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INDÚSTRIA A saga industrial do Leão do Norte por FERNANDO CASTILHO Costumam dizer empresários do setor industrial, dos demais estados do Nordeste, que na origem somos todos pernambucanos. Afinal, nos primeiros três séculos, Pernambuco assumiu a ocupação e a administração do território que hoje corresponde à maioria dos atuais estados e até serviu de modelo a ser - ou não - adotado nos seus novos parques industriais. De fato, Pernambuco foi o estuário do setor industrial nordestino. Primeiro, por conta da cana-de-açúcar, depois do café e do algodão. Mas ao contrário de São Paulo que também tem esta origem agrícola e virou o maior pólo industrial do Cone Sul, Pernambuco foi perdendo posições ao longo dos últimos 80 anos. Primeiro para o Sul, depois para os estados da região, que passaram, ao longo das décadas seguites, a conquistar novos parques industriais e a se consolidar como novos destinos de capitais do setor. Talvez porque, como afirmam vários economistas, "em tempos de globalização" uma economia do porte da de Pernambuco (com um PIB da ordem de US$ 20 bilhões, o sétimo entre os estados brasileiros, o segundo do Nordeste, depois da Bahia) não pode prescindir de uma indústria vigorosa e competitiva. Coisa que, apesar dos discurso dos últimos governos, não se conseguiu efetivamente. O lançamento das bases do desenvolvimento industrial de Pernambuco se dá no final século XIX quando surge a idéia de transformação dos engenhos bangüês em engenhos centrais que foram o modelo tecnológico seguido pelas usinas. Tentavam combinar, em escala industrial, a produção agrícola gerada na Zona da Mata com uma moderna fábrica e a ferrovia que, por sua vez, escoaria a produção até o porto do Recife. Não deu certo. Financiados por capitais ingleses, os engenhos centrais não fizeram parte da nossa paisagem industrial por mais que quinze anos e terminaram sendo adquiridos por empresários pernambucanos que já operavam as primeiras usinas. O professor Josemir Camilo de Mello, da UFPB, cuja tese de mestrado foi a expansão do capitalismo inglês em Pernambuco, afirma que os inglêses estavam mais interessados em vender máquinas industriais e equipamentos para estradas de ferro - que eles também produziam - do que no produto açúcar. Mas, graças ao apoio do Governo da Província, em 1883, conseguem a concessão para produzir e transportar açúcar em 13 engenhos através da The Central Sugar Factories do Brazil Limited. Nasceu logo um cabide de emprego já que a companhia, pelos termos da concessão, seria obrigada a pagar um engenheiro fiscalizador. E também a primeira maracutaia. Dos 13 engenhos, sete deveriam se localizar em terras de um dos sócios brasileiros da empresa inglesa. E dos 13 apenas cinco foram construídos, quatro da The Central Sugar e um outro por outra empresa, a The North Brazilian Sugar Factories Limited. O problema é que o custo e o próprio traçado das ferrovias não ajudavam a companhia de açúcar a ter futuro. E na expectativa de maximizar os lucros das ferrovias - que era o negócio do capital estrangeiro - optou-se por construir logo os engenhos onde as ferrovias já existiam e não onde a produção seria melhor. Só em 1887 os ingleses viram que a empreitada de transportar açúcar não era um bom negócio. Em 1890, o Visconde do Campo Alegre, Paulo Amorim Salgado, comprou os engenhos falidos por 4,5 milhões de contos de réis com a promessa de recuperá-los. A queda dos engenhos centrais, porém, desencadearia o processo de institucionalização da figura do usineiro que centralizava, de novo, a produção. Mas os ingleses conseguiram, por sua vez, vender a idéia das ferrovias. Josemir Camilo não esta sozinho nesta avaliação. O professor Gadiel Perucci, também da UFPE, e cuja tese de doutorado na Universidade de Paris X também teve como tema usinas e industrialização em Pernambuco, é mais contundente. Segundo ele, no momento em que aparecem os engenhos centrais, as mudanças sofridas pelos antigos bangüês apenas atingem o setor industrial. Entretanto, renunciando à produção industrial, o antigo senhor de engenho foi rejeitado no setor mais dinâmico e moderno da economia regional. Com o tempo, ele caiu na hierarquia social e perdeu influência econômica e política. Assim, nos anos de 1950, os antigos senhores de engenho ou, simplesmente, os "fornecedores de cana", formam apenas um setor secundário da classe dirigente da região. A usina põe a produção agrícola e o processo industrial concentrados numa só mão. Representava, assim, uma síntese entre os dois setores da produção. E promove uma importante transformação na economia do açúcar: passa de uma economia controlada por capitais agrários e comerciais para uma dominada por capitais industriais. Com as usinas se volta a um sistema de produção semelhante àquele do antigo engenho, tudo novamente reunido em uma só empresa. Os engenhos centrais, na verdade, tinham poucas chances. Algumas limitações legais impostas já prenunciavam isso. Proibição de plantar cana, obrigação de construir vias férreas para facilitar o transporte de matéria-prima, proibição de utilizar a mão-de-obra escrava e rotas previamente designadas pelo Governo. Mas Perucci reconhece que o aparecimento das usinas marca um recuo do capital estrangeiro. De tal maneira que vários autores modernos consideram a retomada da industrialização do açúcar pelo capital nacional como uma das características mais interessantes do fenômeno usineiros nordestino. Eobtêm o privilégio de zona, isto é, cada usina se reserva uma zona de influência com um raio de 15 quilômetros; em outros termos, ficava proibido construir uma usina numa zona em que já existisse outra instalada. Tradução: mapearam o mercado produtor. A verdade é que, apesar de trazer importantes conseqüências econômicas para a região, não houve uma ruptura estrutural na economia agroindustrial nordestina. O processo desencadeado pelas usinas, porém, acabou gerando uma consciência industrial no Estado. O deputado Sérgio Guerra - ex-secretário secretário da Indústria e Comércio de Pernambuco - destaca que a usina é um microssistema econômico que embora autônomo ou quase fechado, gerou uma necessidade de indústrias periféricas menores na área têxtil, metalurgia e metal-mecânica que nos deram cultura industrial e que desembocaram em projetos ousados como a Coperbo na década de 58. O problema é que o cenário da monocultura não confirmou a formação de uma classe média forte e ainda foi a base de uma anacrônica divisão ideológica. O conteúdo dessa divisão ideológica não tem explicações claras nem objetivos definidos, mas produziu como resultado uma discussão adjetiva a sem conteúdo e nada programático, afirma Guerra. Como vários economistas, Guerra acha que a liderança empresarial só foi forte e moderna em 1958 com Cid Sampaio e essa liderança veio sempre tendo como origem o setor do açúcar e este setor, historicamente, esteve ligado ao poder público. Os setores tradicionais do Estado antes da Sudene eram agroindústria do açúcar, café e algodão. O setor metal-mecânico resultou deles. A Cosinor, por exemplo, nasceu da ampliação de uma oficina de usinas. "O setor metal-mecânico de Pernambuco é filho de outros dois setores", conclui o deputado. O empresário Armando Monteiro Filho, dono de empresas do setor, tem opinião menos drástica sobre o setor. Segundo ele, fala-se muito em monocultura, que é muito mais fruto da vocação do solo do que de uma opção dos que há tanto tempo se dedicam a esta atividade. Ela foi e continuará sendo, a atividade econômica de melhor resposta. |
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