ENTREVISTA/ Rafael Romero Ruiz
"A arte atual é
falsa e sem profundidade"por CAESAR SOBREIRA*
A casa do pintor Rafael Romero Ruiz,
em Madri, é pequena para guardar a quantidade de
quadros, objetos de arte, esculturas, antiguidades,
livros e lembranças reunidas ao longo do tempo e das
diversas viagens pelo mundo. Entre elas, pela já remota
Paris, dos anos cinqüenta, onde morou por dez anos, e
conviveu com artistas como Max Ernst, Sartre, Tzara,
Leger.
Nesta entrevista, Ruiz faz um
balanço da sua própria pintura, critica a arte atual e
diz o que espera do futuro.
JC Cultural - Don Rafael, sua casa
é um verdadeiro museu artístico e etnográfico. Qual o
significado afetivo de tanta obra de arte reunida em sua
casa?
Rafael Romero Ruiz - São partes
de mim mesmo, dos lugares e amigos que faltam. Talvez
não tenham outro valor mas este é grande. É meu
refugio para lutar contra a solidão.
JC - Qual o seu conceito de arte?
Ruiz - Entendo como Arte todo
aquele trabalho sentido e bem feito, capaz de produzir
uma emoção ética ou estética, que dignifique a
existência humana e a harmonize com seu ambiente, que é
a própria natureza. Não posso entender a arte por si
só, senão como parte inseparável da própria vida. É
o ambiente circundante o que lhe dá forma, mas também
pode acontecer que logo ajude a transformar o mesmo, ou
ao menos valorizar sua existência. Trata-se de uma
relação recíproca, um meio para melhor compreender,
iluminar e humanizar a vida.
JC - Esta função é cumprida pela
arte contemporânea?
Ruiz - A arte atual é
decorativa, que pode servir para um dia, um momento
presente de pouca duração. Digo isso sem nenhuma
reprovação, porque tampouco tenho nada contra. É certo
que esse tipo de arte permite mudar um pouco a cara de
todos os dias, que é uma triste monotonia, contribuindo
também com algumas idéias ou, ao menos, um merecido
descanso. Entretanto, considero que a verdadeira Arte é
aquela que brota mais do fundo do que da forma, que
absorve influência do presente, do passado, do futuro e,
por isso mesmo, é atemporal.
JC - A "arte de consumo"
contemporânea, submissa às influências dos mais
importantes centros de produção artística, dita as
regras da arte do nosso tempo?
Ruiz - A moda é uma autêntica
tirania, absolutamente contraria à Arte, que deve ser
livre para poder ser criativa. Nada tem a ver com a
renovação, Imprescindível para o progresso e a
evolução.
JC - Conte-nos um pouco da sua vida
em Paris e quais foram os grandes artistas e filósofos
com os quais foi possível manter contatos.
Ruiz - Cheguei em Paris no final
de 1955 e vivi dez longos anos na capital francesa. Ainda
flutuavam as sombras daqueles pobres malditos chamados
Modigliani, Kisling ou Soutine. Naquela época ainda era
possível encontrar, nos cafés de Montparnasse ou do
Quartier Latin, com Foujita, Brancusi, Max Ernst, Breton,
Sartre, Tristan Tzara, Fernand Leger...
JC - Qual sua participação nos
grupos artísticos que viviam em Paris dos anos
cinquenta?
Ruiz - Eu fazia parte de um
grupo de artistas espanhóis que sucedia aqueles outros
exilados da guerra da Espanha (Peinodo, Lobo, Alcalde,
Clavé, Oscar Dominguez, etc.) que foram de certa forma
acolhidos por Picasso, Bataille, Aragon, Malraux e outros
artistas e intelectuais que haviam sentido em sua alma e
dentro de sua própria carne os efeitos daquela guerra
fratricida.
JC - Como era, então, a arte da
vida para sobreviver em Paris?
Ruiz - Era dura a vida dos
jovens artistas do mundo inteiro que íamos nos encontrar
na Ville Lumiere em sua então ativa vida cultural e
artística. Era difícil almoçar todos os dias e, pior
ainda, encontrar quatro paredes para dormir, esquentar
uma comida e, apesar de tudo, ainda poder pintar. Éramos
obrigados a realizar os trabalhos mais duros, em
competição com rapazes árabes mais acostumados na
labuta e de fortíssima constituição física. E para
pintar ou desenhar construíamos uma espécie de cavalete
sobre a mesa ou cama e então pintávamos durante a
noite, o que era uma péssima maneira de praticar nosso
ofício. Os escultores evidentemente não tinham
possibilidade de trabalhar nessas condições.
JC - E os grandes artistas,
especialmente os espanhóis exilados, não ajudavam
vocês, os novatos daquela época?
Ruiz - Naquela época Picasso e
Chagall já nem frequentavam Paris. Mesmo assim, cheguei
a conhecer os mais importantes artistas plásticos do
momento e também grandes homens da literatura como o
cubano Nicolás Guillén, o franco-argentino Julio
Cortazar, o Pablo Neruda e o Asturias, que, durante algum
tempo foram embaixadores de seus respectivos países. O
simples fato de tê-los conhecido deixou boas
lembranças. Nessa época sobrevivia em Paris um grupo de
velhos espanhóis republicanos, nostálgicos de seu tempo
de lutas e daquela pátria somente próxima em
distância. Curiosamente também sobrevivia em Paris um
grupo russos burgueses ou aristocratas que exilados da
Rússia desde muito jovens por causa da revolução
soviética.
JC - Sua pintura tem nas curvas seu
traços o distintivo, sugerindo uma sensualidade
consentida e comedida. Por que sua fascinação pelas
formas arredondadas?
Ruiz - Nessas formas
ondulatórias eu gosto de encontrar-me e nelas submergir.
Entendo que são as formas da ida e do regresso, do
ventre da mãe e da posição do feto, do encontro
amoroso, da carícia, ou seja, do côncavo e do convexo.
Ao final me surge um tema desejoso de fixar-se só como
um símbolo ou síntese, mas procurando que tenha uma
desenvoltura e que essa forma concreta corresponda
sobretudo com aquela outra inconcreta de onde nasceu.
Essa é ao menos minha intenção.
JC - Que pensa do presente e do
futuro da arte?
Ruiz - Em uma sociedade
totalmente decadente e corrompida como a atual é
impossível que a Arte permaneça incólume. É produto
lógico dessa circunstância. Em grandes pinceladas, a
Arte se converteu em um produto especulativo, um artigo
de consumo e em uma maneira relativamente fácil e de se
fazer dinheiro ou aumentá-lo. Alguns artistas sucumbem
também a essa tentação, igual que alguns renomados
especialistas que defendem e protegem esta mercadoria com
as teorias mais delirantes e incompreensíveis. Uma
pseudo-arte sem indentidade nem alcance, sem profundidade
nem forma, que forçosamente terá uma vida muito
limitada, apesar de invadir os museus, galerias,
edifícios e espaços públicos, ante o repúdio e o
espanto das pessoas.
JC - E como será a Arte do futuro?
Ruiz - Corresponderá também
com a sociedade na qual o homem se formará, ou melhor
dito, que lhe deixem formar, em favor ou contra a sua
pessoa. Desejo de todo coração que a futura sociedade
venha a ser o menos parecida com a atual, que esteja em
harmonia com o homem e com a natureza, uma sociedade mais
justa e honrada. Se algum dia for assim, a arte se
converterá em um ofício a mais, diferente dessa
atividade de sublimação que agora se lhe atribui.
Porque se o homem pudesse escolher o trabalho de sua
vocação, aquele com que se sentisse plenamente
identificado, sem sentir-se explorado por ninguém,
então esse trabalho seria produto do amor e, por
consequência, uma obra de Arte, simplesmente anônima.
* Caesar Sobreira é doutor em
Psicologia pela Universidade de Salamanca e diretor do
Núcleo de Saúde da Universidade Federal de Rondônia.
Pedro Zimmermann, que traduziu a entrevista, é
acadêmico de Psicologia da UFRO.
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