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HISTÓRIA IV "Seja realista: peça o impossível" Estrategista, inteligente e articulado, Charles de Gaulle, presidente da França em 1968, nunca poderia imaginar que a estável estrutura do seu país fosse abalada por um jovem de 23 anos, cara de galã e discurso muitas vezes utópico. Mas foi Daniel Conh Bendit, aluno da Universidade de Navarra, um dos pilares da revolta estudantil que contribuiu para a renovação sócio-política de quase todos os países do mundo naquele ano. Das barricadas realizadas pelos universitários franceses nasceram ou tomaram força movimentos como o feminismo, o homossexualismo organizado e as greves que eclodiram nos países estrangeiros. Quase dois meses após o início da contenda universitários versus governo, a Central Geral dos Trabalhadores (a CUT, liderada pelo Partido Comunista, com 10 milhões de filiados), anunciou uma greve geral em solidariedade aos estudantes. No dia 18 de maio, já existiam 150 fábricas ocupadas, enquanto tevês, jornais, aeroportos, Correios, telefones e até padarias estavam paralisadas. De Gaulle, pasmo, desapareceu de Paris para depois ressurgir com o apoio de tropas francesas aquarteladas na Alemanha. Foi uma questão de certo modo pífia que detonou a ira de Bendit e cia. O então Ministro da Juventude e dos Esportes da França, o sr. Misoffe, visitava a universidade de Navarra (onde Daniel estudava Ciências Políticas), quando foi abordado por um grupo de jovens liderados, claro, por Dany, The Rouge. O jovem passou a criticar a construção de uma nova quadra esportiva na universidade, declarando que o objetivo de um centro de esportes era desvirtuar a juventude de seus reais objetivos e incentivá-la para o esporte, um método tipicamente hitleriano. Dias depois, a Universidade de Navarra era um centro de protestos. O reitor, irritado com a situação, chamou a polícia e os estudantes inflamaram-se ainda mais com o fato. Resultado: vários alunos da conceituada Navarra apanharam, outros foram presos. Era a fagulha que faltava para o barril de pólvora juvenil explodir. "O cansaço com o tradicionalismo foi o grande motivo da rebelião estudantil francesa. O radicalismo tinha um contexto político, nada era gratuito", diz o chefe do Departamento do Mestrado em Ciências Políticas da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Michel Zaidan. Para ele, a rebeldia dos jovens franceses e a dos brasileiros é separada por um enorme abismo. "Eles se voltaram contra uma situação, um cotidiano tradicional, ultrapassado. Nós precisamos de um decreto, de uma ditadura, para nos indignar". Após o fechamento de Nanterre, os estudantes foram transferidos para a Sorbonne, que tornou-se o quartel-general da causa. O bairro intelectual Quartier Latin também foi tomado pelos universitários (já eram milhares). Jean Paul Sartre e Simone de Beauvoir aderiram à revolta e passaram dias na Sorbonne entrevistando os líderes do movimento. A partir de 10 de maio, as brigas com os policiais tornaram-se mais tensas e violentas. Neste dia, uma batalha na Rua Mouffetard resultou num saldo de 367 feridos, 468 presos e uma nuvem de gás lacrimogêneo que tomou todo o bairro. Nos muros, uma frase resumia a intenção daqueles ex-inofensivos jovens: "Seja realista: peça o impossível". De Gaulle tomou uma atitude que veio embalada numa frase de efeito, recurso típico dos estudantes que o combatiam. Ao chegar da Alemanha, declamou: "Reformas, sim; bagunça, não". Decidiu reunir aqueles que o apoiavam nos Campos Elíseos (conta-se que 400 mil pessoas marcharam pró-De Gaulle) e deu um aumento geral de 35% aos trabalhadores. Em junho, o ar começou a perder o cheiro de gasolina queimada. As fábricas foram religando suas máquinas e, em 18 de julho, a polícia ocupou a Sorbonne. Os estudantes, no entanto, conseguiram seu principal objetivo: em outubro, a Assembléia Nacional Francesa aprovou uma mudança estrutural na Educação, acompanhada pelos partidos Comunista e Socialista. Os ânimos se arrefeceram, e anos mais tarde, Bendit entrou para o Partido Verde alemão. De Gaulle só saboreou a vitória por mais três meses. Enfraquecido politicamente, deixou o governo após 90 dias. |
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