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INDÚSTRIA V Muito líder, bons técnicos, pouco poder de decisão Na terra de intelectuais e bons políticos, a estagnação econômica deu inicio a uma espetacular discussão entre políticos, intelectuais, empresários e economistas sobre para aonde vai Pernambuco. Aliás, mantendo uma tradição do Estado que é de ferir-se no debate intelectual. O consultor Leonides Alves, ex-superintendente-adjunto da Sudene, alerta que é importante deixar claro que o processo de desenvolvimento de um Estado depende diretamente das suas lideranças políticas e empresariais, bem como do grau de participação da sociedade. Sob esse aspecto, afirma ele, Pernambuco apresenta uma grande contradição porque nos últimos tempos vem tendo políticos nacionais, com grande representatividade, em nível de País, mas com pouca influência no processo decisório em favor do Estado. Suape é um exemplo da falta de decisão política em favor de Pernambuco. O deputado Sérgio Guerra vê outro motivo: a tradição constitucionalista de Pernambuco contida na Faculdade de Direito. Segundo ele, este traço de apelo à Constituição formou muitos líderes políticos importantes mas pouquíssimos executivos com mandato. Essa multiplicação institucional de políticos não produziu gente com maior capacidade e objetividade na linha operativa, diz o deputado. Leonides Alves relaciona os estados do Ceará e a Bahia como os que souberam obter postos estratégicos na Administração Federal e, em decorrência, conseguiram decisões favoráveis aos seus respectivos desenvolvimentos. No caso do açúcar, entende Armando Monteiro Filho, a crise atual é a mais grave que já atingiu o setor. Bem mais grave que a década de 30 quando Vargas criou o IAA e foi instituído o Estatuto da Lavoura Canavieira que contingenciou a produção, limitou o volume de cana própria das usinas a um máximo de 50%. Esta crise, lembra o empresário, começa a ficar mais grave com o Governo Collor que extinguiu o IAA sem que fossem transferidas as suas funções reguladoras para outro órgão. Assim a crise que já vinha desde 64 chegou a seu ponto máximo. É um escândalo a União ter investido o que investiu no Proálcool e, inexplicavelmente, o tenha abandonado. "Eu nada tenho contra São Paulo", pondera Monteiro Filho, "mas quem conhece apenas São Paulo não conhece o Brasil e não quero ver o Nordeste como uma simples reserva de mercado. O Fernando Henrique pode não tido este propósito, e aí ressalte-se o trabalho de Marco Maciel, mas seu Governo é um Governo paulista". O ex-secretário de Planejamento de Pernambuco, João Recena, acha que a indústria de Pernambuco faz de tudo para desmentir os analistas. É extremamente diversificada, privando-se dos efeitos sinérgicos dos "clusters": temos uma fábrica de chocolate, uma de alumínio, uma de aço. Aqui também persistem os casos de indústrias que estão longe de suas fontes de matéria-prima, longe dos seus mercados e que muito pouca mão-de-obra local empregam. Para entender Pernambuco, adverte Recena, a análise econômica também tem que ser a de uma "indústria local", e como se comportam empresários que acreditaram e que venceram. Desde os tempos de Delmiro Gouveia até chegar em Edson Mororó Moura. Só que sem fronteira agrícola Pernambuco não tem como ir muito longe. A nossa acaba em Vitória de Santo Antão enquanto a de São Paulo vai até Ribeirão Preto e segue Estado a dentro com terras profundas e de alta qualidade. Na verdade, Recena entende que, tomando-se pode base o mapa do Brasil dos últimos quatro séculos, observa-se que a capital do País muda à medida em que a fronteira agrícola avança em direção ao Sul até que na década de 60 ela descobre o Centro-Oeste. "Foi Pernambuco, passou para a Bahia chegou ao Rio de Janeiro e só foi para Brasília porque lá havia o cerrado por onde a fronteira agrícola passou a ser ocupada". O Mercosul seria, não a capital, o novo eixo econômico natural? Roberto Cavalcanti pensa diferente. Segundo ele, a industrialização substitutiva de importações, por demandar mercados protegidos da competição externa, não tem mais vez em economias que, como a brasileira, optaram por liberalização de seus mercados internos. "A não ser quando correspondam a decisões de grupos transnacionais, com comando ou grande poder sobre o mercado mundializado, que decidam investir em determinado país no bojo de sua estratégia de regionalização da oferta", afirma Isso, para Cavalcanti, demanda um projeto regional de desenvolvimento articulado e consistente que eleja, como opção econômica básica, o objetivo de romper, ativamente, o gradual insulamento de sua economia (caracterizado por redução persistente de suas exportações, seja para o exterior, seja para outras regiões do país e por expansão do turismo receptivo, nacional e internacional, pouco expressiva). Sérgio Guerra adverte: "É preciso lembrar que se temos problemas na área industrial, estamos vocacionados para o comercio e o setor de serviços. No final é preciso lembrar que o mesmo Estado que produziu Catende, produziu o Shopping Center Recife". João Recena acha que no embate interregional o desafio de Pernambuco é compatibilizar uma burocracia administrativa estável com a possibilidade sempre de alternância de grupos políticos antagônicos. De conseguir fazer com que a questão do Estado esteja acima da questão partidária. "Diferentemente do Ceará e Bahia, Pernambuco não comporta vice-reis nem lideranças únicas. Não é da tradição pernambucana", conclui. Talvez tenha razão. |
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