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HISTÓRIA II
E a esquerda perguntava: tropicalismo ou palhaçada?

Foi uma vaia enorme. Tão grande que até hoje pode ser ouvida por quem estava - ou não - no Festival Nacional da Canção, no Rio de Janeiro, em abril de 1968. No palco, um Caetano franzino e estupefato bradava numa irritação cada vez mais crescente: "Vocês não estão entendendo nada!". Os nacionalistas (a chamada turma do barquinho e do céu azul) acharam um acinte: mas guitarra logo agora? E o imperialismo? E nosso protesto? Como se embala um comício ao som de É Proibido Proibir? Esse cara não era da esquerda? Vaia nele! (...) O discurso inflamado de Caetano terminou por deixá-lo na mira da ditadura, e, por tabela, a levá-lo ao exílio em Londres. Mas a história estava só começando.

"Estávamos, eu e Jomard, no Clube das Pás, quando o pessoal da esquerda ortodoxa começou a provocar. Jomard usava uma flor grande na roupa, e eles perguntaram se aquilo era tropicalismo. 'Não, é frescura mesmo', respondeu Jomard", conta o compositor Aristides Guimarães, que havia acabado de lançar junto a Jomard Muniz de Britto e Celso Marconi o Manifesto Tropicalista no Recife, logo após a vaia estrondosa sofrida por Caetano.

Com 31 anos na época do manifesto, Jomard era um visto como um autêntico representante da chamada "esquerda festiva", um termo dúbio, contraditório e pejorativo citado com extremo prazer pela direita roxa (quer dizer, vermelha). Tropicalismo era coisa de homossexual, bicha, como preferiam dizer, e não se falava mais nisso. "É claro que nós éramos engajados. Engajados e engasgados", brinca Jomard, preso no golpe de 64 por seus atos "subversivos".

Palavra corrente em todos os meios atualmente, a globalização, já bastante forte no setor político e social em 68, era chamada de imperialismo ianque, e nela cabiam desde as fichas da Coke machine até o último lançamento dos Beatles. Tudo que vinha de fora era execrado pelos radicais, que, se não tivessem lido Assim Falou Zaratustra, fariam o sinal da cruz ao ver um "tropicalista".

"Eles não percebiam que o cinema novo de Glauber e o Teatro Ophicina de Zé Celso ensinaram ao mundo novas formas de arte", comenta Jomard Muniz de Britto, lembrando de um diálogo surreal com Glauber Rocha logo após o lançamento de Terra em Transe, em 67. "Ele reclamava que os universitários, tão inteligentes e engajados, não haviam compreendido o filme. Passou um menino na hora e disse: como eles não compreenderam? eu entendi tudo!".

MURRO NA CARA - A chegada de Porque Somos e não Somos Tropicalistas resultou numa guerra de ânimos entre os jovens intelectuais da cidade. Acusações, seguidas de respostas, eram tema de artigos nos jornais, sempre com títulos apaixonados como Tropicalismo ou Palhaçada? ou Resposta a um Professor de Bestética. Foi o último artigo, de autoria de Muniz de Britto, que causou uma contenda entre o jornalista Celso Marconi e o então diretor do Departamento de Artes da Universidade Fedral de Pernambuco (UFPE), Ariano Suassuna.

Na matéria, Jomard criticava a postura de Ariano em relação ao Tropicalismo, e fazia alusão à época em que ele e Marconi eram alunos da cadeira de Estética, ministrada por Suassuna. Celso Marconi, por sua vez, declarava não concordar com a indicação do cineasta Jorge Jonas para dirigir o Auto da Compadecida. No dia em que foi publicado o polêmico artigo, Celso e Ariano se encontraram na estréia de uma peça no Teatro Popular do Nordeste (TPN). Começou-se uma discussão que resultou em dois murros de Ariano Suassuna em Celso Marconi. Um, para o próprio Celso, e o outro em lembrança a Jomard.

Nesse mesmo período, no início de 69, o jornalista Ivan Maurício, com 17 anos, alugava na extinta Rua das Águas Verdes, no Bairro de São José, um casarão velho e destinado à demolição (a construção estava no traçado de casas a serem demolidas para dar passagem à Avenida Dantas Barreto). Fundava, então, o Supermercado de Artes Panis et Circens, misto de galeria e ateliê coletivo onde artistas que não tinham espaço nos circuitos da vez podiam mostrar seus trabalhos.

Saíam do ateliê os cartazes de chamada para as passeatas estudantis, um dos poucos trabalhos que os militantes davam para os artistas. "Nunca nos solicitavam para coordenar uma quebra de vitrines, ou qualquer outra ação mais pesada", conta Maurício. O casarão, que durou cerca de oito meses, terminou sendo a referência hippie da cidade, e o próprio Maurício incorporou os ícones e ideologias do movimento.

"A esquerda ortodoxa fazia e faz uma análise muito mecânica da política. Até hoje agradeço por não ter feito parte do radicalismo político", declara o jornalista. O objetivo da turma do supermercado era fazer a arte revolucionária inspirada nas idéias do filósofo e poeta russo Maiakovsky, um dos ícones preferidos da ala ortodoxa. De novo, a esquerda engajada achou o fato um acinte. Mas hippie citando Maiakovsky? E esse cara não é alienado? Ele não entende só de amor e flor? Não pode! Vaia nele!

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