FILOSOFIA
Pensamento
pós-moderno: será filosofia ou nonsense e embuste?por SEBASTIÃO VILA NOVA
Quem ousaria afirmar que sob o discurso
de pensadores da reputação de Jacques Lacan, Julia
Kristeva, Luce Irigaray, Bruno Latour, Jean Baudrillard,
Gilles Deleuze, Félix Guattari e Paul Virilio nada mais
existe do que puro nonsense? Os físicos Alan Sokal, da
Universidade de Nova Iorque, e Jean Bricmont, da
Universidade de Louvain, não somente o fizeram, mas o
fizeram com a mais irretocável competência e
honestidade intelectual, em Imposturas intelectuais - o
abuso da ciência pelos filósofos pós-modernos (Rio de
Janeiro: Record, 1999, 316 p.). Antes das invectivas de
Sokal e Bricmont, já o historiador Richard Morse,
referindo-se aos "ágeis comentaristas franceses
modernos", expressara a opinião de que a
contribuição desses intelectuais não passaria de
"um exercício um tanto incoerente de
superficialidade pomposa", lamentando que "os
franceses (tenham abandonado) sua rica tradição
sociológica, que vai de Saint-Simon a Le Play, Durkhein
e Mauss (...)." (O espelho de Próspero. Trad. Paulo
Neves. SP: Cia. das Letras, 1988, p. 119).
Publicado originalmente na França em
1997, somente aparecendo em 1999 nos Estados Unidos, com
o título, bem mais mordaz e apetitoso, de Fashionable
Nonsense, o livro de Sokal e Bricmont - na realidade,
mais que um livro, um petardo nas trincheiras do
pós-modernismo - começou com uma farsa. Conforme
explicam os autores de Imposturas intelectuais:
"Durante anos, fomos ficando escandalizados e
angustiados com a tendência intelectual de certos
círculos da academia americana.
Vastos setores das ciências sociais e
das humanidades parecem ter adotado uma filosofia que
chamaremos, a falta de melhor termo, de
"pós-modernism": uma corrente intelectual
caracterizada pela rejeição mais ou menos explícita da
tradição racionalista do iluminismo, por discursos
teóricos desconectados de qualquer teste empírico, e
por um relativismo congnitivo e cultural que encara a
ciência como nada mais que uma "narração",
um "mito" ou uma construção social entre
muitas outras". (p. 15).
Assim, Sokal "decidiu enviar à
apreciação de uma revista cultural americana da moda, a
Social Text, uma caricatura de um tipo de trabalho que
havia proliferado em anos recentes, para ver se eles
publicariam. O artigo, intitulado "Transgredindo as
fronteiras: em direção a uma hermenêutica
transformativa da gravitação quântica" (...)
eivado de absurdos e ilogismos flagrantes" (p.
15-16) foi, talvez para supresa de Sokal, publicado. Mais
do que isto: publicado precisamente em um número
especial daquele periódico, voltado à refutação das
críticas ao pós-modernismo e ao construtivismo social
por cientistas de alta reputação.
Com Imposturas intelectuais, pretendem
os seus autores mostrar que "intelecutais famosos
como Lacan, Kristeva, Irigaray, Baudrillard e Deleuze
abusaram repetidamente da terminologia e de conceitos
científicos: tanto utilizando-se de idéias científicas
totalmente fora de contexto, sem dar a menor
justificativa. (...) quanto atirando a esmo jargões
científicos na cara de seus leitores não-cientistas,
sem nenhum respeito pela sua relevância ou mesmo pelo
seu sentido." (p. 10).
O segundo objeto de discussão do
ensaio de Sokal e Bricmont é o relativismo epistêmico,
mais precisamente a idéia de que o saber científico
não passa de mera invenção intelectual sem compromisso
algum com o conhecimento empiricamente demonstrado e,
portanto, com a verdade. Verdadeiro manifesto contra os
abusos e malabarismos verbais dos pensadores ditos
pós-modernos, Imposturas intelectuais chama a atenção
para a necessidade de retomar - e retomar com respeito -
o grande legado intelectual do Renascimento e do
Iluminismo.
Que a ciência constitua um discurso é
fato inquestionável; mas que não passe de um discrso é
flagrante contra-senso. Que o conhecimento, inclusive o
conhecimento científico, seja relativo, resultando das
condições históricas das quais emerge, é
constatação sociológica indiscutível e, como tal, um
saudável antídoto contra o cientificismo positivista
(se ainda existe alguém que o defenda); admitir, porém,
que as explicações científicas sejam relativas em
termos absolutos significa capitular diante do mais
irracional dos ceticismos e, portanto, no dogma da
impossibilidade de conhecimento confiável.
Sokal e Bricmont nos colocam diante da
constação elementar de que não é com pirotecnias
verbais de gosto discutível que se faz ciência nem
filosofia dignas do nome. Enfim, depois de Imposturas
intelectuais, o que quer que se denomine pós-modernismo
já não será o mesmo.
* Sebastião Vila Nova é sociólogo
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