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HISTÓRIA
1968: o ano que acabou com a inocência

por FABIANA MORAES

Fim de tarde, quase cinco horas. Depois de passar o dia nas salas e corredores das faculdades de Arquitetura, Direito e Medicina, vários grupos de estudantes se reúnem para ir ao bar Aroeira, instalado no Teatro Popular do Nordeste, o famoso TPN, na avenida Conde da Boa Vista. Pinga, limão e idéias esquerdistas dão a tônica do local, onde é grande a concentração de livros de Jean Paul Sartre, bolsas a tiracolo e boinas vermelhas. Na mesa do bar, atas sobre as próximas passeatas e até mesmo planos envolvendo a ação armada. Ainda tímida, a presença de hippies começa a ser notada em lugares alternativos como o Aroeira. As batas indianas, no entanto, causam certo incômodo aos mais apaixonados pelas ideologias maoísta-marxista-trostkistas, que não acreditam numa mudança social à base de Marijuana, flores e paz.

Estava começando 1967, e com ele a santa tríade que demarcou boa parte do comportamento atual do Brasil e do mundo. Não há como negar que os anos de 67, 68 e 69 continuam agindo como divisores de opiniões e posturas ainda discutidas pela sociedade. "Foi o melhor período da minha vida. Nunca li e conheci tanto", diz o hoje deputado estadual Pedro Eurico, na época com 17 anos e estudante do segundo ano ginasial no Colégio Nóbrega. "Éramos tão engajados, que, já em 67, fizemos um júri simulado sobre o amor livre, pregando o fim do tabu da virgindade", conta.

O padre Antônio Henrique, assassinado em maio de 69, era um dos orientadores da turma da qual Pedro fazia parte. Liberal, o religioso costumava alertar seus alunos sobre os perigos das relações sexuais precoces. "Ele falava para a gente tomar cuidado, vivia dizendo que peito de menina não é mamadeira de barbudo", lembra o ex-secretário de Justiça Roberto Franca, presidente da Associação Pernambucana de Estudantes Secundaristas (APES) em 67.

As divergências entre turmas como a de Pedro Eurico e Roberto Franca (ligados à Ação Popular, de base católica) e os hippies tupiniquins eram muitas: Caetano, maconha e violão eram coisas de "esquerda festiva", enquanto engajado sério preferia se divertir indo a reuniões para discutir o livro O Capital. De vez em quando, preparavam assustados, festinhas onde um costume demonstrava bem um machismo velado e contraditório: os meninos levavam a bebida, e as meninas, a comida. "Era nos assustados que a gente começava a dar os primeiros amassos", lembra Franca.

Nos momentos de protesto, porém, não importava se o emblema era a camiseta com o rosto de Che Guevara ou o símbolo da paz. "Nas passeatas, todo mundo se unia, não importava a turma ou dissidência", diz o jornalista Marcelo Mário de Melo, 54 anos, 24 em 1968. Marcelo, militante de carteirinha, pregava uma forma mais aberta para se discutir as idéias de esquerda: era dele a frase por uma revolução sem filas, com neon e Coca-Cola. "Foi um período de muito avanço no comportamento da juventude. A própria clandestinidade, obrigando homens e mulheres a morar juntos, ajudou nessas mudanças. Os meninos começaram a lavar pratos, enquanto as meninas precisavam pegar em armas".

Várias passeatas aconteceram na cidade, sendo a maior delas a que sucedeu a morte do estudante carioca Edson Luís, de 17 anos, em março de 1968, no Rio de Janeiro. Dias após o assassinato, cerca de 30 mil estudantes se reuniram no centro da cidade, em frente ao Diário de Pernambuco. O crime escandalizou o país e levou à tona a violência com que a polícia tratava os civis.

"Depois do AI-5, tudo ficou perigoso. Ainda realizávamos passeatas, mas a violência maior", lembra Pedro Eurico, que iniciou um namoro durante um destes encontros, em frente à extinta Confeitaria Confiança, na Rua da Imperatriz. "Antes do decreto, a gente aproveitava as passeatas para contestar e namorar", conta, sorrindo. Marcelo Mario Melo até hoje culpa a ditadura por várias desilusões amorosas. "Tive que acabar uns três namoros por causa da repressão".

PÍLULAS E BASEADOS - O já citado TPN possuía uma fama que ia além da cana com limão servida no Aroeira. Funcionava no casarão antigo uma biblioteca, uma galeria de arte e outros espaços culturais. "Éramos muito representativos. Todos os artistas que começavam a ganhar projeção na época passaram pelo TPN", diz a atriz Leda Alves, uma das fundadoras do espaço. Pisaram no palco do teatro gente como Edu Lobo, Gilberto Gil e Paulinho da Viola, cantores visados pelo radar da censura. "O TPN foi um marco na cidade. Ali, todos se encontravam para trocar idéias, discutir ideologias", diz o sociólogo Sebastião Villa Nova, calouro do curso de sociologia da Universidade Federal de Pernambuco em 67.

A sessão de arte do Cinema São Luís, no sábado de manhã, era outro local onde os esquerdas e alternativos da época costumavam se encontrar. "Quando o filme acabava, todo mundo ficava em frente ao cinema conversando. Jornais eram distribuídos, shows anunciados", conta Cândido Pinto de Melo, então presidente da União dos Estudantes de Pernambuco (UEP). Na tela, filmes italianos e franceses, com divas como Cláudia Cardinale e Brigitte Bardot, musa máxima dessa juventude, onde o sexo começava a deixar de ser apenas uma palavra de quatro letras. "As meninas estavam começando a tomar pílulas, sempre escondido das mães. Elas usavam códigos como 'você já tomou seu Toddynho?', para lembrar a outra de tomar o comprimido", continua Cândido.

Tinham início, nesse período, as conversas e posturas mais abertas sobre o homossexualismo, o feminismo e a pluralidade de religiões. Drogas como a maconha, os comprimidos e o próprio álcool passaram a ser mais difundidas pelos jovens. "Era engraçado. Os Estados Unidos tinham o LSD. Nós, as bolinhas", diz Pedro Eurico. "A droga da gente era a cachaça mesmo", lembra o professor Reginaldo Fontelles, um dos muitos presos no Congresso da UNE em Ibiúna, que chegou ao Recife em 68, justamente após o decreto institucional nº 5. Brasiliense, cabelo black power, estudante de Sociologia, Reginaldo já havia sido "convidado" a comparecer mais de 30 vezes ao Serviço Nacional de Informações (SNI).

Em agosto de 69, o mundo assistia assombrado a Woodstock, onde nunca se viveu tão intensamente a filosofia do "paz e amor". Aqui, onde o cimento básico era composto quase unicamente pela política, alguns hippies começavam a aparecer, com suas ideologias sobre o poder trasformador da flor. O casal Kátia Mesel e Lula Cortes aglutinava várias das simbologias deste "hippismo", muito embora até hoje ela não se defina como uma ex-flower power. "Eu trabalhava, ensinava inglês, e ainda fazia o terceiro ano de arquitetura", conta.

Kátia pode não aceitar o título, mas não há como negar seu passado florido. Ela e Lula, no fim dos 60, foram parar em Amsterdã, onde chegaram a viver numa comunidade...hippie. "A gente montou o primeiro escritório de arte gráfica da cidade, eu tinha uma banda, fazia serigrafia", conta Lula Cortes, que não tirava da vitrolinha Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band, disco dos Beatles que popularizou de vez a lisergia da época. Tachado de bicho-grilo pelos vermelhos, Lula seria preso em 71 na sua fazenda-comunidade pela Polícia Federal, que alegava procurar "uma coleção de armas internacionais usadas para a revolução". Na verdade, era apenas a coleção de facas do compositor.

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FABIANA MORAES
Repórter dos cadernos Turismo & Lazer e Família, Fabiana Moraes, 24 anos, integra o time de novos talentos do JC, assinando uma série de reportagens especiais sobre comportamento, saúde, cultura, e é claro turismo. Começou a trabalhar no JC em 1996, como estagi´ria da editoria de Ciência e Meio Ambiente.