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Gilbués, uma cidade condenada a desaparecer
De fato, a desertificação na cidade impressiona pelos estragos causados no solo ao longo dos anos. Terras antes férteis para a agricultura ou usadas para criação de animais foram devastadas pela erosão provocada pelas chuvas e pelos ventos. Quando não são arrastadas no período do inverno, as camadas de solo vão embora durante a seca, época em que os ventos chegam a atingir de 80 a 100 quilômetros por hora, resultando na formação de grandes dunas de terras fofas e sem nenhuma cobertura vegetal. "Gilbués possui a maior área contínua desertificada do país. A degradação do solo atinge níveis tão graves que ela pode ser enquadrada entre as cidades mais afetadas pela desertificação no mundo", explica o professor da Universidade Federal do Piauí (UFPI) e um dos maiores especialistas no assunto, Waldemar Rodrigues. A explicação para um estágio tão avançado de erosão salta aos olhos quando se chega às comunidades do Boqueirão e Comprafiado - onde, nas décadas de 50 e 60, milhares de pessoas construíram imensos buracos na terra à procura de diamantes. A mineração foi a maior responsável pela situação em que se encontra hoje a cidade. Os solos foram agredidos durante anos, sem que nada fosse feito para compensar os danos causados pelo garimpo. Nos tempos áureos da mineração, o município chegou a ter 18 mil habitantes, praticamente o dobro da população atual. "Era uma época de muita riqueza. Tinha avião chegando todo dia com gente do Brasil inteiro para comprar diamante", recorda o ex-garimpeiro Cícero de Oliveira Paiva, 75 anos. Hoje, pouco mais de 200 pessoas ainda insistem na mineração, mas os verdadeiros formigueiros construídos na região de garimpo deixaram suas marcas. Nesses locais, o aspecto do solo chega a lembrar as imensas crateras que caracterizam a superfície lunar. "Até hoje, as técnicas usadas pelos garimpeiros são muito rudimentares. Fizeram buraco demais e a natureza agora está dando o troco", reconhece Cícero. A desertificação em Gilbués traz outra ameaça grave aos moradores da cidade. A erosão dos solos provoca o assoreamento dos rios, num estágio que compromete os principais leitos e açudes do município. O Brejão, considerado o "pulmão" da cidade, está sendo coberto pelas terras e um terço do volume de suas águas já diminuiu nos últimos dez anos. Como conseqüência, muitas espécies de pássaros também desapareceram, como o canário e a asa-branca. Se o córrego secar, estima-se que a temperatura da região aumente em cerca de três graus. O fazendeiro Amilton Lustosa dá um exemplo dos efeitos devastadores da erosão no município. Há três anos, ele construiu em sua propriedade um açude com seis metros de profundidade. Hoje o açude praticamente desapareceu, soterrado pelas terras arrastadas de outras regiões, e se transformou numa roça. "Gilbués deve ser a única cidade do mundo onde se colhe abóbora e arroz em açude", conforma-se o fazendeiro. |
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