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CIÊNCIA & MEIO AMBIENTE IV
Pioneira até mesmo no momento do parto

Um dia, há três anos, pesquisadores e tratadores do Centro Peixe-boi começaram a observar uma mudança de comportamento progressiva em Xica. Estava ainda mais resguardada e cuidadosa. Tinha sido vista copulando com os companheiros de tanque durante o cio. E o volume abdominal estava aumentando a cada dia. Bingo! Xica estava grávida. A situação era inédita em cativeiros de peixes-bois no Brasil, e foi mantida em sigilo até a madrugada do dia 19 de dezembro de 1996, quando nasceu Xiquito, assim batizado dois meses após, durante uma promoção do JC e Ibama. Ele foi o primeiro filhote da espécie nascido em cativeiro na América Latina.

Para a veterinária Márcia Picanço, que trabalhava no Centro Peixe-boi na época, a reprodução de Xica foi o melhor sinal de que ela estava totalmente reabilitada das seqüelas deixadas pelo cativeiro inadequado. Nos dois últimos meses da gestação, que dura em geral 13, Xica já estava procurando o isolamento.

Os pesquisadores resolveram deixá-la na área de cambiamento, menor em profundidade (cerca de 1,5 metro). "As fêmeas buscam locais mais rasos quando estão perto de parir", informa Régis Lima, chefe do CMA/Ibama.

A sempre discreta Xica pariu sozinha. Quando o centro começou suas atividades às 7h, lá estava ela e seu filhote. Mas, apesar do instinto maternal de toda fêmea, Xica não tinha habilidade de mãe, outra conseqüência da sua vida solitária. Apesar de proteger e cuidar do filhote, ela não deixava Xiquito mamar e nem permitia a aproximação dos tratadores, lembra Márcia Picanço. "Tivemos, então, que separá-los", conta.

A notícia do nascimento do filhote de Xica mexeu com todos os envolvidos na sua história. Régis Lima estava numa reunião em Brasília, quando recebeu a notícia. "Só pensava em pegar um avião e vir vê-los", lembra o oceanógrafo gaúcho que estava com passagem comprada para o Rio Grande do Sul, onde iria passar o Natal com a família. A viagem, claro, foi adiada.

Ricardo Soavinsky, que trabalha em Brasília desde 1994, disse que a reprodução de Xica é a maior vitória da natureza. "Foi uma alegria como técnico e como cidadão". Alexandre Araújo e Maria Adélia Cruz, da Aspan, correram para Itamaracá assim que souberam da notícia. "O centro estava fechado, mas nós pudemos entrar. Afinal, éramos da família", brinca Alexandre. "Viramos avô e avó", diz Maria Adélia.

HERANÇA - Xiquito herdou a deformidade de Xica, ainda não se sabe ao certo por quê. Ele possui o lado direito da cauda maior que o esquerdo e, por conta disso, tem dificuldade para mergulhar e problemas de equilíbrio na água.

O problema pode ser hereditário ou ter sido adquirido durante a gestação. "Talvez ele não tenha conseguido se desenvolver no espaço uterino normal, em virtude da hipertrofia muscular de Xica", afirma Jociery Vergara, veterinária do Projeto Peixe-boi.

Se for comprovado que a deformidade é hereditária, Xiquito não poderá ser solto na natureza, para evitar uma degeneração genética na escassa população da espécie.

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