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REGIONAL
De longas secas e bravos sertanejos

Viver no Semi-árido nordestino não é fácil. Chove pouco e de forma irregular, há longos períodos de seca, o calor predomina na maior parte do ano, existe pouca água para abastecer a população. Neste cenário dramático - onde a fome e a sede são corriqueiras e as soluções nunca chegam - parece impossível tocar a vida. Mas há quem defenda a permanência no Sertão com afinco. "Aqui só não é melhor porque não chove muito. Mas é o lugar mais descansado do mundo", garante a agricultora Maria Fausta de Jesus, 89 anos, que mora desde que nasceu numa área de sequeiro, no distrito de Uruás, em Petrolina.

Dona Fausta diz jamais ter pensado em arredar o pé do Sertão do São Francisco, onde criou dois filhos junto com o agricultor Enemésio Clodoaldo Rodrigues, 84, com quem casou no ano de 1941 e vive até hoje. Nestas mais de oito décadas de vida, eles enfrentaram as piores secas do século.

Na memória de Dona Fausta, a seca de conseqüências mais graves para a população nordestina foi a ocorrida em 1919. "Naquele ano, até os papagaios morreram de fome tamanha foi a falta d'água e de alimentos", conta, ressaltando que, mesmo com as dificuldades trazidas pela estiagem, nunca faltou comida em casa, onde seus pais dividiam o pouco que tinham entre ela e mais seis irmãos. "Graças a Deus nunca deixamos de contar com a rapadura, a farinha e o café".

A lida na roça começou ainda na infância e só foi encerrada há dois anos, quando começou a sentir fortes dores na coluna, que a impedem de pegar na enxada. "Tanto eu quanto meus irmãos começamos a trabalhar logo cedo para garantir o sustento da casa e sempre estivemos firmes no roçado", lembra.

A trajetória de Seu Enemésio não foi muito diferente. Aos sete anos já trabalhava na roça junto com os 10 irmãos e os pais, no Sertão da Bahia. A sua ligação com a terra é tão forte que logo que vê o céu se preparar para a chuva corre para o campo, onde ainda insiste em continuar plantando feijão, milho e mandioca. "Quero morrer quando não puder mais trabalhar", afirma.

Para ele, a seca mais "braba" foi a de 1932. "O povo escapou comendo angelim, batata de pau branco, macambira e cuca de umbuzeiro", recorda, numa referência a algumas plantas nativas da caatinga. Ele lembra que por conta desta estiagem teve de viajar para o Piauí, onde foi trabalhar na construção de uma estrada de ferro.

As secas de anos de 1937 e 1939 ainda o levaram a "arribar" para Araripina, no Sertão do Araripe, e São Lourenço da Mata, na zona canavieira do estado, em busca de emprego. Depois que casou, Seu Enemésio se fixou no roçado em Uruás, onde também trabalhou como vaqueiro durante 20 anos. De lá para cá, conta, os invernos foram rareando e houve outras grandes estiagens nos anos de 53 e 83. "A seca do ano passado também foi temerosa. Só consegui colher uma vagem do feijão que plantei".

A sobrevivência do casal, que recebe em casa água de um poço amazonas instalado nas proximidades, depende das aposentadorias rurais de um salário mínimo para cada. Eles não acreditam que a solução para os sertanejos esteja no caminho para São Paulo. "A gente já viu tanta gente sair daqui para o Sul... Mas, quem é que garante que eles estão bem"? Para o casal, a saída para os nordestinos está no trabalho na roça, tocado por homens e mulheres "de coragem": "não adianta sair por aí procurando a felicidade. Ela está aqui".

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TAÍZA BRITO
repórter da Editoria Regional, atua na redação do Jornal do Commercio desde outubro de 95, tendo iniciado no batente em 93 na Sucursal do JC em Petrolina, onde nasceu. A jornalista já atuou na produção de noticiários das TVs Pernambuco e Asa Branca (afiliada da Rede Globo em Caruaru) e no JC passou pelas editorias de Brasil, Internacional e Economia.