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`COMPORTAMENTO IV Mito do papa figo infernizou vida das crianças da cidade "Menino vem pra casa que o papa figo te pega!". Esta foi a ameaça que assustou as crianças do Recife por mais de um século. E não era só para apressar o fim das brincadeiras de rua, no começo da noite. Servia também advertir os meninos que recusavam as refeições. Ficar pálido era ficar "igual a um papa figo". A representação do personagem era a mesma em todas as casas e em todos os bairros: um homem magro, de olheiras, muito pálido, e com orelhas enormes. Invariavelmente se dizia que era um parente do "Amorim, o velho papa figo da cidade". E este homem mau comia o fígado de crianças. Uma versão tropical do vampiro da Transilvânia. O nosso personagem não tinha caninos salientes e nem usava capa preta. Não chupava a carótida de suas vítimas. Na verdade, seria doente incurável, e só o fígado de crianças tenras o mantinha vivo, e, ao mesmo tempo, isolado e maldito. Como toda lenda, a do "papa figo" tem qualquer coisa de lógica. A anemia, naquele tempo, era tratada com alimentação. De remédio, apenas doses de ferro. A ingestão de fígado bovino faz bem aos anêmicos. E assim, a partir de uma indicação correta, fez-se a lenda do fígado de crianças, pois que teria a força milagorosa de manter vivos os anêmicos irrecuperáveis, e também os leprosos, que sofriam da mais terrível doença daqueles tempos do muito antigamente. A partir do final dos anos 50 a lenda foi perdendo a força. A cidade cosmopolita, o rádio moderno e, logo depois, a televisão criaram outros e novos mitos. Mas, afinal, de onde veio a lenda, onde habitava o papa figo? SÍTIO DA CRUZ - Era ali, defronte onde hoje está a empresa de informática municipal, a Emprel, instalado num belo palacete neoclássico. O imenso sítio, que foi dilacerado para a instalação da Embratel, era o chamado Sítio da Cruz. Mais tarde tornou-se o Parque Amorim. Ali viveu, provavelmente, uma família abastada. É possível que alguém desta família tivesse um aspecto doentio, e quem sabe, fosse portador de lepra e vivesse recluso. Tudo isso fermentou de tal modo que fabricou a "lenda dos Amorim". Mas, não há nada de concreto, tudo foi fruto da imaginação popular. E por que teriam os moradores do sítio o hábito de comer fígado de criancinhas? Certamente, seguindo a lógica da lenda, para combater a anemia profunda e reduzir o tamanho das orelhas, além de se manterem vivos. Mas, há algumas informações e especulações menos delirantes. Os moradores do Sítio da Cruz tinham o hábito de consumir fígado bovino, por mero gosto e preferência. E como eram de tipo esquisito favoreceram a exacerbação da lenda. E de bovino o fígado consumido passou a ser de criancinhas. A lenda foi tão difundida na cidade que o sociólogo Gilberto Freyre dela se ocupou, no seu excelente Assombrações do Recife Velho (Editora José Olympio - 1955), omitindo designar a doença e o nome da família. A lenda fixou-se em Amorim provavelmente por causa do local, Parque Amorim. Assim se refere mestre Gilberto Freyre. De uma família opulenta do Recife se diz que no século passado sofreu o desgosto de ver definhar o chefe, vítima de uma doença das mais inimigas do homem. Mas, a tradição popular conta outra história. Diz que o ricaço estava dando para lobisome, alarmando a população, empalidecendo, amarelecendo, perdendo toda a cor da saúde, como em geral os homens que dão para lobisome. Torna-se mais bicho do mato do que homem de sobrado. Desesperado de encontrar cura ou alívio para seu mal na medicina, recorreu ao saber misterioso dos negros velhos. Um dos quais, depois de examinar o doente, dissera à família: -Ioiô só fica bom comendo figo de menino!". Está aí a lenda do papa figo. |
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