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HISTÓRIA E TRADUÇÃO
A confusão entre Bento e Benedito

por EDSON NERY DA FONSECA*

Bento e Benedito são dois santos que ilustram muito bem a unidade na variedade: um dos aspectos mais fascinantes da Igreja Católica. Viveram em épocas diferentes: Bento do quinto para o sexto séculos (c. 480-547) e Benedito no século XVI (1526-1589). Bento de família nobre da Nórcia (cidade italiana situada na Úmbria), foi estudar Direito em Roma. Benedito descendente de escravos etíopes radicados em Messina (uma das nove províncias da Sicília), era analfabeto. Bento era branco e Benedito era negro.

Mas na variedade das diferenças encontramos a unidade das semelhanças. Ambos foram inicialmente eremitas, e, depois, cenobitas. Bento na gruta de Subiaco (Lácio, província de Roma), só aos 49 anos construiu o mosteiro, hoje arqui-cenóbio, de Monte Cassino. Benedito, depois de 17 anos nos rochedos de Montepelegrino, vai para o convento franciscano de Santa Maria de Jesus, nos arredores de Palermo. Ambos morreram sessentões: Bento com 67 e Benedito aos 65 anos.

Como fundador de uma ordem religiosa que civilizou a Europa, Bento recebeu mais consagrações que Benedito. Em 1947 - quarto centenário de sua morte - Pio XII dedicou-lhe a encíclica Fulgens radiator. E em agosto de 1964 o Papa Paulo VI declarou-o Pai da Europa e Patrono do Ocidente. Benedito, cozinheiro e, depois, guardião do seu convento, foi canonizado pelo Papa Pio VII em 31 de maio de 1807.

Mas - aqui aparece outra semelhança post mortem - tanto Bento como Benedito são muito populares no Brasil. Existem cidades com o nome de São Bento em Goiás, Maranhão, Paraíba, Pernambuco, Rio Grande do Norte e Santa Catarina, ilhas nos rios Amazonas e Branco, lagoa no Piauí, riacho em Goiás, travessão (banco de areia) no Araguaia e uma série de terrenos triássicos no Planalto Meridional do Brasil. O número de cidades com apelativos ligados ao nome é ainda maior: São Bento das Perdizes no Maranhão, São Abade em Minas Gerais, São Bento do Una em Pernambuco, São Bento do Norte e São Bento do Trairi no Rio Grande do Norte, São Bento de Baixo e São Bento do Sul em Santa Catarina e São Bento do Sapucaí em São Paulo.

O número de cidades brasileiras com o nome de São Benedito é menor: no Ceará, em Minas Gerais e no Piauí. Há, ainda, uma ilha no Rio Amazonas e uma cachoeira em Rondônia. Com apelativos diversos lembro São Benedito do Rio Preto no Maranhão, São Benedito do Sul (ex-Iraci) na Zona do Litoral e Mata de Pernambuco, São Benedito da Cachoeirinha e São Benedito das Areias em São Paulo. Como que em compensação à inferioridade toponímica, São Benedito ultrapassa São Bento em matéria de festas populares. São tantas as festas em homenagem a São Benedito que Luis da Câmara Cascudo dedica ao santo negro todo um verbete do seu Dicionário do Folclore Brasileiro e um capítulo do livro Made in África.

Na Itália, Bento e Benedito são sinônimos, pois benedetto significa abençoado: tanto o branco erudito como o negro analfabeto viveram radicalmente os conselhos evangélicos. Foram santos pelos nomes e pelas vidas exemplares, como de Bento escreveu Gregório Magno. Mas nenhum italiano confunde Benedetto de Nórcia com o de Messina: confusão injustificável em língua portuguesa, com a consagração da distinção onomástica entre Bento e Benedito. Injustificável mas não impossível, pois foi estabelecida por dois eruditos que empreenderam a tarefa realmente heróica de traduzir em vernáculo A Divina Comédia de Dante Alighieri.

Como é sabido, no início do canto XXII do Paraíso o poeta refere-se a seu encontro com o fundador da abadia de Monte Cassino, sem, entretanto, dizer-lhe o nome. Nas melhores edições, tanto em italiano como em outras línguas, antes de cada canto aparece um breve resumo do mesmo. No exemplar da minha edição italiana (Milano: Ulrico Hoepli, 1974), está escrito: "S. Benedetto parla di sè e de'compagni" (página 807). Na magistral tradução em francês de Alexandre Masseron (Paris: Albin Michel, 1947) é o que se lê: "Saint Benoit" (página 770).

A gafe de atribuir a São Benedito a fundação de Monte Cassino foi cometida por Cristiano Martins na edição conjunta da Universidade de São Paulo e da Itatiaia de Belo Horizonte (cf. 2a. edição, 1979, volume II, página 468) e por Italo Eugenio Manso em recente e também muito elogiada edição (São Paulo: Editora 34, 1998, Paraíso, página 155). Diante disso, só repetindo o célebre verso da própria Divina Comédia: "non ragioniam di lor, ma guarda e passa" (Inferno, III, 51).

* Edson Nery da Fonseca é escritor e professor emérito da Universidade de Brasília.

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