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`COMPORTAMENTO
Verdade ou Mentira? Fica valendo a imaginação

As histórias da cidade, formadoras do imaginário popular, nascem em geral de três vertentes: crença, trauma social ou o trabalho amplificador da mídia e, antes, da tradição oral. Para estudiosos como Liedo Maranhão, "quanto mais pobre a comunidade maior é seu acervo de lendas e histórias fantásticas. A pobreza é acentuadamente contemplativa e valoriza o que a cerca. As megalópoles são estressantes, a ânsia de alcançar o sucesso ou a riqueza gera muito mais violência do que histórias amenas, inocentes e fantásticas, que vicejam nas pequenas cidades. As grandes cidades já não produzem histórias inocentes, quando têm tradição preservam parte do que os antepassados criaram".

O jornalista Homero Fonseca, autor de Viagem ao Planeta dos Boatos - excelente pesquisa e interpretação da histeria coletiva que tomou conta do Recife na manhã de 21 de julho de 1975, o boato do estouro da barragem de Tapacurá - concorda que o trauma somado à histeria cria o pânico, favorece a absorção do boato catastrófico, exatamente o que aconteceu ao Recife. Para Homero "houve uma conjunção de trauma mais trama".

Depois das enchentes de 1970 houve pressão para que os governos estadual e federal cuidassem da proteção da cidade. Em 1973 inaugurou-se a barragem de Tapacurá, uma parte do mecanismo para proteger o Recife das cheias, mas absolutamente insuficiente. Era preciso fazer outras barragens, que só se construiram a partir de 1976. No entanto, "vendeu-se" Tapacurá como a solução para as enchentes. A população, traumatizada com a grande enchente de quatro dias antes do boato, estava com os nervos à flor da pele. Quando alguém gritou que Tapacurá havia estourado, a cidade foi presa fácil da histeria.

E isso nada tem com subdesenvolvimento. A mesma histeria, muitíssimo semelhante, ocorreu no dia 20 de agosto de 1955, na pequena cidade de Port Jervis, no estado de Nova Iorque. Lembra Homero Fonseca que a cidade sofrera uma grande enchente dos rios Daleware e Neversink. De repente, no meio da noite, alguém gritou que a barragem de Wallenpaubac tinha estourado. O pânico foi o mesmo do Recife. Em 1939, um programa de rádio transmitiu a "invasão da terra pelos marcianos", uma produção da fértil imaginação de Orson Welles, que botou Nova Iorque para correr apavorada.

Os jornais, não raras vezes, sobretudo as chamadas folhas populares, excitam a imaginação do leitor e criam mitos. O Diário da Noite, no fim dos anos 40, publicou matérias que assustaram Olinda. O repórter José do Patrocínio Oliveira justifica: "naqueles tempos heróicos não se planejava o jornal. Ele nascia da intuição do repórter, das conversas de rua, da caça à notícia. Um jornal popular se alimentava de histórias que agradassem ao povão. E elas duravam até que o povo as consumisse ou perdesse o interesse. O Makobêba foi assim, e também a Santa de Casa Amarela".

O Makobêba tem crônica longa. Gilberto Freyre já dele se ocupava em A Província, por volta de 1928. Era uma espécie de vampiro, de capa esvoaçante, todo de negro. Assim como "apareceu" em Olinda, como golpe de marketing de um ator, mas que assombrou namorados e pais! Nesta página, três exemplos de histórias da cidade: a crença (mito do papa figo), a histeria (estouro de Tapacurá) e o trabalho da mídia (Makobêba de Olinda).

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FERNANDO MENEZES
Iniciou sua carreira pela Editoria de Polícia e ocupou quase todos os cargos da redação, de editor de Esportes a secretário de redação. Fez coberturas internacionais, e, hoje, é colunista de esportes e repórter especial.