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MITOS III Adoração para muito além da vida A morte é um aditivo purificador. Capaz de moldar aqueles que acometeu. Molda os maus em nem tão maus assim. Os bons, em melhores ainda. Dependendo das circunstâncias em que a fatalidade ocorre e de quem ela acomete, a mutação tende a ser ainda mais drástica. Um mito humano pode nascer no momento de sua morte. Pode se fortalecer ainda mais com ela. Nada mais antagônico. Nada mais verídico. Getúlio Vargas atirou contra o peito dentro do Palácio do Catete, no Rio de Janeiro, e com ele levou a alegria de milhares de brasileiros. O País parou. Ayrton Senna espatifou sua Williams no Circuito de Monza, na Itália. Em segundos espalhou uma das maiores comoções nacionais de que se tem notícia. O Brasil parou. Lady Diana encontrou seu fim num túnel em Paris e o mundo assistiu atônito aos funerais da maior "rainha popular" do mundo contemporâneo. A Inglaterra parou. John Kennedy foi alvejado na cabeça por uma bala disparada não se sabe de onde e por quem e a dor atingiu todos os americanos. Os Estados Unidos pararam. Chico Science destroçou o carro onde vinha entre um poste e um gradil, em plena semana pré-carnavalesca. Um domingo inesquecível para os fãs. Recife parou. Pessoas morreram. Mitos nasceram. "A morte redime todos os pecados", analisa o cientista político Michel Zaidan. Se for sofrida, daquelas de dar dó, inflama (e muito) o potencial de mitificação. Com Frei Damião foi assim. Com Tancredo Neves também. Dias e dias eles agonizaram em camas de hospital. Cercados por aparelhos, médicos, tubos, remédios, angústia e esperança. O povo a sofrer, a rezar, a santificar. Se a morte é matada, daquelas de emboscada, cumprida na traição, a revolta toma conta da alma popular. Seja na mesma época, seja tempos depois. Foi assim com Lampião, Zumbi dos Palmares, Jesus Cristo. Cercados, torturados, mitificados. E se a ruptura ocorre quando uma pessoa encontra-se em franco processo de mitificação, a redenção é maior ainda. A comoção e o sofrimento se ampliam. E se for de maneira drástica, acidental, quando este ser está no auge de sua existência, triplique-se o impacto sobre os populares. Hoje em dia, a mídia também entra com sua parcela de culpa. Cria-se um bombardeio de flashes ao vivo, depoimentos consternados, textos comoventes. Um circo de santificação e dor. Explora-se o carisma da vítima junto ao imaginário popular. Caso a morte ocorra de forma nebulosa, a polêmica arrasta-se por dias, meses, anos, décadas. Eternas perguntas permanecem ressoando, parecem nunca ter respostas convincentes: * Como morreu Diana? Por conta dos paparazzi? Por irresponsabilidade de um motorista bêbado? Foi um complô da rainha Elizabeth? * Quem matou Kennedy? Lee Oswald? A Máfia? Um complô nos bastidores do governo americano? * Quem matou Getúlio? Foi realmente suícidio? Foi um assassinato disfarçado? * Ayrton Senna morreu por conta de sua imprudência? Ou o carro é que estava sem condições? * Chico Science morreu por estar em alta velocidade? Houve um outro carro envolvido no acidente? O fato de ter perdido a vida próximo a um mangue tem algum simbolismo esotérico? "As dúvidas implantadas ajudam na construção do mito. Sobretudo para quem quer cultuá-lo", alega Michel Zaidan. Dúvida é algo que martela para sempre a mente de qualquer um. Querendo ou não, sempre se é envolvido na celeuma, se tem uma opinião ou uma desconfiança. Delas se alimenta o mito humano. Com elas, ele perdura. |
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