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CIÊNCIA & MEIO AMBIENTE V Primeiro cativeiro foi em Pontas de Pedra Xica já era atração antes mesmo de ir para a Praça do Derby. Durante sete anos, ela viveu num tanque de dois metros de diâmetro e um de altura, cheio de água doce, na Fazenda Tabatinga, propriedade à beira-mar, com 77 hectares, da família do juiz do trabalho Armando da Cunha Rabelo, no distrito de Pontas de Pedra, município de Goiana, no litoral norte. O animal atraía mais de 50 visitantes todo final de semana ao local de veraneio da família, que fica bem próximo da foz do Rio Goiana. "Era uma romaria para ver o peixe-boi", lembra Ivete Moreira Rabelo, 72 anos, viúva do juiz, falecido em 1974. A casa ficava cheia e haja comida e bebida para todo mundo que vinha ver Xico (só foi descoberto que era uma fêmea depois que estava no Derby) rodando em torno de si mesmo no pequeno tanque que ficava no quintal da casa. "Não tinha energia elétrica e o refrigerador era a querosene", recorda Ivete. O animal era o bicho de estimação dos 13 filhos da família, que se orgulhavam em mostrar a amizade com o peixe-boi. Cláudio, o quarto mais velho, assobiava, imitando o som emitido pelos peixes-bois, para chamar Xico. "Muita gente levou banho dele, quando o bicho se virava e espalhava água para todo lado", diz Ivete. "Era uma alegria. Tinha gente que até dava gorjeta pra gente secar a água do poço e mostrar o peixe-boi", conta o aposentado Bartolomeu José de Lima, o seu Bató, 68 anos, há 48 na Fazenda Tabatinga. Ele era o responsável por catar capim-agulha todo dia para alimentar Xico e lavar o tanque. Mas foi sua sogra, Severina Soares Quirino, a dona Biu, quem mais conviveu com o animal. Ela era paga pela família para dar comida e tratar do animal. Secava o tanque e escovava Xico com catemba de coco. "Ele ficava alvinho", descreve seu Bató. O economista Eduardo Rabelo, 48 anos, diz que era impressionante como o peixe-boi obedecia a dona Biu. "Ela conversava com o animal, mandava ele se afastar para limpar de um lado e do outro, e ele fazia", recorda. Seu Bató conta que dona Biu, falecida há seis anos, chorou muito quando Xico foi levado para a Praça do Derby. "Ela ficou muito triste durante várias semanas", lembra. CAPTURA - Em 1963, Xico foi achado preso num curral de peixes, chamado "Curral dos Galos", a cerca de um quilômetro da costa, em frente à Fazenda Tabatinga. Eduardo Rabelo conta que, no dia anterior, uma usina tinha jogado vinhoto no Rio Goiana, em cujo estuário, segundo ele, era comum ver peixes-bois entre cinco e seis horas da manhã. "Acho que ele fugiu da poluição e acabou preso no curral", disse Rabelo. Quando foram buscar os peixes no local, de manhã cedinho, o juiz Armando Rabelo, quatro de seus filhos e dois pescadores encontraram o peixe-boi. "Ele levantava quase um metro as varas da esteira do curral, tentando sair, e ficou todo ferido", relembra. Apesar de extremamente dóceis, em situações de perigo, os peixes-bois são valentes, dizem os pesquisadores. Conseguem geralmente se livrar das redes de pescadores, combinando peso, força e movimento. Por isso eram caçados com arpões. Um dos pescadores chegou a pegar o arpão para matar o peixe-boi, cuja carne era apreciada e podia ser encontrada com freqüência na feira de Goiana. "Papai não deixou e disse que queira pegá-lo vivo. O pensamento dele era proteger um animal ferido", conta Eduardo. "Hoje jamais aprisionaríamos o bicho", afirma Márcio Rabelo, o filho mais velho, que também estava no momento da captura. Eles esperaram que o animal subisse para respirar e prenderam-no com uma rede. O peixe-boi foi colocado no barco. Eduardo lembra que o pai, preocupado em manter a umidade na pele do mamífero, mandou todos tirarem a camisa, molhar na água e enrolar no peixe-boi. Armando mandou limpar um garajau de caranguejo no quintal de casa, encher de água e colocar o animal, que foi batizado de Xico. Nos primeiros seis meses ele ficou muito arredio, afirma Eduardo, mas depois acostumou-se ao cativeiro. A fama de Xico na Fazenda Tabatinga chegou à capital. Influente, o juiz do trabalho Armando Rabelo, manifestou, no Rotary Club, do qual era membro, o desejo que o Recife voltasse a ter peixe-boi em suas praças. "Os gastos com o animal também eram grandes", recorda o engenheiro civil Cláudio Rabelo, 47 anos. No final da década de 60, o prefeito Augusto Lucena pretendeu adquirir o peixe-boi, o que só foi concretizado na administração de Geraldo Magalhães, em 1970. "Pela lei, a prefeitura não poderia comprar um animal. Então procuramos quem poderia contribuir", relembra Geraldo Magalhães. Segundo o ex-prefeito, que administrou a cidade de 1969 a março de 1971, o peixe-boi foi comprado por cerca de R$ 10 mil, em valores de hoje, doados pela Construtora Leão. Ele informa que o tanque no Derby foi construído especialmente para abrigá-lo e que foi feito um concurso com crianças de escolas da rede municipal para a escolha do nome do animal, que acabou ficando mesmo Xico. PRIMEIRA VIAGEM - A transferência do animal da Fazenda Tabatinga para o Derby também foi cheia de cuidados e cuidadosamente programada pelo juiz Armando Rabelo. O peixe-boi foi colocado numa rede armada sobre um tanque de 200 litros em cima de uma pick-up. A rede, semi-imersa na água, servia para evitar o impacto do animal na parede do tanque, com o movimento do carro. Ele também foi coberto com panos úmidos, para não ressecar sua pele. O transporte foi feito de madrugada. À meia-noite, Xico saiu da Fazenda Tabatinga. A viagem durou cinco horas e meia - quatro a mais que o percurso feito em condições normais. "Nós íamos em cima molhando o peixe-boi", recorda Eduardo, que participou do transporte junto com seu Bató. A esposa de Armando Rabelo, Ivete, lembra que o marido só recebeu o pagamento depois que Xico subiu para respirar. |
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