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`COMPORTAMENTO II
Um boato digno de Orson Welles

O povo ainda lambia suas feridas de uma enchente devastadora que mudara a face do Recife quatro dias antes. E foi então que um grito, não se sabe de quem e nem onde, às 10 horas da manhã de 21 de julho de 1975, enloqueceu a cidade. A barragem de Tapacurá estourou! A mensagem, como uma corrente elétrica, foi passando de bairro a bairro, de pessoa a pessoa, de rua a rua. O povo, aturdido, indagava dos policiais e ouvia a confirmação: a barragem estourou. Uma rádio, na tentativa de desmentir, ao falar do boato jogou mais gasolina. Quem ouvia as primeiras palavras, simplesmente disparava rua a fora, uma reação ditada pelo pânico mais completo.

As cenas daquela manhã pareciam seqüências dos filmes-catástrofes. Os automóveis, com os faróis acesos, trafegavam pela contra-mão, e até por cima das calçadas, ou eram abandonados no meio do trânsito. Nos ônibus, as pessoas que ouviam rádio gritavam como loucas, queriam descer, simplesmente descer para correr. Na avenida Caxangá um motorista tomou a iniciativa. Parou o ônibus no meio da confusão, e ele mesmo disparou na direção da praça João Alfredo. Muitos dos passageiros fizeram o mesmo.

O mais impressionante era ver as pessoas, enloquecidas, que desciam de seus automóveis, e como não podiam seguir em frente, pelos congestionamentos, arrancavam com as mãos o gelo baiano para fazer o retorno, na busca de pista mais livre. Enquanto corriam, uns perguntavam aos outros o que estava acontecendo, e as respostas realimentavam o pânico: "Tapacurá estourou, a água já vem no Derby, com mais de dez metros de altura!".

Nos edifícios do centro da cidade, os elevadores estavam parados, o povo subia as escadas em busca de um abrigo seguro, lá no alto. E havia os que, perplexos, parados no meio da rua, olhavam aquela loucura sem saber o que fazer. O pânico durou cerca de vinte minutos. As emissoras de rádio começaram a pedir calma, o próprio governador em sucessivas entrevistas desmentia o boato, mas insinuava que os "subversivos" eram responsáveis por aquele ato de sabotagem, de atentado à segurança do povo!

Na verdade, o pânico não foi gratuito. O povo tinha assistido e sofrido uma enchente catastrófica, que resultou num mar de lama, que invadiu as casas dos bairros mais próximos do rio e dos córregos, destruiu tudo, não raras vezes as economias de uma vida inteira. Não foram poucas as pessoas que ficaram ilhadas, alojadas no telhado de suas casas, vendo passar arrastados pela correnteza barrenta animais mortos, móveis, pneus velhos e até cadáveres. Quem se arriscava a descer, para ver o que sobrara em casa, esbarrava em ratazanas e cobras. Um horror. E tudo isso há apenas quatro dias! Então, quando se ouviu que Tapacurá estourou - barragem-esperança vendida ingênua ou maliciosamente como solução para as enchentes pela propaganda oficial - disparou-se o mecanismo da histeria. E todo mundo reagiu em pânico. Um dia de cão.

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