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HISTÓRIA III Um recifense viajando em Woodstock Sabe aquela famosa cena do encerramento do Festival de Woodstock em que Hendrix toca o hino americano para alguns gatos pingados já exaustos da maratona de paz e amor? Pois é, o publicitário Paulo Detoni, 52 anos, viu o espetáculo ali, de perto, no gargarejo. Movido pelo mais puro sentimento dos jovens da época - a vontade de experimentar -, Detoni saiu do país para realizar o sonho de todo garoto com 22 anos no final dos anos 60: percorrer a Route 66 (a famosa estrada que estrelou o filme Easy Rider junto a Peter Fonda e Dennis Hopper), de carona, com apenas a roupa do corpo e uma mochila nas costas. Ah, e US$ 100,00 no bolso. "Eu havia acabado de chegar nos EUA, em meados de 69. No mesmo dia, passeando pelo Central Park, conheci um casal hippie que se interessava pelo Brasil. Eles me falaram sobre um festival de rock que ia acontecer numa fazenda, eu nem dei muita importância. Dias depois, encontrei o casal no Grenwich Village, bairro onde tudo acontecia. Eles estavam indo para o festival naquele momento e me chamaram para ir. Fui só com a roupa que estava", conta Detoni, lembrando que o casal, por ironia, não chegou a Bethel: a polícia, revistando a velha van em que o grupo viajava, encontrou ácido e deteve os dois. Um coisa é certa: nenhum dos presentes na fazenda onde aconteceu Woodstock sabia que aquele festival seria uma das maiores expressões da contracultura. "Era uma multidão de pessoas, numa grande festa, com todos os excessos que a ocasião permitia", fala o publicitário. O que soa engraçado é que para a maioria das tribos o que menos importava eram os shows. O importante era a grande confraternização, o que impressionava jovens como Detoni. "Mas não dá pra deixar de falar de Joe Cocker cantando A Litlle Help for my Friends e Janis Joplin com Summertime...". Aqui em Pernambuco, os ecos da festa do "paz e amor" só vieram ser assimilados por completo nos anos 70, mais precisamente em novembro de 72. Em Nova Jerusalém, acontecia a Feira Experimental de Música, onde todos os alternativos (palavrinha hoje gasta, mas muito usada na época), realizaram uma festa "do pôr ao nascer do sol". Bandas como Tamarineira Village, Phetus e Nuvem 33 eram as estrelas do festival, organizado por universitários de medicina e arquitetura. Lula Cortes, Lailson, Marco Polo e Flaviola faziam, junto a algumas substâncias, a cabeça de todos os hippies e simpatizantes. "Foi nessa época que começamos a realizar mais eventos culturais. Antes, falávamos apenas de política", lembra outro publicitário, José Roberto Peixe, que fotografou vários momentos do festival. LOVE FOREVER - Visto por muitos como filosofia de alienado, o conceito hippie é, até hoje, defendido por gente como Peixe e Detoni. "Éramos hostilizados e tidos como vagabundos, principalmente pelas pessoas que não tinham coragem de viver como nós, mas, no fundo, gostariam de fazê-lo", diz Detoni. Hoje, 30 anos após Woodstock, muito jovens levam consigo vários dos elementos dos flower-powers originais. O estudante universitário Carlo Vasconcelos, 23 anos, decidiu melhorar sua qualidade de vida assimilando alguns elementos dessa filosofia. Ele é vegetariano, estuda astrologia, pratica yoga e crê que os hippies modificaram toda uma geração. "O que eles tinham de mais intenso era o contato com a natureza, que é a responsável pela limpeza da alma. São valores muito básicos. Hoje, o jovem é muito sedentário e não tem coragem de assumir riscos". |
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