os transportes coletivos. Os carros de gasogênio (que faziam uma fumaça fedorenta) e o acréscimo do álcool anidro à gasolina foram algumas das formas de driblar a crise.

Um misto de rivalidade e fascínio atingia os rapazes da época. Se, por um lado, eles procuravam imitar os novos modos ("americanalhados" no dizer de alguns): vestindo slacks, andando de jeep, usando óculos ray-ban, colocando os pés sobre a mesa, tomando Coca-Cola direto da garrafa (antes dos americanos, a preferência era do guaraná e das gasosas de limão e maçã fabricados pela Fratelli Vita), por outro eles se sentiam ameaçados quanto à preferência feminina.

Os gringos altos, de olhos azuis e, ainda por cima, fardados, conquistavam com mais facilidade a preferência tanto das moças de família quanto a das profissionais da Rua da Guia. A retaliação se dava mais a nível ideológico, embora algumas tapas e arruaças também acontecessem. As meninas de classe média que se metessem com gringos eram chamadas de "garotas Coca-Cola", um tremendo insulto na época e uma forma eficaz de intimidar as menos ousadas.

Os U.S.O.s (United Service Organizations) eram clubes criados pelas autoridades americanas para que os seus soldados não ficassem entediados e com vontade de voltar logo para casa. O primeiro a funcionar na cidade do Recife foi o Beach Club, na Praia de Boa Viagem (provavelmente no assim chamado Cassino Americano) e o segundo e mais duradouro foi construído na Rua do Sol.

Era o tempo do jitter-bug, uma dança moderníssima inventada pelos americanos que mexia com o corpo todo. Em seguida foi a vez do boogie woogie, um pouco mais calma, mas ainda assim estranha a nós. Nos clubes dos americanos, mulheres eram bem vindas, homens, nem todos. Comenta-se que alguns pais de família levavam filhas e esposas à porta e depois iam buscá-las, num verdadeiro esforço de guerra.

O fim da década de 40 levou embora os americanos e fez a cidade voltar os olhos para a política nacional e local. O estudante de Direito Demócrito de Souza filho foi baleado e morto em praça pública. Getúlio Vargas experimentou o fim do seu governo. O Recife nunca mais seria o mesmo.

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