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ANTIGOS COMPANHEIROS
"Foi no JC que desfrutei os meus primeiros gozos"

por RICARDO NOBLAT*

Estávamos em meados de 1968. A Universidade Católica de Pernambuco tinha sido ocupada por milhares de estudantes depois de uma passeata reprimida no centro do Recife pela PM. Do lado de fora do prédio da universidade, policiais, organizados em pequenos batalhões, esperavam ordens para agir. A invasão parecia iminente. E os estudantes estavam dispostos a enfrentá-la. Um confronto daquele não acontecia desde o golpe militar de 1964.

Eu era repórter do JC e estudava Jornalismo na Universidade Católica. Pude testemunhar, pois, o inesperado. A rígida disposição das tropas na rua foi sendo desmontada aos poucos, de trás para frente, por algo que de longe pensei se tratar de algum oficial graduado. Que mais de perto identifiquei depois como uma pequena sombra preta. E que, quando ganhou nitidez aos meus olhos, vi que era Dom Helder Câmara, arcebispo de Olinda e Recife. Um dos maiores desafetos dos militares.

Ele estava só. Os policiais abriam-lhe caminho à medida que ele avançava. Foi apoteótica a sua entrada no prédio onde os estudantes estavam reunidos. O cerco à universidade terminou depois da uma hora da manhã. Dom Helder obteve a retirada das tropas depois de telefonemas ao governador em exercício, Salviano Machado, e autoridades militares.

A edição do JC circulou com pequeno atraso. Mas conseguiu estampar em manchete de primeira página o desfecho da invasão que não houve. O jornal concorrente foi para as bancas com a manchete sobre o cerco que ainda não terminara. Só fui para casa depois que o gerente da oficina me deu um exemplar do JC.

O "furo" produzia em nós, jornalistas da época, um prazer quase orgásmico. E no JC eu desfrutei meus primeiros gozos.

* Diretor de Redação do Correio Braziliense

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