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CULTURA Um estado essencialmente cultural
por PAULO SÉRGIO SCARPA Recife recebe o século 20 embalado em valsas, polcas e maxixes executados em cafés, saraus e cineteatros freqüentados pela classe média e vê o século acabar ao som do movimento manguebeat, levando para praças, ruas e avenidas a mistura de maracatu, samba de roda, caboclinho, funk, soul, guitarras pesadas e psicodélicas. Entre um ritmo e outro, o estado passou os últimos 99 anos criando cultura - o seu patrimônio mais forte - no teatro, na música, no cinema, no carnaval, nas artes plásticas, na música erudita, e, até, abrigando uma das maiores indústrias fonográficas do Brasil. Recife era uma cidade relativamente pequena nos anos 10. Havia uma população de cerca de 115 mil habitantes, 245 ruas, 29 praças, 215 travessas e 67 becos. O movimento cultural girava em torno do Teatro Santa Izabel, palco das principais companhias líricas nacionais e internacionais, do mundo artístico pernambucano, e que também fazia às vezes de cinema. Mas havia o Clube Dramático, o Clube Internacional do Recife (Rua da Aurora), a Sociedade Recreativa Juventude (Pátio de São Pedro), o Clube Carnavalesco de Alegorias e Críticas Filomomos (Rua da Imperatriz) e uma sociedade voltada para a boa música, criada pela professora de piano Thereza da Fonseca Borges Diniz. Um luxo para o Nordeste. O Santa Izabel exibia os filmes mudos da época, sempre com música ao vivo. Mas cinema mesmo foram os Pathé, o Royal e o Vitória, na Rua Nova. Eles abrigaram, também, durante muitos anos, a música de câmara, pequenas orquestras, revistas musicais. Os vinte primeiros anos do século foram marcados por tangos, lundus, maxixes e valsas. E na década de 30 o recifense já conhecia one-stop, shimmy, fox-trot - ritmos e danças norte-americanas. A globalização da época. O teatro, no entanto, vivia de produções estrangeiras, embora a comunidade judaica já tivesse uma companhia própria. Mas a década de 30 seria marcada pela criação do Grupo Gente Nossa, fundado por Samuel Campelo em 1936, e pelo Teatro de Brinquedo, de Álvaro Moreira, usando a dramaturgia local disponível na época - Waldemar de Oliveira, Hermógenes Viana e o próprio Samuel Campelo. Em 1940 nascia, entretanto, o Teatro de Amadores de Pernambuco (TAP), tendo à frente o médico, poeta, escritor e dramaturgo Waldemar de Oliveira, trazendo para a cidade peças dos ingleses Somerset Maugham e Oscar Wilde, um avanço e ousadia para a época. Considerado, hoje, um teatro conservador, o ainda atuante TAP divertiu a cidade com comédias de costumes, revelando uma das melhores atrizes do estado, Dinah de Oliveira. Para se contrapor a este teatro aplaudido e freqüentado pela "sociedade", o escritor, diretor e dramaturgo Hermilo Borba Filho teve a idéia de fundar o Teatro do Estudante de Pernambuco, que buscava autores nacionais e regionais, e tinha o propósito de ir onde o povo estava, sem esperar que o povo viesse ao teatro. O novo grupo saiu em busca de autores regionais, preocupados com a problemática do homem do Nordeste, e encontrou no jovem Ariano Suassuna a sua mais forte resposta. Com a mudança de Hermilo Borba Filho para São Paulo, em 1952, o projeto chegou ao fim. O apelo popular nos palcos era tão forte que até Capiba compôs músicas especialmente para o teatro. Musicou as peças Senhora de Engenho, de Mário Sette, em 1944, para o Teatro dos Bancários; Haja Pau, de José de Morais Pinho, em 1947, para o Teatro de Bonecos; e Mãe da Lua, de Hermilo Borba Filho, em 1947, para o Teatro de Bonecos. Enquanto isso, a música erudita vivia momentos esporádicos no estado. Não havia ainda uma orquestra da cidade, nem um coral, nem mesmo uma orquestra de câmara oficial. O que veio acontecer somente em 1970, com a fundação da Orquestra Sinfônica da Sociedade de Concertos Populares - atualmente Orquestra Sinfônica do Recife, uma das mais atuantes do Nordeste. Uma idéia de Vicente Fittipaldi, Ernani Braga, J. Andrade e Walter Cox, que nasceu em um bate-papo enquanto se esperava o último bonde de Boa Viagem. Hoje, Recife tem também uma sociedade que protege a orquestra e organiza os concertos em temporadas. Mas o século vai terminar sem que o recifense possa freqüentar, novamente, a sua mais importante casa de espetáculos: o Teatro Santa Izabel, ainda em obras depois de cinco anos de reformas. O teatro, no entanto, teria um novo alento de vida nos anos 80, com a criação do Curso de Teatro da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), que continua formando atores, diretores, cenógrafos e dramaturgos. E com os cursos de teatro organizados pela Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj), os quais, embora curtos em duração, serviram de base para muito profissional. Mas a cena pernambucana produziu seus autores e diretores e companhias independentemente dos órgãos oficiais. Os anos 80 gerariam, ainda, dramaturgos como João Falcão, além de encenadores como Antonio Cadengue e seu Teatro do Seraphim. |
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