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A CIDA CRÔNICA
A última noite de um menino

por JOAQUIM CESÁRIO DE MELLO

Já que todos se foram, os parentes, os amigos e cônjuges dos parentes, os vizinhos, os curiosos e os transeuntes das horas vagas, fica o garoto e a tranqüilidade da casa que, alheia a seu dorido silêncio, como se este a esta não lhe pertencesse, quieta-se do burburinho quase festivo dos instantes anteriores, retornando à dormência peculiar das edificações e as suas habituais rotinas de pedra e cal. Gradualmente o dia regressa ao seu ritmo diário, muito embora seja noite e seja tarde no adiantado das horas restantes, somente registradas no relógio da parede da sala. Os sobreviventes da casa dormem o sono dos justos; o garoto, não. O tique-taque cadenciado e intermitente ecoa pelos espaços calados do recinto doméstico, para logo se dissolver na surdez das portas e das janelas fechadas (encarcerado o tempo, inexiste ele se não houver quem lhe dê qualquer mínima atenção). Externamente o mundo tem outros horários. De cá de dentro, entretido de recordações, o garoto o esquece, bem como dele o tempo não lhe possui lembrança. Estranha aquela irmandade de ambos que se nega entre si, na cumplicidade compartilhada de seus aprisionamentos.

Como o pensar é o oposto do sono, é o garoto o único então acordado. Teme a liberdade dos sonhos e a profundeza que nele mora além da consciência. Repele fechar os olhos para não reencontrá-la repreendendo-o por sua tão longa equivocada demora. Naquele derradeiro abandonamento termina ali uma infância, por sobre a cama não forrada do dia que antecedeu a sua primeira insônia. Deixaria para amanhã, ou para mais depois, aprender a dobrar e ajeitar os lençóis da cama, como tantas outras eram as coisas que ela jamais o ensinou - talvez necessitasse ainda ser importante, já que achava que continuaria.

Um cão ladra, vários o acompanham. Naquelas tardias horas alguém passa defronte à casa onde agora vegeta o garoto privado de sono e de companhia. Acaso fosse um pai aquele que passa, decerto retornaria ao filho, ou se um marido à mulher, pois a lei da vida é os que ficam receberem de volta os que foram. O garoto não mais aguarda, embora frente a sua casa exista uma rua por onde atravessam retornantes aqueles que não são os seus. A luz acesa do quarto ilumina através das frestas o passeio do desconhecido homem; em breve os cachorros sossegarão seus latidos, restando apenas o grito do garoto, que nem sequer incomoda os animais da rua. Quando já estiver apagada a luz e inexistir mais os cômodos da casa e seus residentes, e, quem sabe, até mesmo esta rua, do lado inverso do universo e em seus confins haverá de haver um outro garoto a espreitar nos céus maravilhado a beleza do brilho morto de uma estrela.

Se ainda é escuro nos demais quartos, ninguém socorrerá o garoto no afogamento das ocultadas lágrimas, exceto os travesseiros em seus árduos ofícios de sugarem líquidos e sonhos (quantos choros devem encerrar os travesseiros?). O anonimato de um tormento não faz dele uma menor dor, muitas vezes padece-se da aflição que se sente e o sofrimento dos seus sofreamentos. Silenciar, pois, é quase sempre sofrer duas vezes. Assim ele, por pequeno demais para tamanho ferimento, vê-se crescido cedo de uma dor imensamente maior do que a quebradiça porção que lhe cabe no metro e meio de menino. Acaso tivesse ela o ensinado forrar camas e manifestar prantos, estaria o garoto, no enlutamento da noite, possivelmente a consertar os extravios, como quem prega botões caídos de uma desgastada camisa.

A roupa permanece estendida por sobre a cadeira da escrivaninha. O pouco amarrotamento e o cheiro da goma nova não esconde seu tecido de recente serventia. Tantas foram as vezes em que ambicionava o dia que usaria suasprimeirascalças compridas - ela se o pudesse ver ficaria orgulhosa do alongamento do seu menino. Porém, agora, em que o desejo é unicamente memória, trocaria tudo e todas as calças que ainda vestiria pelos encurtados calções de criança. Antes fossem os joelhos à mostra do que o encobrimento adulto de sua solidão.

No horizonte contrário onde se põe o sol, principia o amanhecer do dia; em instantes a casa acordará de pessoas e agitos. Logo não haverá mais vestígios da noite, nem pontas de cigarros nos cinzeiros e as marcas de batons nos copos da cozinha. Faxinado o ontem, tudo retornará ao arrumado impecável das aparências duradouras, menos os aniversários infantis, os presentes de natal, os domingos em família e o dia das mães, que, juntos ao peito, enterraram em um sítio distante da casa e destes inressuscitáveis momentos esquecidos.

* Joaquim Cesário de Mello é escritor e psicólogo

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Jornal do Commercio
Recife - 0
6.12.99
Segunda-feira