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COMPORTAMENTO Uma Festa, várias famílias Até 1991, aos doze anos de idade, o Natal e o Réveillon para a estudante Taís Renata Siqueira era uma celebração de toda a família, quando a sua casa se transformava num ponto de encontro para parentes e amigos, que aproveitavam a festa num clima de alegria e fraternidade. De oito anos para cá, quando os seus pais se separaram, no entanto, o final de ano nunca mais foi o mesmo. "O núcleo da família passou a ser formado por mim, meus irmãos e minha mãe e o tradicional almoço na casa da minha avó paterna, no dia 25, deixou de existir. Desde então não fico com o meu pai nessas datas porque a minha mãe cobra nossa presença". Para ela, acostumar-se com a nova realidade não foi fácil, mas, hoje, aos 20 anos, ela decidiu morar com o pai durante a semana e provavelmente vai comemorar a virada do ano com ele. A história de Renata é mais uma entre as muitas contadas por filhos de pais separados, que dentro de 20 anos serão maioria no país dado à notável mudança de comportamento na sociedade, em que os casamentos têm se formado e terminado numa velocidade inimaginável no tempo de nossos avós. Estima-se que só no Brasil existem 14 milhões de lares desintegrados pelo fim dos laços matrimoniais e que um em cada cinco bebês nascidos a cada ano irá viver em famílias de pais separados antes de atingir a idade adulta. Os resultados dessa transformação são surpreendentes e interessantes quebra-cabeças familiares, principalmente quando os pais se unem a novos companheiros, que geralmente também trazem filhos de outros casamentos. De acordo com a psicanalista Valéria Aguiar, do Centro de Pesquisa em Psicanálise e Linguagem (CPPL), embora a família moderna esteja tomando novas configurações, a referência à família tradicional - composta por pai, mãe e filhos - ainda existe fortemente, pelo menos enquanto ideal. "E é nessa época do ano, quando tudo se volta para a celebração desse tipo de família, com o reforço do Cristianismo e dos valores culturais mais conservadores, que ocorre um certa melancolia e sofrimento por parte daqueles que não correspondem mais ao padrão estabelecido durante décadas e estão afastados dos parentes mais queridos", analisa Aguiar. Segundo ela, o sentimento de nostalgia e de perda pode ser diminuído na medida em que se buscam soluções alternativas viáveis de se garantir a continuidade dos laços, mesmo que não seja da forma sempre idealizada e desejada pelos filhos, que é a de ter o pai e a mãe juntos. A adaptação e desenvoltura com a desestruturação da família, tanto para pais quanto para filhos, depende do modo como a separação é tratada desde o início, depois de superada a fase da crise. É necessário discernimento para saber que as antigas festas de fim de ano, com a família numerosa reunida não são mais compatíveis com a nova realidade, mas podem se tornar gratificantes. O importante é que os pais sejam presentes na vida dos filhos, oferecendo sempre atenção, amor, segurança e conforto emocional, como é o caso da advogada Tereza Cristina Borba Cunha que já no primeiro Natal após a separação, mesmo ainda se sentindo magoada, aceitava a presença do ex-marido para não privar os filhos da convivência paterna. "Ele estava ali, mas era como se alguma coisa estivesse partida porque não formávamos mais uma família junto com os nossos quatro filhos. Para mim, seria melhor até que ele não viesse. Hoje somos amigos e vemos, seis anos depois, o quanto foi e é fundamental estarmos unidos nessas ocasiões para o bem estar dos meninos", diz Tereza. "Faço questão que eles estejam conosco no Natal e no Ano Novo, mesmo sabendo que não há mais possibilidade de retomarem o casamento. Se um dos dois não estivesse, ficaria chateado", confirma o caçula Victor Borba Cunha. Um outro exemplo de como o Natal e o Réveillon podem ser vividos por todos, desde que haja esforço mútuo para superar as diferenças, é o da família Melo Mendonça. Como eles nunca tiveram festas convencionais, com pai e mãe juntos, porque se dividiam para visitar as avós materna e paterna, a separação não causou muitos traumas, pelo menos nesse período. Por outro lado, a `diáspora' serviu para aproximá-los, já que agora todos os anos há uma ceia para a família - pai, mãe e os três filhos - confraternizarem-se no Natal. "Foi bom para nos unir porque antes, quando os nossos avós eram vivos e os nossos pais casados, isso nunca se fazia", declara Adail de Melo Mendonça, 16. "É uma situação que poderia ser melhor se eles estivessem juntos, mas do nosso jeito, tentamos nos conciliar e sermos felizes. Existe uma convivência harmoniosa que se reflete também no período de festas", garante o primogênito Aderval de Melo Mendonça, 21. SEPARADOS NO NATAL - As novas e incessante mudanças familiares também afetaram a vida do médico dermatologista Emmanuel França, 43, e sua segunda mulher, a empresaria Luísa, 42. O primeiro casamento do médico durou cerca de um ano. Nele, nasceu Rafael, hoje com 16 anos. Separado, Emmanuel conheceu Luísa, que já vinha de outro casamento, onde nasceram Juliana, 16, e Mariana, 15. Juntos, o médico e a empresária geraram a pequena Daniela, 6. O estudante Rafael, filho do primeiro casamento de Emmanuel, chegou a morar durante vários anos com a mãe, com quem passava seus natais. Hoje, o estudante vive com o pai e sua nova família, e divide com os pais a presença nas festas de final de ano. "Sempre procurei agir da melhor forma nesse caso. Deixo a opção para Rafael", comenta França. Juliana e Mariana, filhas do primeiro casamento de Luísa, por sua vez, precisam viajar até o Rio de Janeiro, onde vive o pai, durante o Natal ou o Réveillon. "No início, houve uma cobrança por parte das meninas pela presença da família original. Hoje, no entanto, elas se adaptaram à nova realidade, talvez mesmo porque são tratadas como minhas próprias filhas", continua o dermatologista. Este ano, o Natal da família foi bastante diferente: enquanto Juliana foi visitar o pai no Rio, Rafael e Mariana foram para os Estados Unidos participar de um curso. A união inexistente na festa será compensada no ano 2000. "No dia primeiro de janeiro, vamos viajar para encontrar nossos filhos nos EUA", comenta Luísa. Para o psicólogo Cláudio Duque, a receita encontrada pela família de Emmanuel e Luísa é a ideal para que os filhos, quase sempre esquecidos no ítem separação, não sejam prejudicados. "Não acho que seja necessário maquiar a realidade. Se houver, no mínimo, paz e respeito entre o casal, os filhos já estarão salvos de maiores conflitos", acredita. A psicóloga Gabriela Bastos Soares, 27 anos, tinha 14 anos quando os pais decidiram se separar, justamente na época do Natal. Mesmo assim, Marcos e Jamilda, seus pais, optaram em ficar juntos nas festas do final de ano. "Foi Réveillon bastante complicado, mas hoje vejo que foi a melhor saída para toda a família. Meu pai tornou-se uma figura mais presente e todos ganharam uma convivência mais harmônica", conta Gabriela, que resolve de forma simples a antiga saia justa de todos os anos: no Natal, almoçou com o pai e dividiu a ceia com a mãe. |
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