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CIÊNCIA & MEIO AMBIENTE II
Polêmica na transferência para Itamaracá

A campanha para retirar Xica do tanque foi detonada pela Associação Pernambucana de Defesa da Natureza (Aspan) e mexeu com a cidade. Quando o Projeto Peixe-boi instalou em Itamaracá sua base de manejo de sirênios, em 1991, e chegaram os primeiros filhotes, os ambientalistas viram que teriam, finalmente, um local onde ela pudesse levar uma vida mais digna. "Resolvemos pressionar o Ibama e a prefeitura para retirá-la do local. Antes não tínhamos alternativa porque ela não tinha condições de voltar para o seu hábitat natural em virtude do tempo em cativeiro", relembra Alexandre Araújo, coordenador executivo da ONG ambientalista.

Em julho de 1991, a Aspan fez uma denúncia ao Ministério Público de que o peixe-boi era mantido em cativeiro e em condições inadequadas. O procurador da República Alex Miranda instaurou inquérito civil público e ouviu os envolvidos na questão: Ibama, Prefeitura do Recife, Centro Peixe-boi e Aspan. Baseado na portaria 1.522 do Ibama, de 19/12/89, que não permite a manutenção de espécies ameaçadas de extinção em cativeiro, a não ser para estudos científicos, o procurador tomou a decisão: Xica sairia do Derby, mas somente quando a nova piscina de Itamaracá ficasse pronta, para que o animal pudesse ser estudado separadamente.

Em março do ano seguinte, os integrantes da Aspan simularam a ida de Xica para Itamaracá. Cinco meses depois, a verdadeira Xica chegou ao Centro Peixe-Boi. A operação para a sua retirada da Praça do Derby, transmitida ao vivo pela TV, começou cedinho na manhã do sábado, 1º de agosto de 1992. Primeiro foi reduzido o nível de água do tanque. Uma lona bem reforçada foi colocada por baixo de Xica e presa a um guindaste, formando uma espécie de maca. Ela foi içada e colocada dentro de uma piscina plástica alcochoada, dentro da carroceria de um caminhão aberto. A viagem durou cerca de 3 horas. Em Itamaracá, ela foi novamente içada e colocada num oceanário exclusivo. Toda a operação levou aproximadamente seis horas.

Quando caiu na água, Xica mergulhou em parafuso até o fundo do tanque por causa da cauda, que tinha um ângulo de 45 graus, conta o oceanógrafo Régis Pinto de Lima. A última vez que ela havia experimentado a sensação de profundidade tinha sido 29 anos antes. "Quando mergulhou, Xica movimentou músculos que nunca tinha mexido. Deve ter tido muita câimbra. Só sossegamos quando ela subiu pela primeira vez para respirar", lembra Régis.

Xica estranhou o ambiente e ficou cinco dias sem se alimentar. "Nós quase dormíamos junto do oceanário. A equipe estava de plantão 24 horas", conta Ricardo Soavinski. Ela foi colocada em água doce, aos poucos salinizada, até se acostumar por completo.

Na segunda semana, Xica foi colocada em contato com os outros animais. Ficou arisca com a curiosidade dos colegas, e passou um ano e meio sem se socializar com os outros peixes-bois. Acostumada ao tanque raso, ficava nadando em círculos, no sentido horário. Com o tempo e a convivência com os colegas, reaprendeu a ser peixe-boi e hoje nada e mergulha em todas as direções.

O animal cresceu e se desenvolveu. Tem quase quarenta centímetros a mais em relação ao tamanho com que chegou ao centro. A "hidroterapia" ajudou a esticar a sua coluna e a reduzir a hipertrofia muscular no lado esquerdo do lombo. A cauda está mais alinhada. A região do ferimento de 1991 ainda é despigmentada, mas está completamente sarada. Quando chegou ao centro, ela estava abaixo do peso normal. Após três meses, pesava 319 quilos. Hoje, em entre 450 e 500.

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