LG_jc.gif (3670 bytes)

Banco itinerante

A anunciada linha de financiamento para agricultores dos sertões do Pajeú e Moxotó, definida como Programa de Geração de Emprego e Renda - Proger -, começou a se transformar em realidade, nos dias pré-natalinos. A 21 de dezembro, solenemente, foram assinados os primeiros contratos entre o Banco do Nordeste e pequenos produtores rurais dos municípios de Arcoverde e São José do Egito, a que se seguiram outros, para alcançar a meta de dois mil beneficiados.

Essa aplicação está atingindo, nesta primeira etapa, também outros 17 municípios sertanejos e agrestinos de Pernambuco, a saber: Afogados da Ingazeira, Bezerros, Bom Conselho, Bonito, Cachoeirinha, Correntes, Custódia, Floresta, Garanhuns, Gravatá, Iguaraci, Orobó, Salgueiro, Serra Talhada, Sertânia, Tabira e Triunfo.

O projeto, resultante de articulação entre os governos federal e estadual, foi estimulado, como se sabe, pela campanha federal de erradicação da maconha. Está sendo enfaticamente chamado de "Banco do Povo", o que nos faz pensar numa instituição privada sediada no Recife que tinha o mesmo nome, mas foi riscada do mapa de Pernambuco na voragem do tempo. O novo banco não tem sede fixa, deslocando-se as equipes da entidade financeira do Governo Federal para as cidades escolhidas, quando não existem agências fixas do Banco do Nordeste, que é sediado em Fortaleza. No contrato assinado, os agricultores admitem pagar, além do valor do empréstimo deferido pelo agente financeiro, juros de 12,5% ao ano, mais 2,5% de taxa de serviço. Não é dinheiro doado, mas certamente representa uma boa opção para quem lida atualmente com a agiotagem mais desenfreada (bancária ou pessoal), e compromete a colheita futura com "vendas antecipadas" que representam às vezes quase uma apropriação dos bens produzidos, com o esforço do suor, inclusive dos filhos menores.

Os recursos anunciados pelo Banco do Nordeste são modestos, para atender a tanta gente necessitada: R$ 6 milhões redondos, o que representa uma média de apenas R$ 3 mil por agricultor. Na realidade, os empréstimos têm uma faixa de variação entre R$ 500,00 e R$ 5.000,00. O prazo de carência é de seis meses, mas o pagamento pode se estender por três anos, em 36 prestações mensais. Se houver chuva, dará para pagar o débito e contabilizar algum lucro.

Paralelamente a essa contribuição federal, a Secretaria Estadual de Produção Rural e Reforma Agrária definiu linhas de ação contra os efeitos da estiagem em todo o Estado. Para o ano que chega, o tão esperado 2000, são anunciadas novas obras hídricas, distribuição reforçada de sementes e capacitação profissional para produtores rurais em 127 municípios do Sertão e Agreste pernambucanos.

Até a Zona da Mata será parcialmente atendida. Nessa área geográfica, a crise estrutural da economia sucro-alcooleira foi agravada pela situação conjuntural de seca, que persistiu durante três anos e se agravou dramaticamente em 1999. Mesmo que chova bastante, de agora em diante, isso não eliminará os sinais já visíveis de desertificação. Esta é em parte conseqüência da estiagem, mas se explica sobretudo pelo mau uso do solo, queimadas e destruição do resto da cobertura vegetal.

De acordo com fontes do Governo estadual, serão aplicados em ações diretas contra os efeitos da seca cerca de R$ 6 milhões, o mesmo total a ser financiado aos agricultores de 19 cidades sertanejas e agrestinas. Conforme tais levantamentos, que se apóiam em recursos a serem liberados através da Sudene (20% é a participação do Estado), deverão ser perfurados mais 280 poços tubulares e construídas 1.500 cisternas, enquanto 75 mil produtores rurais receberão sementes para plantio.

Alguns lembrarão que isso é anunciado todos os anos, nas últimas quatro décadas. Mas se pode responder que lamentável seria se os programas de obras hídricas e de apoio à agricultura não tivessem tido continuidade, ou fossem parar agora, quando tanto se precisa deles.


Jornal do Commercio
Recife - 01.01.2000
Sábado