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COMPORTAMENTO - Anos 80
Trilhos demais para uma geração confusa

"Nossos ídolos não são os mesmos e as aparências não enganam mais", bradava Elis Regina, a plenos pulmões em 1976. A letra de Belchior preconizava o que seriam os anos 80: uma década de transição, de uma gente que pegou um bonde uma rua de muitos trilhos: os que vinham a pé de Woodstock e que sentiam dificuldade em se livrar dos cabelos longos e pensamentos mais compridos ainda; os que amavam a revolução e já não sabiam o que fazer com ela em tempo de anistia e abertura; os órfãos dos embalos de sábado à noite.

A geração dos anos 80 é híbrida. Era lindo chamar-se uns aos outros de "burguês-alienado" ou "bicho-grilo", conforme o gosto do freguês. Unanimidade, porém, era a quebra de alguns tabus sobre o sexo: a virgindade estava com os dias contados, ninguém mais fazia caso dela. Namorar para casar virgens não-praticantes era o comum.

As influências que lá gorjeavam, também cantavam do lado de cá. Os jovens que invadiram Wall Street em busca do seu quinhão de riqueza lançaram o movimento yuppie. No Recife, eles presferiam os restaurantes como o Galo D'Ouro, o Mafuá do Malungo, o Porcão, o Spettus, tomando uísque Logan e bebericando Keep Cooler. Não eram, porém, a cópia fidedigna dos seus similares norte-americanos; o dinheiro que corria lá, não corria igual nas bandas de cá. Mas a atitude era de todo imitada: ternos bem cortados, cores sóbrias, uma boa marca de sapato, óculos moderninhos e, alguns, até rabos de cavalo como uma espécie de rebeldia fashion.

Outras tribos fizeram sucesso: os góticos, que tiveram um pequeno, mas fiel número de adeptos, que percorriam cemitérios, vestiam-se de preto, evitavam a luz do sol e recitavam-se poemas tristes. Iam dançar na Misty. E os punks, que aqui só chegaram na versão butique, uma vez que a periferia - legítima herdeira da corrente - não se interessou em adotar a idéia e a estética. Também iam na Misty. As garotas e garotos new wave, que adoravam a Fernandinha Abreu no tempo da Blitz: gel no cabelo, figurino verão, e cabelo repicado. Também dançavam na Misty

A classe média cinzenta ia à praia, tentava um ou outro topless que era detido à base de "joga areia na Geni" e se encontrava nas feirinhas de bairro, principalmente a do Entroncamento. Para que? Nada. Sentar-se em desconfortáveis cadeiras de ferro, beber cerveja. Um banquinho e um violão eram tudo. Uma verdadeira mania de bares com música ao vivo e o surgimento de verdadeiros ídolos locais. Os cinemas de bairro já eram um passado distante. Os do Centro tinham de escoar a produção do mundo todo. Nunca se viu tão pouco no Recife.

O Recife estava calado. Ouvia-se o que era produzido lá fora: Smiths, The Cure, Pet Shop Boys; ouvia-se o que era produzido lá embaixo: Legião Urbana, Capital Inicial, Ira. Mas não se ouvia mais o que se fazia por aqui, algo bom como o Ave Sangria. Recife parecia não ter voz para dizer o que sentia a respeito dos anos 80. Enfim, uma década de baixa estima para os pernambucanos que não se lembravam mais que a capital era bonita e era feliz. Um tempo em que bom mesmo era o que podia se buscado lá fora.

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