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MITOS
O mito nosso de cada dia

por MIGUEL RIOS

O mito humano tem face e nome moldáveis.Com barba e boina ele pode se chamar Che Guevara. Retire-se a boina, a barba, troque-se a cor da pele, mas deixe-se a chama revolucionária. Ele passa a ser Zumbi dos Palmares. Mantenha-se a chama de liberdade, desta vez envolta em terno e gravata. Martin Luther King. Ponha-se uma guitarra nas mãos dele, uma roupa colorida, coloque-o sobre um palco, com mais rebeldia. Jimmy Hendrix. Mude-se mais uma vez a tonalidade cutânea e a vestimenta, mantendo a áurea rebelde. Com um jeans e um blusão de couro têm-se James Dean.

Algumas rugas, cabelos brancos, uma batina e a capacidade de aglomerar seguidores. Vê-se o padre Cícero Romão Batista. Com barba e cabelos compridos, Antônio Conselheiro. Uma nova transformação. Um certo rejuvenescimento, um chapéu de cangaceiro, uma espingarda, óculos redondos e a mesma revolta contra o mundo que o cerca. Agora é Virgulino Ferreira, o Lampião. Deixe-se os óculos redondos e retire-se a tez bronzeada de anos sob o sol do sertão. Mude-se também a roupa, a forma e os instrumentos de combate ao sistema social. Ponha-se de volta a calça jeans de James com o acréscimo de cabelos compridos. Tem-se John Lennon. Dele ficam os cabelos compridos, o corpo franzino, o olhar um tanto triste. Acrescente-se só uma barba. Jesus Cristo.

Este ato de moldar mitos poderia continuar por um bom tempo. Poderia partir-se de Luiz Gonzaga e chegar a Chico Science. Da princesa Diana e acabar em Eva Perón e dela em Marilyn Monroe. Este ato de moldar ídolos, na verdade, durou mesmo um bom tempo. Anos e anos. Incontável é a quantidade deles surgida na humanidade. E dos que ainda vão surgir.

Alguns perduram por anos, décadas, séculos, milênios. Outros apenas um verão. Mas a necessidade do mito é eterna. Eles não têm rosto único nem vida própria. Escaparam ao mero material orgânico do corpo. Transformam-se no ideal, na essência, no apelo de um povo numa certa época, em um certo lugar, sob certas circunstâncias.

Moldáveis a favor do momento. Vários pensadores gastaram seus neurônios tentando explicar por qual motivo um ser humano, nascido como qualquer outra criatura, sujo do sangue e das viscosidades de sua mãe, chega ao posto de mito. Algo que nos dicionários e livros de psicologia transcende em definições distantes. "Fábula". "Coisa inacreditável". "Valores e arquétipos presentes de maneira inconsciente e primitiva na natureza de todos os homens". Algo que para o povo representa o sonho mais palpável de "um salvador", "um herói", "um símbolo de perfeição".

CARNE, OSSO E SONHO - Como se alcança a tamanha magnitude? Como alguém que chorou quando pequeno, que feriu o joelho numa queda, que sofreu de dor de ouvido, que teve espinhas, torna-se um modelo, um arquétipo concretizado, um ideal de perfeição materializado em carne, osso e alma?

"O mito é a representação de um desejo. Pela ilusão, acredita-se que aquela pessoa tem atributos sobre-humanos", explica o psicanalista Antônio Carlos Escobar. "O mito está para a humanidade, assim como o sonho está para o indivíduo".

Compõe-se o mito com vários elementos. Exigências para o cargo: doses de inteligência, dinamismo, decisão, coragem, carisma e simpatia. Elementos universais. Mas insuficientes. Apenas calcigenam o esqueleto. Influenciam também o estado das coisas e a cultura onde se surge.

Exemplos: Gandhi foi seguido por milhões de indianos na revolta contra o domínio britânico. Magrinho, transpirando bondade, paciência e amor. Hitler insuflou os alemães a irromperem a Segunda Guerra Mundial. Bélico, incisivo, destilava suas idéias com discursos inflamados. Ambos lideraram a massa. Se trocassem de país e época, seriam mitos em suas novas realidades? Os indianos aceitariam um Hitler? Os alemães do pós-Primeira Guerra ansiavam por um Gandhi?

"O mito preenche uma carência", comenta Escobar. É a pessoa exata, para o momento exato. Ninguém vira mito por querer. "Para ele existir, precisa-se que haja uma necessidade", emenda o psicanalista. Quando as condições de vida são precárias ou tensas, quando se sofre ou se anseia por justiça, o terreno está fértil para brotar um mito. Colhido pelos que precisam dele, com a face mais aceitável que ele oferecer: herói, messias, pai, mãe, rebelde.

Che Guevara, frei Damião, Zumbi, Miguel Arraes, Lady Diana, Chico Science. Nomes diferentes. Rostos diferentes. Sonhos iguais. Todos tidos como ídolos por algum grupo, em algum lugar. Merecem a mitificação? Uns sim, outros não. Houve aqueles que até fizeram por onde. Tentaram de algum modo dar o seu melhor para trazer mais alívio e orgulho aos que os cercaram. Houve os que fizeram pouco. Houve os que nada fizeram, a mídia se encarregou de fazer por eles. Nem bons, nem maus. Moldáveis.

O que vale, no final das contas, é o voto popular. A massa elege quem ocupa o pedestal. O candidato dá sua contribuição à própria mitificação e o povo aceita se quiser. Às vezes, aceita-se uma quimera no lugar de um herói.

OS BONS E OS MAUS - "Há mitos positivos, progressivos. São mobilizadores. Ajudam a sociedade a se enxergar, se transformar e se aprimorar. Há os negativos, regressivos. Reforçam a estrutura social vigente, a manutenção do status quo", analisa o cientista político Michel Zaidan.

"Os grandes mitos se alimentam da História. Os falsos não resistem a ela. E se desintegram com o passar do tempo", comenta Zaidan. Os anos passam e as máscaras começam a cair e os mitos por trás delas começam a ruir. Se o mito é bom ou ruim, ao povo pouco importa. Importa o simbolismo. Inebriar-se de confiança, de boas expectativas do que está por vir, de que melhorias devem acontecer, mesmo que por um instante. Para aqueles que carecem de algo, por menor que seja, o mito é a âncora desta esperança de alcançar este algo. Resta-lhes assim crer e confiar nesse ser humano acima dos mortais.

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MIGUEL RIOS
Repórter de Esportes, está no JC desde 1995. Venceu o 1º Prêmio Sinduscon (1998), com a série "Torcidas Secas", e foi finalista do Cristina Tavares, também em 1998. Tem se destacado na produção de cadernos especiais, como "Um Povo de Heróis", sobre a Batalha dos Guararapes, "E o Sertão Segue Seco", sobre a seca no Nordeste, e "Será o Fim? Ou o Recomeço?", sobre a perspectiva de fim do mundo com a proximidade do ano 2000.