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CRÔNICA
Por menor que seja o corte

por LUIZ MARCOS LIMA BARRETO*

A pequena distância, abro claros e colho provas, folheando um extenuante plantio de cana. A contragosto inscrito em pena não transcrita de lei o menor que já se chama clandestino, com o sol surge e à terra trata. A natureza, com os olhos postos nestas vidas, volve as mãos para cima como à procura de alguém.

Por que não ser verde assim de outro jeito?

Por que ter de tanto passar entre os dedos de outros tão doces desejos?

Por que só as origens fazem parte do diário desta história fixa?

Por que repetem-se nos descendentes as mesmas heranças genéticas?

Do quanto perdura, a noite extravasa e espairece. No que desperta, se abala e estarrece. O dia não se apronta porque nada muda. O tédio toma o tema de abertura. A lei aventa, alarma, mas, está longe e não dá a mínima para o que incorpora. Conta-se dela, que os fatos lhe fogem ao controle num piscar de olhos. Acredita-se que guarda segredos e troca favores e, como se usam, apenas frases remetem e infundem. Atribula-se com o que apregoa, envelhece, falta e magoa. Parasita de porta fechada. Fachada codificada e não levada a termo.

Ao opor-me, vou direto ao momento-chave. Averiguo o que se contém intocado e arco para ser digno de um estado d'alma. A cada palmo, disseco e detalho o que é verídico. Faço isso sem medo e para ser corrigido.

Pára ali o leva-e-traz. Descem filhos que alistam-se e alinham-se de mãos atadas aos pais. Do porta-luvas é tirada a folha de serviços e não a ficha de registros. Laços de parentescos em marchas por paissagens áridas que, no decorrer dos atalhos e desvios, já não se fazem sentir e, deslocados, desatam-se tanto dos planos quanto nos relevos.

Certidões de nascimento com datas desmarcadas e sem reparações de danos. Dispendiosas e de esperas internas e impostas. Fichas médicas que, à imagem das assinaturas dos ginecologistas, pouco se acham. Mães de repente, dentro da exiguidade de tempo e do espaço, onde com garbos, os pais acertam os alvos bem como se orgulham da saga do brasileiro nato.

Na ausência do cartão de ponto, registro a urgência de um caso grave. Por menores que sejam, os feixes pesam em mudas de braços, os corpos curvam-se aos pedaços e as canas deitam-se passo a passo.

Infância que inverte o senso poético e parece extraída pela atitude da foice e da enxada. Impurezas, nuvens negras, estridências dos maus fluidos das queimadas e nem sombra das inocentes vidinhas em lições nas salas de aula. Por estima, a natureza volta à baila e se aplica quando examina e conta à míngua a faixa etária. Emociona-se com a visita da chuva e não se cansa de pedir que pela dor alheia se desprenda mais. Geniosa, réplica e uma enluarada cerca viva ouve uma linha contemporânea e nem um pouco anônima: tem mais corte na pele do que na cana. Para purificar o verso recém-plantado, custa a chegar na capela, que sem devotos se isola açucarada.

O sindicato, por seu turno, peleja e degusta, empalmando enganosas e suculentas contribuições. Acorrem-me assovios que imitam pássaros nativos e embalam uma impensável caravana de meninos medievais que dissolvem-se desumanizados e marcados. Levam um mínimo de dentes na boca a alimentar. Sulcados e sedentos, anestesiados pela celeuma dos ventos; segregados, como se depreende, espezinhados na mata fechada do Ocidente, alvejados e sacrificados defronte do vento da globalização.

Dieta à luz de vela acesa e apenso ao reboco de um cômodo-chuvoso, o retrato de um político idoso que se vale da pobreza em suas humilhações. Enjôos à parte, e consigo, um altivo charuto havana se sente ridículo. A sensação estranha a longevidade dos mandatos que arrastam-se sucessivos pelos trapos, palhas e tosses. Cantadores cegos, pelos sete a oito pés de altura personificam ilusões.

Perto dali, a afamada Casa-Grande há séculos não só tange a natureza que tanto ateia fogo, como atrela-se aos fadados bancos e lhes pinham os bolsos. Atenta, a mãe natureza adora uma pergunta razante: por que das usinas e dos engenhos não se retiram ou ao menos mudam os enfadonhos sobrenomes?

A resposta entrincheira-se pela falta de limpeza do solo e a natureza cerra fileiras para que ela não pereça por terra. Da cronologia das suas fontes, a avó natureza enconraja-se. Indignada e exuberante, presenteia-nos com um comentário amadurecido na sua safra: desta cena, cumpre notar o desplante; do que tenho ciência as crianças sobrevivem semi-destruidas pelas dívidas sociais e gravísssimas dúvidas legais. Tão convincente e incidentemente imenso, que cabe ao Governo lá de longe declarar-se.

Do Planalto Central do País para o corte de cana do Nordeste, chega um telegrama e não uma carta inconteste. Leio em voz baixa e à beira de um geográfico abismo: lamentamos a perda da infância; pela adolescência, desculpem-nos e como o futuro a Deus pertence, nos veremos adiante.

Ninguém disse nada.

Pouco depois, por piedade, um dos meus filhos desanuvia o texto e deixa-me despreocupado: "papai, eu soube que o açúcar agora está sendo processado nas usinas. Será por isso?

* Luiz Marcos Lima Barreto é escritor

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