A CIDA CRÔNICA II
Adolescência do paiChega o instante em que a filha pedirá ao pai
para buscá-la madrugada na boite. Quanto mais tarde ele
a apanhar, melhor para ela. Quanto mais tarde ela o
pedir, melhor para ele. O pai sabe, porque já foi filho,
a fatalidade desse dia, até um outro dia, tão
inevitável quanto aquele, em que ela não mais o
pedirá, pois dele não mais necessitará de
autorizações e buscas. Os filhos crescem, quem não
sabe, talvez o pai até o instante do desprendimento.
Ser pai na adolescência dos seus
filhos nem sempre é ofício fácil. Inúmeras são as
mudanças que se produzem no jovem, sejam elas
psíquicas, corporais, além das novas cobranças
sociais. Crescer e adolescer implica no desaparecimento
do corpo infantil e da própria infância, e com ela
também se vai a imagem dos pais das épocas infantis.
Quanto menores e imaturos são os filhos, mais enormes e
poderosos parecem ser os seus pais. E tanto se fala dos
adolescentes e de suas crises, contradições e
conflitos, que muitas vezes esquecemos do outro lado da
adolescência: os pais e suas renúncias e
envelhecimentos.
A filha cresce, o pai diminui. Deve
ele, processualmente, abandonar a imagem que de si a
filha criou, bem como seu posto e função. O papel de um
pai alterna em relação aos diferentes períodos e
idades do seu filho. O pai de uma criança pequena jamais
será o mesmo pai de um adulto, muito embora seja ele
essencialmente o mesmo. O pai é um pai, o que muda são
as relações e as situações, e com elas e nelas suas
funções. Agora, o pai com a filha iniciante de vidas
noturnas não é mais aquele aspirado ídolo de outrora,
que foi ficando, ficando no passado de ambos, a cada
passo e conquista da maturidade da filha. O super-homem
da menina transforma-se assim em simplesmente apenas o
homem que ele é, com alguns sucessos e outros tantos
fracassos. A fragilidade da filha faz-se à mostra quase
como se fosse uma descoberta.
A paternidade não se inicia quando
nasce um filho, nem quando a mãe deste ainda o carrega
no ventre. A paternidade tem seu início no desejo de se
ter um filho. Por sua vez o desejo de se ter um filho
passa pelo desejo de maternizar uma mulher. Desse modo o
impulso pela paternidade tem sua gênese em um desejo de
maternidade, coincidente com a genitalização da
sexualidade, pois ser pai não é uma vivência exclusiva
e dual (pai-filho), mas sim uma coexistência triangular
(pai-mãe-filho). Aliás, não existiria pai sem mãe,
nem uma mãe sem filho.
Acontece que muitas vezes no sentir o
desejo de se ter um filho se confunde o sentimento de
posse. Parafraseando Gibran, o pai ao ter um filho não
tem o filho para si, porém para o mundo, muito embora na
infância do seu filho possa o pai esquecer um pouco ou
um tanto isso. Crescido o filho, adolescente este, tal
realidade parece invadi-lo como se fosse tão de repente.
Um sentimento de nostalgia e perda predomina, ainda que a
perda nunca seja definitiva, pois o pai não perde a sua
condição de pai pela adultificação dos filhos. O que
se perde, o que mais se perde, é o inútil sentimento de
posse e domínio quando o filho se volta e se solta no
mundo em busca de outros objetos a estender seus desejos
e afetos. A filha de que falamos chegará ao insante em
que priorizará outros abraços, aos invés dos braços
do pai.
Se a adolescência é uma fase
difícil, difícil será para ambos: filhos e pais. Um
dia o pai desejou ter uma filha, maternizando uma mulher.
Anos depois poderá haver a filha de desejar a sua
própria maternidade, gerando comistouma outra e distinta
paternidade. E assim caminha a vida em seu curso e com
ela a humanidade. O desenvolvimento melhor se dará em um
ambiente onde não se prenda a autonomia necessária, nem
se exija a urgência da liberdade precoce. O jovem quer a
independência com um misto de expectativa e medo. A
independência não é um foguete que se lança ao contar
do zero; é feito um fruto que antes foi parte da semente
plantada em solo fértil de onde a partir de suas raízes
arboreceu-se até a maturidade frutificada do
acolhimento.
Crescer é um processo lento e gradual,
às vezes também sofrível. Porém, se nesse processo se
diminuem os pais idealizados da infância, cresce-se com
os filhos o que podemos realmente chamar de paternidade.
Ser pai também é ter prazer de levar e buscar a filha
na boite - falta combinar com ela o horário. (A Camila)
* Joaquim Cesário de Mello é
escritor e psicólogo.
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