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LITERATURA II Equipe de colaboradores era de fazer inveja Em julho de 1949, quando Albert Camus visitou o Recife, foi no Jornal do Commercio que se publicou o discurso de saudação feito ao escritor francês pelo palmarense Hermilo Borba Filho (que escreveria durante vários anos para o jornal). O texto saiu na seção Vida literária, de 24 de julho de 1949. "Permita que um pobre comediante de província o saúde neste primeiro encontro com o público e a inteligência do Recife, nesta Faculdade, que tem a enorme satisfação de recebê-lo como filósofo, romancista e - particularmente, para nós - como dramaturgo. Se tivéssemos forças suficientes deveríamos ter organizado para os seus olhos e para o seu espírito um espetáculo improvisado, à maneira daqueles geniais bufões da commedia dell'arte, onde, numa trama simples e carregada de comicidade sadia, pudéssemos por em foco os homens de teatro da sua terra e os da nossa." A década de cinqüenta não foi menos rica. Era a época da atuação de poetas como José Gonçalves de Oliveira (responsável durante muito tempo pela seção literária), Carlos Moreira, Félix de Athayde, Gastão de Holanda, Carlos Pena Filho, Ladjane Bandeira, Israel de Castro e muitos outros. Carlos Pena Filho morreria precoce e tragicamente no dia 1º de julho de 1960, a 1h10 da manhã. Tinha 31 anos. Foi da redação do JC - onde trabalhava - que pegou carona no carro de um amigo que se chocaria com um ônibus da linha Aeroporto, nas proximidades do Forte das Cinco Pontas. No jornal assinou duas colunas: Literatura e Rosa dos Ventos. Cinco dias antes da sua morte saíra o seu último poema (26-6-60), publicado no JC, Soneto Oco: "Neste papel levanta-se um soneto,/ de lembranças antigas sustentado,/ pássaro de museu, bicho empalhado,/madeira apodrecida de coreto.// De tempo e tempo e tempo alimentado,/ sendo em fraco metal, agora é preto./ E talvez seja apenas um soneto/ de si mesmo nascido e organizado.// Mas ninguém o verá? Ninguém. Nem eu,/ pois não sei como foi arquitetado/ e nem me lembro quando apareceu.// Lembranças são lembranças, mesmo pobres,/ olha pois este jogo de exilado/ e vê se entre as lembranças te descobres." Em 5 de março de 1950, o jornal publicaria um poema inédito de Deolindo Tavares (outro morto precoce), que acompanhou artigo em sua homenagem escrito por Rocha Filho. Entre os que colaboraram nesse período podem ser citados Olimpio Bonald Neto, Aderbal Jurema (que era colunista), Salim Miguel, Rubem Braga, Israel de Castro, Craveiro Leite, Cesário de Mello, Valdemar Valente, Ledo Ivo, Lucilo Varejão Filho, Pinto Ferreira. Foi um dos períodos mais ricos da seção Vida literária, em que apareciam com freqüência as excelentes ilustrações de Zuleno. Na página literária do JC, nesse período, saiu o Soneto da Separação, de Vinicius de Moraes, só que com outro título: Soneto de Carnaval. Na década de sessenta, Audálio Alves e João Alexandre Barbosa pontificaram nas páginas do jornal e lideraram os suplementos literários. O segundo sairia de Pernambuco, mas Alves continuaria o seu domínio pela década seguinte. Sob o seu comando, mas logo assumindo direção própria, surge o poeta Alberto Cunha Melo. Em 1971 está como co-editor de uma página especializada em literatura. Ainda na companhia de Alves, criaria ele a coluna Noticiário, que refletiria com notas a atualidade do movimento literário. Um outro nome juntou-se à dupla, o do poeta Eugênio Coimbra, que ficou assinando a coluna. Era o único dos três a ser registrado oficialmente como jornalista. POEMA-PROCESSO - Da atuação de Alberto Cunha Melo resultou que o Jornal do Commercio foi um dos poucos jornais do país a divulgar as produções do chamado Poema-Processo, que surgira na década de sessenta no esteio do concretismo. Mas, a afiliação local era mais com o grupo do Rio Grande do Norte, graças ao envio de material pelo poeta Anchieta Fernandes. Além do próprio editor, Arnaldo Tobias foi quem mais cultivou esse tipo de poesia em Pernambuco. Cunha Melo deixaria a página literária em 1975, já época de crise econômica do jornal, e escassez também de espaço literário. Foi substituído por outro poeta, José Mário Rodrigues. Em depoimento em 1993 para a revista Pasárgada, publicada pela Fundarpe, Alberto Cunha Melo lembra-se de que os poemas eram publicados por ordem de chegada à redação (um deles sobre a grande cheia foi do jornalista e, até à morte, colunista do jornal, Nilo Pereira). Ele diz que viu uma grande falta de interação entre a editoria literária e os demais setores do jornal. O poeta e jornalista anota que "o jornalismo cultural era uma espécie de corpo estranho nas redações", mas lembra que, anos antes do profissionalismo, os postos chaves das redações eram ocupados por escritores. COMMERCIO CULTURAL - Quando Alberto Cunha Melo, a convite do novo diretor, Albany de Castro Barros, retornou ao jornal em 1982 - época de grande crise econômica da empresa - a seção literária já não existia há vários anos. Foi criada uma nova, e não apenas literária, de sentido muito mais amplo, e se chamou Commercio Cultural, que estreou em 5 de dezembro de 1982. Foi o espaço mais democrático e aberto ao debate de quantos surgiram, neste século, no jornalismo local dedicado à cultura. A seção, duas páginas domingueiras, sobreviveria até metade de 1985. Antes de assumir a seção, Cunha Melo, que chamou-a certa vez de "a mais maldita do jornal", anotou no seu diário, ainda inédito, as circunstâncias do convite e os intelectuais que assistiram a formação do novo espaço cultural. "Uma idéia de Almir Castro Barros tornou-se realidade; ele, juntamente com o poeta Domingos Alexandre, estiveram em minha casa propondo a redação de abaixo-assinado solicitando ao administrador judicial do Jornal do Commercio, Albanyde Castro Barros irmão de Almir a volta do suplemento literário do JC... Cerca de 250 escritores, jornalistas e políticos, assinaram o documento e o meu nome foi indicado para dirigi-lo, organizei uma reunião preliminar em minha casa para definir a linha da seção e participaram dela Jomard Muniz de Britto, Fernando Monteiro e Luiz Pessoa. Foi definida uma linha de cobertura para as ações culturais de Pernambuco, criação de uma seção que não fosse meramente literária, pois até as condições econômico-financeiras aconselhavam uma abertura para todas as artes. Foi feita uma lista de nomes que foi submetida a uma reunião com a direção da empresa Jornal do Commercio e escolhido Commercio Cultural." Na segunda metade da década de oitenta assume a editoria do caderno cultural o jornalista e poeta Marco Polo. É criado o suplemento JC Cultural (em forma de tablóide), que publica durante alguns anos contos, poemas, ensaios e entrevistas de escritores. No começo dos anos noventa já não existia. E a literatura esperaria mais alguns anos para ter espaço próprio no jornal. Em abril de 1995 é criada a seção Texto Contemporâneo, que sobrevive até os dias atuais. Há um mês, o jornal recriou, com nova proposta e formato, o JC Cultural, caderno mensal dedicado a reportagens e artigos sobre cultura, em que está presente a produção literária local e nacional. |
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