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SOCIEDADE Mudou a cidade ou mudamos nós? por ALEX Sinto a tentação de não repetir que tenho 50 anos de trabalho no Jornal do Commercio e sim, aproxima- damente, 17 mil dias de jornalismo, descontando os dias de folga, porque sempre escrevi colunas diárias. Primeiro fazendo crítica de cinema, depois colunismo social. Esse raciocínio vem em função de uma realidade que fui percebendo, dia a dia, de que a vida da edição de um jornal é coisa efêmera, 24 horas apenas, mas exige um exercício continuado de elaboração. Sempre renovado, sempre exigindo novos assuntos e opiniões. Com esse meio século de trabalho, no JC, fui testemunhando inovações, mudanças e conquistas técnicas. Resumindo: mudanças as mais abrangentes o que me leva a não poder fugir de um lugar comum e repetir, parodiando, a pergunta de Machado de Assis: "Mudou o Natal ou mudamos nós?" Creio que a resposta seria: o mundo mudou com o passar do tempo e trouxe transformações que afetaram a todos. Só para falar rapidamente de jornal. Hoje uma redação é um universo totalmente diferente daquele da época em que comecei. Algo assim como se estivesse assistindo a um filme antigo, em preto e branco, e lentamente a narrativa fosse apresentando modificações em tudo: no ambiente, nas máquinas e técnicas, nos espaços, costumes, estilo de trabalho, o número de mulheres igual ao dos homens, como se não estivesse mais vendo o saudosismo opaco do filme antigo mas em meio a um outro, de ficção científica, com surpresas técnicas e quase inacreditáveis em cada seqüência. E o jornal, como reflexo diário do que acontece em nossa cidade e no mundo inteiro, tem de revelar e documentar estas mudanças. CENSURA - Passei mais de quatro décadas como colunista social. Hoje, em determinados eventos ou refletindo sobre o que era a sociedade do Recife na década de 50 (metade do século) percebo que as modificações em sociedade, tal como nos jornais, foram uma conseqüência incontornável, absolutamente incontornável, do que aconteceu no mundo. Não foi uma coisa expontânea, simplesmente, porque o chamado alto mundo social, ou médio, tivesse preferido mudar. A mudança foi imposta pelas transformações históricas, políticas, econômicas e dos costumes. Entre elas o divórcio que contou com o apoio da lei e, socialmente falando, foi um marco. Lembro das dificuldades que tive, no trabalho como colunista, para continuar citando determinadas figuras femininas, algumas de familias importantíssimas, bonitas, elegantes depois do seu desquite ou divórcio. Hoje esse detalhe não tem a menor importância, felizmente. Mas no passado, em determinados eventos ou festas, figuras amigas, também importantes, com um sorriso situado entre a malícia e a censura, me perguntavam: "Porque você continua citando fulana?". Também quero dizer que incontáveis pessoas da sociedade jamais tocaram no assunto como se fosse um ato de censura às divorciadas. Estas figuras cresceram no meu conceito. A partir da década de 60, com os "hippies" e a liberação, acabou a rigorosa exigência que marcava a diferença dos trajes masculinos e feminino. Hoje todos são mais informais, todos usam as mesmas cores, são mais livres e soltos e mostram o corpo sem complexo de culpa ou mesmo de estética. O cuidado com o corpo passou a ser uma "religião" nos últimos 15 anos, digamos. Homens e mulheres freqüentam academias ou passam pelas mãos dos cirurgiões plásticos. Rapidinho: a liberação sexual também merece ser lembrada. SALÕES E BAIRROS CHIQUES - Na década de 50 os mais importantes clubes sociais eram frequentados por boa parte da melhor sociedade Pernambucana e a classe média com bom poder aquisitivo e prestígio, o que chamam classe média alta. O básico das notícias na coluna conseguia em clubes como o Internacional, Country, Cabanga, o antigo Iate (na Torre), Português, Náutico e Sport. A intensidade da freqüência era nessa ordem. Como passar dos anos tudo foi se modificando. Confesso que prefiro não continuar falando em clubes sociais em respeito ao passado porque alguns não mantem mais o mesmo prestígio de outrora, o que lamento mais prefiro não continuar falando em clubes sociais em respeito ao passado porque alguns não mantém mais o mesmo prestígio de outrora, o que lamento mais prefiro não exemplificar. Mudou a maneira ou a qualidade morar. Com o "boom" imobiliário de Boa Viagem, Piedade, Candeias, Casa Forte, Espinheiro, as famílias que antes habitavam os casarões, verdadeiros palacetes, no Espinheiro, Derby, parte da Boa Vista, Aflitos, Casa Forte resolveram fechar os imóveis, alugá-los ou vendê-los e mudaram-se para os apartamentos imensos, modernos, confortáveis, bem mais seguros. Mas, sábios, não deixam de ter suas casas de praia ou na serra, todas com conforto esportivo mas piscina incluída. Com essa mudança acabaram-se as recepções (inclusive de casamento, depois da igreja) naquelas casas maravilhoas com escadarias em espiral feitas com mármore importado, salas imensas, colossais lustres de cristal (porque o pé direito era alto), móveis antigos, peças de arte, jardins. E com isso deixamos de provar os pratos deliciosos feitos por cozinheiras criadas nas casas das famílias que tinham receitas secretas (vejam o Bolo Souza Leão). As donas das casas tinham um orgulho todo especial de que os convidados provassem aquelas delícias culinárias que só as mulheres da família e as cozinheiras "da casa", de total confiança, conheciam. Hoje temos os bufês, onde raramente temos variações no molho e no tempero, o sabor é praticamente o mesmo em todos eles. Gostosos, sim, mas tudo tão repetido. Boa comida, sem dúvida, mas sem personalidade. Acabou-se o que era doce e que somente podemos reencontrar em jantares para poucas pessoas, nos apartamentos, onde a arte de comer bem, com todo requinte e tradição é mantida pela escolha pessoal da dona da casa que faz questão de provar um pouquinho de cada coisa a ser servida. EMERGENTES, NÃO - Antes destacavam-se famílias tradicionais, que permanecem procurando manter o mesmo requinte de discrição (cada vez mais discretas, coletivas, reservadas sempre). Hoje temos os novos nomes que surigiram com o progresso e diversificação da economia. Famílias que eram da boa classe média e que se aperfeiçoaram muito bem na maneira e na arte de viver e conviver em sociedade. Temos algumas exceções, poucas, mas isso não importa. Com tempo e poder financeiro, essas famílias passam temporadas no exterior, para onde mandas os filhos estudar, aprendendo um idioma, aumentando a experiência e cultura. Enfim, um novo setor da sociedade que soube fazer acréscimos que representam um crescimento geral que inclue mair conhecimento, em geral, aprendizado artístico, bom gosto, requinte mesmo, boas maneiras, apuro no vestir. Com intuição e inteligência vão aderindo à discrição, porque ser discreto é algo indispensável para o verdadeiro e tradicional pernambucano. O termo emergente é uma carioquice boba que jamais, em tempo algum, poderia ser admitida no mundo social de Pernambuco. Pensar na possibilidade de termos emergentes já representa uma gafe. É coisa do Rio. E rapidamente citaria, nas várias mudanças, detalhes curiosos como o surgimento do motel (facilitou muita coisa, mas niguém deve falar no assunto, mesmo agora com toda a liberdade que temos). Cada um tem seu carro. Tem o fato importantíssimo da mulher ter sua profissão, não dependendo tanto do marido; a mãe solteira e esse setor vai evoluir muito em aceitação. Quando paro para pensar nessas mudanças tenho a impressão de não estou mais no Recife, cidade que amo e conheço tão bem, mar revendo outrou lugar onde já vivi, depois viajei, passei muito tempo ausente voltei e encontrei tudo fiderente. É esta a impressão de estar vivendo uma nova experiência o que senti ao escrever esse comentário. Um lugar com o qual costumo sonhar, e que algumas vezes demoro um pouco a reconhcer como aquilo que foi o meu cotidiano profissional e humano vivido em quatro décadas. Tudo agilizado pelo progresso em todo o mundo, com suas inevitáveis modificações. Modificações que não foram solicitadas por muita gente antes privilegiada mas que não poupam ninguém. E que a melhor maneira de viver em sociedade, hoje em dia, é ter uam razoável poupança complementar e burilar cada vez mais a sua personalidade e educação. E ser discretos, porque estamos no Recife. |
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