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MITOS VI Miguel Arraes: o "pai" de todos os sertanejos "O Estado está em calma e nossa posição é a mesma de apoio à legalidade, aos princípios democráticos, às liberdades do povo e às prerrogativas do sr. presidente da República (João Goulart)" Miguel Arraes, em 31 de março de 1964, um dia antes do golpe militar. Discursos inflamados como este fizeram de Francisco Xavier um fã de Miguel Arraes. Inflamados nas palavras e nos gestos. "Toda vida admirei Arraes. Um cidadão humano, honesto", adianta seu Chico de Nô, como é conhecido no município de Agrestina. Ele é um daqueles que engrossam as fileiras interioranas que vêem em Arraes um grande pai para os camponeses. Seu Chico deixa fluir vários motivos para tamanha admiração. Um deles é a semelhança física que existe entre admirador e admirado. Uma vez eu mostrei a Arraes um retrato meu junto com ele. "Não é que parece mesmo", concluiu Arraes na época. Outras razões são retiradas da memória de seus 76 anos de vida, onde Arraes aparece como protetor dos pobres agricultores. "Uma vez eu fui ao Bandepe saber da situação dos plantadores de cana. Lá fiquei a par da relação dos débitos que Arraes mandou apurar sobre todos os plantadores. Tudo pronto, ele foi claro. Disse que fossem cobrados juros mínimos e o pagamento facilitado", recorda. E alegra-se: "O povo chega por aqui dizendo, seu Chico, Arraes mandou encostar as dívidas e ainda me emprestou dinheiro. Isso aconteceu no segundo governo do velho". Desse governo - de 1986 a 1990 - seu Chico tem boas lembranças e orgulho do seu mito. Já do terceiro, ficou uma mágoa. "A administração foi péssima". Não por culpa de Arraes. Mas daqueles que o cercaram. "Ele foi inocente. Confiou em gente ruim que o traiu", teoriza. De 1964, seu Chico também guarda lembranças de traição: "Sentiram muita inveja política, da aproximação que ele tinha com povo. Quiseram acabar com o homem". Coisa que não se faz é a traição. "Para a gente que trabalhou muito por ele, saber da derrota por conta dos outros é muito triste", lamenta seu Chico. Mesmo assim, mesmo na queda, a admiração continuou. Na queda de 64 e nesta agora. "Ele perdeu ano passado, mas disse: `O moço que ficou no meu lugar é merecedor'. O velho não ataca ninguém". |
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