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ESPORTES Homem do Rifle, Deus dos Aflitos
por LENIVALDO ARAGÃO Estádio do Pacaembu, noite de 16 de novembro de 1966. O Santos prepara-se para fazer mais uma vítima na brilhante trajetória que percorre no futebol brasileiro e mundial. Pelo menos é o que espera sua animada torcida e é este também o pensamento da crônica esportiva paulista. O time de Gilmar, Carlos Alberto, Mauro, Calvet, Zito, Mengálvio, Pelé, Dorval, Coutinho, Pepe e muitos outros astros, enfrentará o modesto e ainda pouco conhecido Náutico, ou o Náutico Capibaribe, como era tratado da Bahia para baixo. O jogo é pela antiga Taça Brasil. O favoritismo dos santistas torna-se mais palpável pelo fato de o time da Vila Belmiro ter vencido o jogo de ida, no Estádio da Ilha do Retiro. Todavia, na hora em que a bola começa a rolar, os paulistas, estupefatos, vêem uma notável exibição de uma equipe em plena ascensão no futebol nacional, que consegue dar um nó no grande Santos, ao qual derrota pela contagem de 5x3, num jogo exuberante de emoções, como atestam os oito gols assinalados. Em meio ao vendaval em que se enrosca o maior time do Brasil, na época, desponta a figura do ponta-de-lança Bita, um artilheiro muito respeitado por estas bandas. O atacante pernambucano nem liga para o fato de na barra "inimiga" estar o goleiro bicampeão mundial - Suécia (58) e Chile (62). Na cara-de-pau marca quatro gols em Gilmar. Este, anos depois, já com a carreira encerrada dizia numa entrevista ter sido Bita o jogador que lhe fizera o maior número de gols numa só partida. Fazer gols era o ofício de Sílvio Tasso Lasalvia, um jogador que unia a técnica ao arrojo. Ele brilhou com a camisa alvirrubra de 1962 a 1968, com uma ligeira pausa para defender o Nacional de Montevidéu, onde passou pouco tempo, tendo em vista uma lesão num joelho. Com Nino, Lula, Lala, Ivan e Clóvis (como ele, já morto) formou um sexteto que participou de todas as campanhas do hexacampeonato conquistado pelos alvirrubros, de 63 a 68. ESTOUROU NO NORTE - Tudo começou em 62, quando para suprir as necessidades do clube, que não tinha como gastar com a contratação de medalhões, o treinador Alexandre Borges, um burilador de novos talentos, formou uma equipe à base de jogadores surgidos nas equipes de base e saiu por aí. Entre outros, o time tinha Nado, Bita, Nino e Erick. O primeiro ponto visitado foi Manaus, onde Bita fez seu primeiro gol pela equipe principal dos Aflitos, a 23 de janeiro de 1962, numa derrota para o São Raimundo por 5x4. À medida que o Náutico jogava nas mais diferentes capitais nordestinas, novos gols do emergente artilheiro surgiam, despertando o interesse do torcedor alvirrubro, que acompanhava a distância, dentro do que a mídia daqueles tempos permitia. Na volta, alguns amistosos sem muita expressão, até que a 15 de abril, o Náutico pegou o CSA (Centro Sportivo Alagoano) de jeito, aplicando-lhe uma goleada de 9x0, sete gols de Bita. O artilheiro estava aprovado e sacramentado, mas com o menisco já avariado só marcaria quatro gols no Campeonato, uma vez que antes mesmo do certame começar, teve que operar um joelho, só entrando em ação quando o certame já se encontrava no segundo turno. No Torneio-Início de 1963, começava a grande explosão. Na decisão, de 40 minutos, Náutico 4x0 Santa Cruz, dois gols de Bita - Rinaldo e Nado completaram o placar. No fim do Campeonato, o Náutico sagrava-se campeão, iniciando a série do Hexa. Bita dera sua contribuição, mas só no ano seguinte, quando o time já chamado de os Intocáveis pelo Diário da Noite, graças à verve do jornalista Aramis Trindade, tornava-se campeão invicto levantando o bicampeonato, o atacante brilhava como o principal artilheiro do certame, com 24 gols, por coincidência o número de partidas disputadas por seu time. Bita repeteria a façanha nos dois anos seguintes. Em 65, no tricampeonato, foram 22 gols e 24 jogos, e em 66, 20 gols e 27 jogos. Em 67, a ida para o Uruguai levou-o a perder a artilharia do Campeonato - o Náutico seria Penta - para Miruca, pois ao voltar ao time encontrava o companheiro bastante adiantado, além de ter operado o outro joelho. No Náutico, brilhou intensamente no chamado ataque das quatro letras - Nado, Bita, Nino e Lala. De sobra ainda havia o meia-armador Ivan. Seus chutes mortais fizeram-no ser chamado de O Homem do Rifle, outra criação de Aramis. Chegou a ter seu nome ventilado para jogar no Vasco, mas terminou ficando por aqui. Enquanto o Náutico esteve disputando a Taça Brasil, seus gols azucrinaram quantos goleiros tenham passado à sua frente. Em 1964, o Náutico aplicou uma goleada de 6x0 no Paysandu, em plena Belém, tendo Bita balançado a rede quatro vezes. Na campanha do Hexa foi o quarto jogador a atuar mais vezes (86), ficando atrás de Ivan (125), Nino (112) e Lala (93). Ao todo, foram 295 jogos entre oficiais e amistosos, vestindo a camisa alvirrubra e um total de 221 gols, o que o torna o maior artilheiro do Náutico em todos os tempos, embora no Campeonato Pernambucano, com 102, perca para Fernando Carvalheira (140) e Baiano (103) Depois da conquista do Hexa, ainda defendeu o Santa Cruz por algum tempo, mas já não era o mesmo. INJUSTIÇADO - Autor do livro "O Náutico, a Bola e as Lembranças", o médico Lucídio José de Oliveira lembra que antes mesmo de o time decolar para o Hexa, o artilheiro já estava a braços com seus problemas no joelho. "Isso mais tarde se refleteria na sua passagem pelo futebol uruguaio, além da ciumeira de Célio, um ex-atacante do Vasco, ídolo da torcida do Nacional." Para Lucídio, tratava-se de um ponta-de-lança de alto nível técnico, refinado mesmo para a posição. "Além disso, teve a sorte de contar ao seu lado com o irmão Nado e depois com Miruca. Do outro lado, havia o ponta-esquerda Lala, que sempre dava a bola voltando, o que ele aproveitava muito bem." Não se pode deixar de reconhecer, lembra o historiador, o lado humano, pois se tratava de um excelente caráter. Para Lucídio, Bita foi injustiçado a não ser, ao contrário de Nado, relacionado entre os 44 convocados para pelo menos tomar parte nos treinos da Seleção Brasileira que disputou o Mundial de 1966, na Inglaterra, quando frustrou-se o sonho do Tri. "Não era inferior a um Alcindo, que terminou indo para a Copa, pois levava a vantagem de chutar bem com os dois pés", lembra Lucídio. A exemplo do médico-historiador, o ex-companheiro de time Lala acha que Bita merecia ter ido à Inglaterra. "O negão (assim Bita era tratado entre os colegas de equipe) era um fora-de-série e na sua época, pelo menos entre os que enfrentei ou vi jogar, só perdia para Pelé. E como pessoa não havia igual." Para o hoje médico Salomão, que fez parte da geração do Hexa, o protótipo do jogador brasileiro deveria ser Bita, cuja lealdade impressionava. "Às vezes, dentro de campo, a gente gritava pra ele tomar uma atitude, quando já abusavam de bater nele e ele não estava nem aí. Foi uma pessoa que me marcou." O engenheiro e administrador de empresa Carlos Celso Cordeiro, autor de "Náutico, retrospecto de todos os jogos", via em Bita um finalizador de primeira categoria, que chutava bem com as duas pernas e ainda cabeceava. "Além disso, tinha velocidade e senso de colocação." Seu adversário nos primeiros anos de carreira, o ex-gerente de banco, hoje aposentado Djalma Passos de Oliveira, Laxixa, que brilhou no Sport, considera Bita um dos quatro melhores goleadores até hoje surgidos no futebol pernambucano. "Além de tudo era correto como homem e como adversário dentro de campo", enfatiza Laxixa. Depois que encerrou a carreira, Bita que chegara a tentar sem êxito a universidade, trabalhou inicialmente como vendedor de medicamentos, passando posteriormente a assessorar um grupo empresarial local. Morreu de câncer a 27 de outubro de 1992, aos 50 anos, deixando a viúva Tânia, sua namorada desde os primeiros anos de Náutico, e os filhos Silvinho, engenheiro químico e Kência, administradora de empresas. |
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