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COMPORTAMENTO - Anos 90
Parabólicas ligam mangue ao mundo

Se fosse para escolher um ícone que resumisse a essência do Recife à beira do ano 2000, este seria o caboclo de lança. Foi na volta às origens que a cidade redescobriu a estima perdida ao longo de oito décadas. Se fosse para escolher uma voz que sintetizasse esse mesmo espírito, esta seria a de Chico Science, o caboclo de lança pop que fez a cidade se olhar no espelho.

O Recife dos anos 90 assume hábitos globalizados, mas encontra a posição confortável de assumir a própria identidade. O final do milênio parece trazer a consciência de que tudo pode ser engolido e processado. O Recife que olhava com espanto a ousadia das melindrosas dos anos 20, hoje olha quase com apatia para os piercings dos anos 90. Tem lugar para todos.

Procurando espaço para respirar, a cidade há muito já ultrapassou os limites da Praia de Boa Viagem, onde antes com uma entourage que exigia automóvel e um certo espírito aventureiro, para que apenas algumas famílias mais abastadas gozassem das delícias do banho de mar. O Recife se estende para trás e para frente, criando bairro onde antes morava apenas o vazio. A cidade não pára, a cidade só cresce, diria o caboclo atômico.

O Capibaribe testemunha em silêncio o ressurgimento do Recife Antigo. Ele próprio, que já esteve quase morto com o aterro de seus estuários, sabe que a vida volta de outra forma. Saíram as prostitutas do Chantecler, da Rua da Guia, chegou a classe média para se encantar com um charme que já foi legítimo e hoje é multicolorido.

A nostalgia de velhos carnavais rende boas letras de frevo e só. Não há corso, nem lança perfume e as festas nos clubes ameaçam ser páginas viradas. Tem, sim, carnaval fora de época quando, em outubro, sem mais nem menos, todos celebram uma data inexistente. O carnaval de verdade, o de fevereiro, talvez copiando a mistura das tribos, foi para as ruas para ver caboclinho, maracatu e bloco. O Recife voltou a se olhar no espelho sem medo de ver uma cara branca, preta ou vermelha.

A Rua Nova não é mais lugar para o flerte, os shopping centers acumulam lojas e gente no seu interior. O centro do Recife não é mais o seu coração, não é mais destino, mas ponto de passagem. A insegurança não mais permite que se atravesse a madrugada a pé.

Os cinemas ganham em conforto e tecnologia, mas perdem em tradição. Trianon, Moderno, Veneza e Art Palácio já entregaram os pontos. O São Luiz ainda resiste na sua suntuosidade decadente. A imagem volta a ganhar movimento nas mãos de jovens realizadores. Homens e mulheres pegam a câmera, registram cotidianos e contam história depois de uma longa hibernação: um lapso de 20 anos entre o primeiro e o mais recente longa-metragem: Baile Perfumado.

O Recife voltou a cantar. Um canto visceral que diz ser misturado com a lama que um dia, insensatamente, ajudou a soterrar. Através desse canto - com a força ritual que só a música tem - o morro desceu para cantar no Recife tradicional, onde eles sempre estiveram à margem. O Alto Zé do Pinho, o Mandu, Peixinhos, a Guabiraba cantam e a cidade escuta reverente.

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