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LITERATURA A literatura nas páginas do JC por MÁRIO HÉLIO A história literária em Pernambuco nos últimos oitenta anos no Jornal do Commercio. Evidentemente, a frase é uma licença poética. Oitenta anos são um período curto demais para que se tenha uma leitura histórica conveniente. E quando o assunto é literatura, torna-se ainda mais problemático traduzi-la (reduzi-la, na verdade) em tão exíguo tempo e apenas através de um veículo de informação. Literatura é coisa tão complexa que um poeta, T. S. Eliot, chegou a duvidar mesmo que fosse possível fazer uma história dela. Quando muito, tem-se aqui e acolá um recorte do que foi parte da literatura em síntese na vida de um determinado jornal (que, como na própria palavra jornal, fala do dia-a-dia). Na nossa limitada abordagem, damos um destaque maior às primeiras décadas da história do JC. Não porque sejam mais relevantes do que as posteriores, mas, porque são as menos conhecidas. Anotaremos sobretudo o pitoresco e o característico. A história de um jornal deveria servir como lição de humildade à soberba e vaidade dos homens. Ao passar suas páginas mais remotas, quantos nomes eram dados como definitivos e tão pouco tempo depois ninguém se lembra mais deles. "E a história não marcará quem sabe nenhum/ e não restará senão estrume de tantas conquistas futuras", como escreveu Fernando Pessoa. No caso do Jornal do Commercio, a literatura sempre ocupou um lugar de relevo. Pode ser feito um rápido apanhado disso. Panorâmico, portanto, é o modo de ler esses momentos. Considerações que têm caráter mais demonstrativo que explicativo. Não chegamos ao extremo de Valéry, que pensou que a história da literatura ideal seria aquela que falasse de períodos e estilos e não de nomes. Os nomes, no entanto, são os definidores disso. Momentos. Antes de tudo, mencione-se o nome de Odilon Nestor, o primeiro redator chefe do jornal. Poeta e jurista, o sertanejo (Teixeira, na Paraíba), que foi à Europa mais de 15 vezes e era professor de Direito Internacional (escreveu livro sobre a história da Faculdade de Direito do Recife), daria o tom cosmopolita que marca o jornal até hoje. Seria justo traçar-lhe um perfil, quando se comemoram oitenta anos do jornal. Nestes tempos carentes de humanidade, convém lembrar que Odilon Nestor era sobretudo um humanista. O melhor disso escreveu Gilberto Freyre num excelente perfil que dele traçou. A história de ambos se encontra na amizade e na organização do Centro Regional - de que o Manifesto Regionalista seria o fruto mais polêmico (Joaquim Inojosa, que foi um dos colaboradores famosos do jornal, nos seus primeiros anos, atacaria Gilberto Freyre em muitos textos, considerando o tal manifesto uma fraude). Controvérsias à parte, é importante considerar o que diz o sociólogo a respeito de Odilon Nestor e sua atuação cultural. O sociável redator chefe que gostava de ir e dar festas (principalmente uns tradicionais chás) na sua casa da rua do Paissandu: "Em Odilon Nestor, o sal que lhe permitiu atravessar o verbalismo brasileiro de província de 1900, sem degenerar em verbalista, e atravessar a Faculdade de Direito do Recife, post-1900 sem corromper-se em puro técnico do direito, foi a riqueza, a qualidade, o teor de sua sensibilidade incapaz de se deixar satisfazer pelo verbalismo, pelo tecnicismo ou pelo profissionalismo. (...) Explica-se que seu melhor companheiro no Recife de 1900 tenha sido Alfredo de Carvalho, outro provinciano-cosmopolita, educado nos Estados Unidos e na Alemanha e homem do mundo a seu modo." Como convém a um sociólogo, Gilberto Freyre não se limita a tipificar Odilon Nestor, que presidiu o Centro, tenta explicar o que era o próprio Centro e quem o freqüentava: "Não eram apenas uns gentishomens mais ou menos aliteratados os que formavam o Centro Regionalista presidido por Odilon Nestor: tiveram sua influência na vida da cidade e da região. Contribuíram para restaurar no recifense o gosto pela árvore: principalmente pela árvore regional. O gosto, também, pela cozinha tradicional, pelo móvel antigo, pelo estilo luso-brasileiro de casa e de igreja, pela arte popular, pela etnografia sertaneja. Sob o estímulo do Centro, o Recife viveu por algum tempo uma vida de curiosidades e de interesse, não apenas intelectual, como cívico, pelas coisas do seu passado social, pelos valores de sua arquitetura doméstica e de igreja, pelos problemas de sua urbanização e de sua arborização. Alguns dos problemas de urbanização e de planificação regional do maior interesse para o Brasil aí é que foram discutidos pela primeira vez." ROMANTISMO - Na prática, vamos ver, por exemplo, como uma época ainda está dentro da outra quando se trata de literatura. Nos anos vinte, enquanto a Europa já esgotara quase todos os seus movimentos de vanguarda, o romantismo ainda era a referência máxima na literatura pernambucana e brasileira (além dos parnasianos; os simbolistas sempre foram vistos com certa desconfiança e pseudossimbolistas como Augusto dos Anjos atraíam o repúdio dos príncipes dos poetas da ocasião). No livro A década vinte em Pernambuco, de Souza Barros, confirma-se esse romantismo demodé que acometia o estado. Já não era sequer a Faculdade de Direito (onde florescera a famosa Escola do Recife) mais referência. Não são anos exuberantes esses da década de dez e vinte e o marasmo cultural da província se prolongaria um pouco mais ainda: "O fim da segunda década arrastava um ritmo de vida baseado no pior estilo do romantismo. Até mesmo a fase mais forte da correção de escrever de França Pereira ou do mestre Farias Neves Sobrinho tinha passado. Estávamos num período crítico, na decadência e na repetição pura e simples. Existiam ainda alguns dos luminares da fase que estertorava, mas viviam de seus louros, e nada aparecia que pudesse marcar uma renovação de estilo nas formas seguidas ou princípio de estruturação de outra fase, com aberturas e diferentes rumos. Alguns tomavam por espelho Coelho Neto, que se espanejava em modelos arquipassados. A própria inteligência de um Austro-Costa, de um Oliveira e Silva, pairava insegura ou se impregnava mais de imagens que de realidades. O resto era o soneto mofino, sem cor e sem força, e a literatura espelhada num mundanismo abaixo mesmo do próprio estilo da vida pacata da província." Sobre isso, antes escrevera no próprio Jornal do Commercio Joaquim Inojosa, em 14 e 21 de dezembro de 1924, numa resenha do livro de poesia Sonhos e lutas, que estava prejudicado "pelo excesso de poesia, de romantismo. Sempre julguei que, ainda mesmo evocando cousas do passado, devemos escrever conforme o gosto de nossa época". O Jornal do Commercio que surge, no penúltimo ano da década de dez, ainda exercitava, dezenovescamente, o hábito dos folhetins. Um romance francês, Mãe e Rival, de Emilio Richebourg, atravessa todo o ano de 1919 e parte de 1920, com mais de setecentas páginas publicadas. O jornal pouco ia além das dez páginas diárias. Inaugurava uma coleção, Biblioteca do Jornal do Commercio, que, depois, passou a se chamar, mais apropriadamente, Folhetim do Jornal do Commercio. O anúncio sobre a primeira promoção do JC para os seus leitores saiu na edição de 3 de abril de 1919: "Os apreciadores dos bons folhetins irão assim regalar-se com a leitura amena de um dos mais apreciados trabalhos do popular romancista francês. Procuramos dar a Mãe e Rival uma confecção elegante e prática. Recortando a página diariamente os colecionadores do folhetim terão dentro em pouco uma excelente brochura que, encadernada, ornará a sua estante, constituindo o primeiro brinde que lhe faz o Jornal do Commercio, solícito e incansável em bem servir aos seus leitores." MODERNISMO - Nesse jornal Joaquim Inojosa defendeu o modernismo, que rebentara em São Paulo, em 1922. A sua estréia como jornalista, no entanto, não foi como crítico literário (atividade que exerceu até 1927), mas articulista político. A política, aliás, era a tônica de todo o jornalismo local na época, posicionando-se cada empresa de modo bem claro pelos seus candidatos. Era época de anticomunismo tão ferrenho que até no suplemento infantil foi publicado um poema satirizando os bolchevistas. Nada mais natural num jornal que se autodefinia "a serviço das classes conservadoras". Inojosa travaria no JC a sua primeira grande polêmica com um escritor, José Lins do Rego. Este dizia num dos seus artigos: "Meu simpático Quincas Inojosa - Eu li, há dias, meu querido estilista, o seu artigo do Jornal do Commercio. Palavra que conheci o seu estilo. Não é que você botasse a sua sabedoria, o seu vernáculo que tanto agradam a você mesmo (...) Você achou-me, pelo seu jornal, órgão intelectual do '666', totalmente burro e cavador. Quanto à minha burrice você a percebeu melhor do que eu. No entanto, eu lhe lamento a contradição. Ontem, você era aquele moço de olhos lindos e sem cores, achando-me com Austro duas figuras novas do nosso momento intelectual. Hoje, sou burro e escrevo fantasias. Acredito, piamente, na minha burrice, mas as fantasias deixo-as todas para você. É uma questão de amor próprio e direito adquiridos." A resposta de Inojosa não tardaria, e seguiria o mesmo tom irônico, só que um pouco mais pesado e pessoal: "Tendo por certo e recerto que Você, quando toma uma 'pingazinha', grita nos cabarés, a desoras, olhando as faces macilentas das mulheres cansadas: 'Eu sou um gênio, nasci para voar e ser imortal!' - Permita-me que lhe diga, na missiva que Você enviou, deparo cerca de quinze incorreções gramaticais, inclusive o título (...) Melhor fora, meu 'doce' poeta, estudar algumas regrinhas de gramática ou relebrar as que foram ensinadas na infância, para escrever com mais esmero, dando aos produtos da sua imaginação a forma necessária aos trabalhos de valor que sói publicar. (...) Obriga-me destarte recordar o seguinte: escrevi há tempos uma crônica no Jornal do Recife sobre a nova geração intelectual do Recife. Li-a, antes de publicar, na redação. E você, ouvindo-a, reclamou falta de inclusão de sua pessoa, omissão voluntária de minha parte." Por essas e outras dá pra fazer idéia sobre a inutilidade completa das polêmicas literárias. José Lins do Rego é romancista até hoje consagrado. Ninguém se lembra mais de Inojosa, exceto pela polêmicas que travou com Gilberto Freyre e de sua atuação como divulgador do movimento modernista em Pernambuco. Da expressão local do movimento parece somente restar hoje Ascenso Ferreira. É no Jornal do Commercio que sai o primeiro poema modernista de Ascenso Ferreira - Salomé - publicado em 21 de novembro de 1924. Embora assim o considerasse o poeta, deve-se dizer que esse como outros poemas tidos como modernos, eram, na verdade, de romantismo anacrônico. É também no JC que Ascenso escreve um dos primeiros artigos sobre Mário de Andrade. Foi em 1927, sobre a novela Amar, verbo intransitivo, com o título de Mário de Andrade, o revoltoso. Ao ler muitos exemplares de jornais do começo do século notamos, sem surpresa, como muitos dos lugares-comuns de hoje em dia nada têm de novo. Por exemplo, o chavão de que "não há crítica de arte no Brasil" já era comentado, com certo ceticismo, pelo jornalista Joaquim Inojosa. POESIA - Ainda na década de vinte, é publicada uma seção de notas sobre literatura, que tem longa vida, Bibliografia. E vez por outra aparece um conto ou um poema. Conto como o de Farias Neves Sobrinho (que por muito tempo foi o nome mais respeitado das letras locais), publicado em 28 de março de 1920. Poema como Para longe, de Austro-Costa, o poeta mais presente nas cinco primeiras décadas na imprensa do Recife (morreria tragicamente em 1953, num acidente de ônibus). Outro poeta importante desse período foi Araújo Filho (sobre quem Inojosa escreveu crítica). Mas havia também Esdras Farias, autor de versos O cuidado de ser triste e O encanto das paredes. "Uma noção do Pernambuco intelectual daqueles anos - 1922 a 1926 - pode-se ter através da seção mantida no Jornal do Commercio, 'Impressões de Leitura'", como diz a respeito de si mesmo Joaquim Inojosa. Eram anos, embora saídos de uma guerra, ainda plenos de ingenuidade. Quando a suástica era uma simples marca para o Querosene Aurora e a Gasolina Energina, de origem anglo-mexicana. "Guardai em mente a marca 'svastika' e lembrai que é ela um estandarte de excelência e um forte baluarte contra os monopólios". Tempo em que muitos anúncios eram escritos em versos, como nesta espécie de soneto Milagre divino (publicado em 4 de janeiro de 1921) a que falta um verso no segundo quarteto: "De entre as belas irmãs, Wanda a mais moça,/ sendo, a mais bela e o coração mais terno,/ - frágil qual jarra da mais fina louça,/ ela é o orgulho e temor do amor paterno!.../ Um leve sopro, o corpo lhe balouça;/ é rosa de verão, lírio de inverno./ - Se dorme pensam que é o repouso eterno!/ - Mas eis que, aos poucos, a criança meiga/ se fortalece e, cheia de alegria/ corre de campo em campo e veiga em veiga!/ quem deu a vida e calor à argila fria?/ foi a Esmeralda, a esplêndida manteiga/ de Tinoco Machado e companhia." O hábito dos folhetins prosseguiria alguns anos mais. O segundo foi O rei dos mendigos, de Paul Feval. O primeiro nome conhecido viria a seguir, Alexandre Dumas, com Memórias de um médico. Na seqüência, apareceu o francês Victor Hugo, A história de um crime. Depois veio outro de Emílio Richebourg, A toutinegra do moinho (já na década de trinta). A década de trinta, de certo modo, continua as mesmas características do jornal da anterior. A assinalar a colaboração de Waldemar de Oliveira, com a seção Vida Artística. Foi nela que em 10 de maio de 1936 publicou-se a resposta de Mário de Andrade a questionário preparado por Waldemar de Oliveira sobre música. A primeira questão - algo pueril, diga-se - era: "Qual o instrumento que lhe parece exprimir mais profundamente a arte musical?". O autor de Macunaíma respondeu: "Nenhum. Todos exprimem com igual profundeza, uma identidade, a porção da arte musical que lhe cabe." Mário de Andrade revelou-se apaixonado pela música de Bach, "o maior dos músicos da Terra". Nomes famosos como Sergio Milliet, Origenes Lessa, Mário Sette e Pedro Calmon apareciam de vez em quando. De Monteiro Lobato se publicou um conto (3 de abril de 1936), O júri na roça. É também desse período o começo da colaboração de Mário Melo (que seria um dos mais constantes, assinando coluna por vários anos) no jornal, com um texto sobre a história guerreira de Pernambuco. Também Amaro Quintas estréia nesse período, com um artigo, publicado em 12 de abril de 1936, sobre Alberto Torres. Nilo Pereira já em 26 de abril de 1936 escrevia no jornal, com um "ensaio de crítica histórico-jurídica". Ainda na década de 30 o Jornal do Commercio deu um impulso maior aos textos de interesse cultural. Cria e amplia a Segunda seção, que chegou a publicar doze páginas literárias. Nomes como Jorge de Lima (conto Depois de Helena), Câmara Cascudo, Lúcio Cardoso, Murilo Mendes, Manuel Bandeira, Tasso da Silveira, Josué de Castro, Guilherme de Almeida, Lúcia Miguel Pereira, Olivio Montenegro, Rubem Braga, Marques Rebelo, José Lins do Rego, Mário de Andrade publicaram em 1937 no Jornal do Commercio (ano de uma apresentação de Segovia no Teatro de Santa Isabel). QUE TIME! - Esses colaboradores de fama nacional teriam um espaço ainda maior no jornal na década de quarenta. O Jornal do Commercio tinha uma revista inteiramente dedicada à literatura. Chamava-se Nordeste e era editada por Esmaragdo Marroquim. A revista duraria duas décadas. Basta conferir o sumário do que publicou uma sua edição de 1965, para se fazer idéia da qualidade da revista: Sob a direção de Esmaragdo Marroquim e Ladjane Bandeira, a revista saiu em edição dupla - setembro e outubro. A capa era de Brennand, Gilberto Freyre escreveu Reflexões sobre vários assuntos; Jorge Amado, Meninos de Ilhéus; Adonias Filho, A sombra da obra; José Augusto Guerra, Dois regionalismos; Waldemar Lopes, Sonetos do tempo perdido numero treze; Tomás Seixas, Joyce; Francisco Montenegro, Itinerário sentimental do Ceará Mirim. Apareceram ainda elegias de Rainer Maria Rilke traduzidas por Zuila Castilho de Andrade Sarmento e Luiz Afonsso Sarmento. As ilustrações foram de Ypiranga Filho, Vicente do Rego Monteiro e Ladjane Bandeira. Quando Mário de Andrade morreu, em 1942, o seu amigo Octavio de Freitas Júnior publicou longo e comovido texto, acompanhado de trecho de uma das cartas recebidas do autor. É uma preciosidade, considerando que toda a correspondência recebida por ele do grande escritor paulista foi destruída pelas suas filhas com medo de repressão policial, nos dias de ditadura. Foi no Jornal do Commercio, precisamente no dia 7 de outubro de 1945, que Ariano Suassuna estreou na literatura, com o poema Noturno: "Têm para mim visões de um outro mundo/ as noites luminosas, azuladas,/ quando a lua aparece mais bonita." É assim que começa o poema. |
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