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Anti-Jacu 99 por FERNANDO ANTÔNIO GONÇALVES* Nos tempos da democradura, quando os cabos Anselmos ainda não tinham adquirido a cara-de-pau de ditar malsinadas linhas para se vangloriar de ter dedurado companheiros de ideário, por aqui se elegia, todo 31 de dezembro, os Jacus e o Anti-Jacu do ano. Um grupo de intelectuais escolhia as personalidades merecedoras do título de Jacu, reverenciando também um notável com o galardão de Anti-Jacu do Ano, sob aplausos os mais entusiásticos. Uma explicação se faz aqui necessária: por Jacu se designa as aves galiformes que se alimentam de frutas, folhas, insetos e pequenos animais. Mas foi a sua característica principal que inspirou a criação do prêmio: uma desmesurada dejeção, desproporcional ao próprio volume do bicho. Concorriam à premiação figuras do regional, algumas incrivelmente imbatíveis. Havia até tetracampeões, cujo desempenho excrementício estava plenamente compatível com seus níveis mentais, embora outros conquistassem o galardão por serem dóceis, emasculados civicamente, sem brios nem honra, vivendo num puxa-saquismo perceptível até pelos que deles se encontravam distantes, por sentimento de vergonha. O ponto alto da reunião, regada a cervejas e deliciosos tira-gostos, era a eleição do Anti-Jacu do Ano, sendo aclamado aquele que, através de exemplar dignidade, do bom combate e de uma integral fidelidade aos princípios fundamentais do Ser Humano, durante o ano tivesse enobrecido a vida nacional, ou regional, como figura impar, de caráter e independência comprovados. Se houvesse este ano a eleição do Anti-Jacu 1999 o meu voto seria destinado ao escritor Gilvan Lemos, recentemente enxotado de uma livraria outrora pertencente ao Tarcísio Pereira, um livreiro admirável, sempre muito mais amigo que empresário, dotado de excepcional nível de solidariedade. Em relação ao Gilvan Lemos, escritor de quem sou admirador de carteirinha, dou testemunho às vésperas de um novo ano: uma das figuras mais admiradas do quase marginalizado cenário literário brasileiro, marcado ultimamente pela espalhafatosa presença dos adeptos de um servilismo bajulatório e cretino, incompatível com as mais nobres tradições machadianas. O Anti-Jacu 1999, esse encabuladíssimo Gilvan Lemos, orgulho de São Bento do Una, presença intelectual de há muito sentida na Academia Pernambucana de Letras, além de dotado de talento ouro de lei, pensamento fecundo e fecundante, nordestinidade sem menosprezo algum da universalidade dos seus livros, carrega um sublime anseio, o de ver o amanhã brasileiro menos nebuloso que o de ontem e o hoje, mais humano e fraterno. A humilhação sofrida pelo Gilvan certamente não ficará sem sementes. E a Nação Brasileira, em futuro que se espera breve, não mais terá tal tipo de má notícia. E não tolerará o cerceamento da pluralidade ideológica, da liberdade de ser decente e do escrever por dever de ofício. Nos anos 2000, o país, democrático e sem fisiologismo algum, se desenvolverá sob o signo da sabedoria e do bom senso. E a presença de Gilvan Lemos, sempre lúcida, se fará cada vez mais enaltecida, ele que está sendo um dos construtores da Inteligência de um Brasil tão desejado por todos nós. Caso contrário, se proliferarem os exterminadores dos papos literários e dos informais encontros intelectuais, haveremos de permanecer insurretos, para que os novos Gilvans Lemos não mais sintam o gosto acre da desconsideração. * Fernando Antônio Gonçalves é professor universitário e pesquisador social |
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