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CIÊNCIA & MEIO AMBIENTE Um peixe-boi na história de Pernambuco por FABIANE CAVALCANTI É fácil achar Xica entre os seis peixes-bois adultos que vivem nas piscinas do Centro Mamíferos Aquáticos (CMA/Ibama), em Itamaracá, ilha no norte da Região Metropolitana do Recife. Enquanto os outros animais estão juntos - brincando, buscando alimento na superfície ou bebendo água nas fontes permanentes que abastecem o oceanário - ela certamente estará mergulhando sozinha, em um local mais afastado. Conflito de gerações? Talvez. Se os indivíduos adultos do grupo têm entre cinco e seis anos, que dizer desta balzaquiana cuja idade está avaliada entre 37 e 38 anos? Mesmo tendo voltado ao convívio de outros peixes-bois há quase sete anos, Xica não perdeu o hábito da solidão, adquirido ao longo de uma vida inteira em cativeiro individual. Mais lenta que os já lentos peixes-bois, Xica geralmente é a última a passar de uma piscina para outra, ficando horas na área de cambiamento, que separa os dois oceanários onde os peixes-bois se revezam em dias alternados. A troca permite a limpeza das piscinas de 10,1 metros de diâmetro e 4,1 de profundidade. E não adianta o tratador chamar. Ela só passa quando quer. "Seu temperamento é bem diferente dos outros animais. Ela não interage muito com eles, e só permite aproximação quando está no cio", conta a veterinária Jociery Vergara, que trabalha no CMA/Ibama, novo nome do Centro Peixe-boi. Foi numa dessas "aproximações" que Xica deu a melhor resposta da natureza ao instinto dominador do homem: ficou prenhe e pariu Xiquito, hoje com dois anos e três meses. Xica pode gerar outros filhotes, pois há registros de gravidez em peixe-boi até os 40 anos. "Ela tem copulado durante o cio, mas não há indícios de gravidez atualmente", afirma Jociery. O temperamento de Xica era bem conhecido por Edson Gomes Dornelas, 46 anos, morador de Pontas de Pedra. Foi ele quem, durante quase 15 anos, catou o capim-agulha em Itamaracá e Pontas de Pedra para alimentar Xica na Praça do Derby. Edson levava para o Recife três sacos de 30 quilos cada, três vezes por semana. Quando Xica foi para Itamaracá, ele foi junto, contratado como monitor náutico pelo Centro Peixe-boi, onde trabalhou até 1996. "Xica era caso antigo", diz Edson. Ele afirma que ela sempre gostou de ficar isolada. "Quando eu mergulhava no tanque, os outros animais vinham brincar, nadavam junto. Ela não. Colocar a mão na boca de Xica, uma brincadeira da qual eles gostam, nem pensar", conta. O cativeiro individual deixou outras marcas, além do "gênio" difícil da matrona. Por nadar muito em círculo e freqüentemente no sentido horário, Xica desenvolveu uma hipertrofia muscular do lado esquerdo do dorso e uma atrofia do lado direito. "Isso gerou um desvio em sua coluna", explica Jociery. A veterinária Rosana Espíndola, que cuidou do peixe-boi de 1984 a 1992, discorda. "Ela nadava em várias direções", afirma Rosana, funcionária da Empresa de Manutenção e Limpeza Urbana do Recife (Emlurb). A família que capturou e manteve Xica em cativeiro por sete anos na Fazenda Tabatinga, em Pontas de Pedra, garante que o animal não tinha o desvio na coluna até sair de lá. Em cima da saliência no dorso, Xica tem uma mancha branca, cicatriz de um acidente ocorrido no tempo em que estava na Praça do Derby. Num dos dias de limpeza do tanque onde vivia, Xica se irritou e virou de barriga para cima. No esforço para se desvirar, ralou o lombo no chão de cimento do recinto. Até que o tanque enchesse novamente, os raios de sol queimaram o local ferido. O ferimento teve de ser tratado com antibióticos e cicatrizantes durante quatro meses. O acidente com Xica gerou grande repercussão na cidade. As crianças iam ver como o animal estava e temiam que fosse retirado para ser tratado em outro local, segundo reportagens publicadas no JC. O problema aconteceu em 19 de fevereiro de 1991 e foi a gota d'água para deflagrar a mobilização para a retirada de Xica do tanque inadequado em que vivia, o que culminou com a sua transferência para Itamaracá em 25 de agosto de 1992. Capturada em 1963 ainda filhote, em Pontas de Pedra, Xica viveu num tanque do seu tamanho até 1970, quando foi comprada pela Prefeitura do Recife e levada para a Praça do Derby, onde se tornou uma das principais atrações da cidade. Lá, o recinto de doze metros de diâmetro tinha 1,5 metro de profundidade média, insuficiente para o mergulho vertical feito pelos peixes-bois, animais costeiros que vivem em profundidades variando de 20 centímetros a 3,8 metros, em média. Para reproduzir, eles também precisam de profundidade, já que a cópula é feita na vertical. Por isso, mesmo quando Xica ganhou um companheiro - capturado por um pescador, na década de 80, e que viveu com ela por cerca de seis anos até morrer de infecção - a relação sexual nunca foi consumada. |
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