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CRISES
Crises econômicas são todas iguais

por BIANCA NEGROMONTE

O Brasil já teve 12 moedas. Do real - cujo símbolo era simplesmente a letra R e que vigorou do período colonial até outubro de 1833 -, ao real de FHC - R$ -, o brasileiro navegou pelas águas tempestivas da hiperinflação, pela falsa calmaria da deflação e pela angustiante turbulência da recessão. Foram 14 planos econômicos só nos últimos 20 anos. Todos eles tiveram a mesma finalidade: Controlar o faminto dragão da inflação. Os 13 primeiros falharam. O Plano Real permanece em vigor, mas tem pela frente uma série de desafios que, se não forem vencidos, podem conduzir a União a uma nova moratória, e conseqüentemente, ao descrédito diante da comunidade econômica mundial e sanções financeiras e comerciais.

Se conseguir sobreviver à tempestade, o Brasil poderá contar a história do remédio amargo que tomou ao aceitar as regras do Fundo Monetário Internacional (FMI), com suas receitas de juros altos e que na história econômica do País sempre andaram acompanhadas de recessão. O economista Herôdoto Moreira de Sousa, recorda que o Plano Delfim 3, lançado em 1983, foi monitorado pelo FMI e adotou a fórmula da recessão para conter a inflação. Resultado: O PIB, que em 81 já havia despencado 4,2% por causa de uma política de arrocho com juros altos, voltou a cair 2,9%, aprofundando ainda mais a queda da atividade produtiva.

O Governo promoveu uma maxidesvalorização no Cruzeiro e a inflação, pulou de 211% para 223,8% ao ano. Para Herôdoto Moreira de Sousa, as crises brasileiras são todas iguais. O que muda é o gerenciamento dos problemas. E a constatação de que eles naufragaram antes de atingir a proposta inicial, pois a sua conclusão dependia de medidas políticas impopulares. Um bom exemplo disso foi o Plano Cruzado, de 1986, criado por Dilson Funaro, que na opinião do economista foi o primeiro com chance de dar certo, mas morreu por ser populista. Esta foi a época dos "fiscais do Sarney", que saíram às ruas com tabelas de preço na mão e até fecharam lojas que majoraram os valores dos produtos.

O Cruzado congelou os preços e reduziu a inflação anual de 235,1%, em 85, para 62,4%, em 86. Mas tinha, na sua base, a necessidade de impopulares ajustes fiscais para redefinir o papel e o tamanho do Governo, mas por questões políticas não foram feitos. O resultado é que em pouco tempo os mais diversos produtos começaram a sumir das prateleiras. "O que se pode avaliar é que o Governo não quis fazer o ajuste, pois temia prejudicar o PMDB nas eleições", diz Moreira. O País seguiu necessitando de reformas tributárias, previdenciárias e administrativas, enquanto foram promovidos pequenos ajustes, que na prática representaram aumento da carga de impostos.

Em 1987 foi a vez do Cruzado 2, o ano em que Funaro pediu a moratória - medida amarga e associada a punições por parte do mercado internacional. Mas de acordo com a economista Tânia Bacelar, o Banco Central dos Estados Unidos, o FED, não aplicou sanções ao País nesta época. "Eles sabiam que não havia como pagar a dívida externa, pois o déficit em relação ao PIB era muito elevado. Mas também sabiam que o Brasil voltaria para negociar", revela.

CHOQUES - Seguiram-se choques, aumentos de impostos, confiscos, e inflação alta, mudanças rápidas e bruscas suficientes para dar um nó duplo na cabeça dos consumidores. Em março de 1990, o primeiro presidente eleito pelo voto direto depois da queda da ditadura militar e da campanha Diretas Já, Fernando Collor de Mello, deixa o País perplexo. A ministra Zélia Cardoso de Mello lança o Plano Collor e confisca o dinheiro da poupança e das aplicações financeiras. O violento corte de liquidez bloqueou 70% dos ativos financeiros e derrubou a inflação de 82%, no mês de março, para 3%, em abril.

Mas um ano depois, o País já estava novamente promovendo congelamentos de preços, elevando preços públicos, impostos, juros e voltando ao caminho da recessão. O dragão da inflação evoluiu para o monstro da hiperinflação, atingindo o patamar anual de 2679,4%, em 93, só em Recife, segundo o custo de vida medido pela Fundação Joaquim Nabuco. O cenário só foi revertido em 1994, com a implantação do Plano Real. O pontapé inicial foi dado antes disso, com a criação da Unidade Real de Valor (URV), que indexou toda a economia.

Em julho de 94, o Governo implantou o real, que valia uma URV, e desindexou a economia. A âncora do Plano era o câmbio controlado. A partir daí a inflação despencou e o País entrou num ciclo de aumento de consumo e produção. O sucesso do Plano reelegeu o presidente Fernando Henrique Cardoso, em 98. Apesar de ainda estar em vigor, o Real está ameaçado. A faceta mais cruel da globalização aproximou as crises asiáticas e russa do mercado brasileiro, e a moeda sofreu ataques especulativos. As reservas caíram de US$ 60 bilhões para US$ 35 bilhões.

O jeito foi voltar ao FMI, Banco Mundial (Bird) e o BIS - o Banco Central dos Bancos Centrais - para obter ajuda financeira. O empréstimo de US$ 90 bilhões foi trocado pelo compromisso de realização de um severo ajuste fiscal e das reformas, mas com uma política restritiva de juros altos. A expectativa traçada em 98 para 99 era de redução do crescimento do PIB.

Em janeiro passado, o País enfrentou um novo pesadelo, quando o real - que estava sobrevalorizado - entrou em queda livre e teve a sua flutuação liberada. O remédio receitado pelo FMI foi juros altos para conter a inflação - mesma fórmula que não deu certo no Plano Delfim 3, no Plano Marcílio, nem para os tigres asiáticos ou para a Rússia. O fantasma da inflação voltou a rondar o País.

O fundo internacional revisou metas e garantiu recursos para o Brasil poder socorrer o real. Em contrapartida, foi aprovada a prorrogação e a ampliação da alíquota da Contribuição Provisória sobre a Movimentação Financeira (CPMF) e o Congresso Nacional finalmente iniciou as discussões para reforma tributária. No mês passado, o real voltou a se valorizar frente ao dólar - mais rápido do que preveu o Governo - e os bancos estrangeiros já começaram a dar crédito ao País. Quem sabe, desta vez, o Brasil saia da tempestade tomando o remédio certo.

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BIANCA NEGROMONTE
Aos 29 anos, é subeditora do caderno de Economia & Negócios do Jornal do Commercio, que ganhou o Prêmio Banco do Brasil de Melhor Caderno e Cobertura Econômica de 1998. Formada pela Universidade Católica de Pernambuco, começou a trabalhar na editoria como repórter, em 1992, cobrindo setores como indústria, microempresa, turismo, mercado imobiliário e contrução civil.