![]() |
![]() |
![]() |
TECNOLOGIA O século da comunicação total
por BENIRA MAIA Isto é uma loucura!", reagiu o presidente brasileiro Rodrigues Alves diante do pedido do jesuíta gaúcho Roberto Landell para realizar a primeira transmissão sem fio entre navios. Mal sabia o presidente que o padre havia inventado o anematófono e o teletition, dois aparelhos de comunicação a distância e sem o uso de fios. O ano era de 1905 e, por causa do descrédito e da idéia de que tais invenções "eram coisa do demônio", o padre não realizou a transmissão marítima, teve a casa incendiada e as patentes foram registradas nos Estados Unidos. Noventa e quatro anos depois, a história é outra, definitivamente. O mundo não só já não se espanta como também sequer consegue mais imaginar a vida sem a telecomunicação. Hoje a terra pode ter seu mapa desenhado por milhares de quilômetros de fibras ópticas e cabos de cobre e recheado por antenas, satélites, aparelhos de última geração e um número inimaginável de transmissoras. O mapa tecnológico atual serve também como uma espécie de divisor dentro da escala evolutiva que aponta para uma nova fase da história humana. Exagero? Nem tanto. Já há quem acredite estarmos vivendo uma espécie de pós-história, definida a partir da comunicação oral a distância e não da escrita. "O fato de podermos nos comunicar instantaneamente é um marco de comportamento enorme. É um impacto tão importante quanto foi o da escrita", sentencia o vice-presidente regional da BCP, Michel Levy. "Estamos realmente vivendo uma nova história social", concorda o superintendente da Telecom Italia Mobile (TIM), Manoel de Deus Alves. "Toda esta globalização só é possível com a revolução da comunicação", diagnostica o físico e engenheiro eletrônico Sérgio Rezende, ex-secretário estadual de Ciência, Tecnologia e Meio Ambiente. A velocidade das novas tecnologias poderia até tirar o fôlego do canadense Marshall McLuhan, o pai da teoria da aldeia global, prevista no livro A Galáxia de Gutemberg, lançado em 1962. "Ele foi muito profético. Mas hoje, do ponto de vista tecnológico, o mundo vai mais além da imaginação possível àquele tempo", afirma o especialista em comunicação Paulo Cunha, professor da Universidade Federal de Pernambuco. salto da comunicação neste século é mesmo impressionante. Um primeiro sinal desse alcance é saber que foi apenas na comemoração do Centenário da Independência do Brasil, em 7 de setembro de 1922, ao alto do Corcovado, que o presidente Epitácio Pessoa fez a primeira transmissão radiofônica oficial do país - foi ouvida pelos visitantes da Exposição Internacional do Rio de Janeiro. Mas não precisa haver nascido nas primeiras décadas para ter a dimensão exata deste avanço. Os quarentões devem se lembrar da primeira transmissão televisionada do Exterior para o Brasil. Afinal, só faz 31 anos que, diretamente do Vaticano, o país assistiu à bênção do Papa Paulo VI. Outro exemplo mais recente da virada tecnológica? Basta voltar ao ano de 1971, quando Pernambuco começou a contar com o serviço de Discagem Direta a Distância (DDD). Até àquela data, qualquer ligação telefônica para fora do estado precisava do intermédio da telefonista. Pensar na existência de intermediadores numa ligação telefônica agora cheira a pó. Às vésperas de entrar no terceiro milênio, o homem se comunica com autonomia tecnológica totalmente impensável no início do século XX. São telefones com identificadores, celulares do tamanho de uma carteira de cigarro, aparelhos móveis de alcance mundial operados por satélite, DVD, TV por assinatura, tráfego de dados a altíssimas velocidades, Internet, fax, cópias xerográficas, pagers, videoaudiências... Equipamentos e tecnologias para encurtar distâncias, unir povos, captar e transmitir informações e facilitar o dia-a-dia. "A influência das comunicações é de nível sociológico e comportamental", acredita o engenheiro Fábio Leite, conselheiro-técnico da União Internacional de Telecomunicações (ITU), órgão ligado à ONU, com sede em Genebra e que é responsável, internacionalmente, pelas normatizações técnicas do setor. A influência é tão grande e já está tão assimilada que ninguém pára para pensar no que seria a vida sem elas. Quem já se perguntou quanta tecnologia está empregada em poucos minutos? Um exemplo de uma notícia sobre crise financeira mundial: de casa, o cidadão assiste, pela TV colorida e com som perfeitamente audível, a cenas, transmitidas por satélites, de várias Bolsas de Valores. Lá, homens nervosos gritam aos celulares, observam painéis com cotação de outros lugares - algumas informações vindas através da Internet... Um cenário construído praticamente em um século. Da inauguração do DDI no Brasil para a invenção do telefone haviam se passado exatos cem anos. Foi em 1876 que Graham Bell lançou o aparelho que, de imediato, conquistou a Coroa Brasileira. "Santo Deus! Isto fala", disse, espantado, Dom Pedro II, ao testar o telefone com Bell durante a Feira Internacional da Filadélfia, a distância de menos de 20 metros. No ano seguinte, ele trazia o telefone para o Rio de Janeiro. E, em 1907, já existiam 550 aparelhos só em Pernambuco. Sete anos depois, eram quase 40 mil no país. Apesar desse crescimento, a telegrafia - também há poucos anos descoberta - possuía mais adeptos. Em 1911, existiam 31 mil quilômetros de linhas telegráficas no Brasil e a renda com a telegrafia era o triplo da obtida com a telefonia. Hoje o telégrafo está praticamente aposentado enquanto já são mais de 20 milhões de telefones somente no país. No mundo, são cerca de 800 milhões. Isso significa que, de cada 100 habitantes, 14 possuem um telefone. A superação de uma tecnologia por outra mais avançada é uma reação normal de um mercado tão globalizado quanto competitivo. Símbolo dos anos 90, o celular teve sua quantidade acrescida vinte vezes em menos de uma década. De 10 milhões em 1990 saltou para 200 milhões em 1998. E a evolução não pára. Agora a novidade na telefonia são os aparelhos móveis de alcance mundial, espécies de supercelulares operados em grande parte por satélites e que podem alcançar qualquer lugar da Terra. Já existem três consórcios - Iridium, Globalstar e Ico - de olho no filão. O Iridium já entrou em operação e os outros dois devem começar no ano 2000. Há quem veja o equipamento como um concorrente direto do celular; outros enxergam apenas como mais um auxílio às ligações entre os povos. "É um serviço complementar para lugares onde o celular não alcançar", diz o diretor-técnico da Ico para a América, José Luiz Moraes. EM ÓRBITA - A chegada dos supercelulares significa a possibilidade de fazer o mundo menor e também a presença de mais satélites na órbita da Terra. O primeiro satélite de comunicação, o Telstar, foi lançado pela agência espacial norte-americana (Nasa) em 1962. Hoje há um grande povoamento do espaço em volta do planeta. Colocados além da atmosfera, a 36 mil quilômetros da superfície terrestre e girando ao redor da planeta praticamente na mesma velocidade do globo, já existem quase 200 satélites artificiais responsáveis pelas transmissões de TV e rádio. Quando entrarem em operação todos os satélites envolvidos com a telefonia móvel, serão pelo menos mais 124. Esses, porém, são móveis em relação ao planeta e ficam a uma altitude bem menor - de 780 a 10.500 quilômetros. "Eles não podem ficar muito alto porque, em 36 mil quilômetros, existe uma queda acentuada no nível do sinal, a chamada atenuação", explica o engenheiro de telecomunicações Renato Maroja, da Fundação Centro de Pesquisa e Desenvolvimento (CPqD), que pertencia à extinta Telebrás. Por trás da explosão tecnológica nos últimos anos, há a informática. Seja nos programas de cálculo do tráfego telefônico, no próprio celular ou na operação dos satélites. Do surgimento do transistor, no final da década de 40, para cá, houve cada vez mais a compactação das máquinas, a aceleração do processamento e a melhoria do desempenho. O primeiro microprocessador, lançado em 1971, o Intel 4004, possuía 2.300 transistores e trabalhava numa freqüência máxima de 108 KHz. Há pouco mais de um mês, a Intel lançou o Pentium III, com freqüência de até 500 MHz e trazendo nada menos do que quase 9,5 milhões de transistores. Tudo isso numa pastilha de silício de 4,5 centímetros quadrados e meio milímetro de espessura. "O chip foi a invenção mais importante deste século, ao permitir a proliferação do aparatus de comunicação pessoal e móvel", aponta Fábio Leite, da ITU. "O desempenho dos processadores aumentou quase 50% ao ano de 85 até agora", calcula o especialista em arquitetura de computadores Sérgio Cavalcante. Esse percentual pode ser avaliado também pela quantidade de instruções da máquina. Enquanto, num único segundo, o Intel 4004 executava pouco mais de dez mil, os novos computadores chegam perto da casa dos 500 milhões de instruções. O desempenho das máquinas não seria o mesmo se não tivesse tanta gente usando o computador. Inicialmente utilizado apenas por pesquisadores e trabalhadores especializados, o micro hoje está disseminado. São trabalhadores em geral, jovens e crianças seduzidas pela magia digital. Pesquisa da Dataquest Inc. mostra já haver um computador em cada duas residências norte-americanas. O fenômeno dessa popularização atende pelo nome de Internet. Permitindo a conexão em tempo real de pessoas distantes, seja por meio da voz, da escrita e da imagem, a rede mundial de computadores hoje tem quase 3 milhões de usuários só no Brasil e outros 143 milhões no resto do mundo. Na prática, a Internet significa usuários se comunicando quase em tempo real, com velocidade média que permite o envio de 2 milhões de dados por segundo. Boa parte desses dados trafega através das fibras ópticas que interligam os países e continentes - calcula-se que só de cabo submarino óptico unindo os continentes existam quase 140 mil quilômetros, quantidade suficiente para dar três voltas e meia ao redor da Terra. Dimensões e velocidades de causar inveja aos primórdios do telegráfo, quando praticamente era um impulso por segundo. "Essa taxa ainda variava em função do telegrafista", lembra, rindo, o professor da Universidade Federal da Paraíba Marcelo Sampaio de Alencar. Autor do livro Telefonia Digital, ele dá uma risada ainda maior quando relembra uma história que mais parece piada. "Sabem como eram passados os telegramas no Rio em 1910? Havia um sistema pneumático de transmissão. O papel era jogado num tubo e empurrado por ar comprimido até o destino". |
|