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COMPORTAMENTO II
A farra também pode ser longe de casa

Veja por pura pressão comercial, seja por apelo da mídia, o fato é que as festas de final de ano - principalmente o Natal - são vendidas e idealizadas como um momento puramente familiar. A pressão, no entanto, não chega a causar incômodo a algumas famílias, que preferem mesmo comemorar a festa junto a amigos, de preferência longe de casa.

As irmãs Ana Paula Freitas, 21 e Janayna, 25, fazem parte desse rol de `desgarrados'. Junto a mais duas amigas, elas vão comemorar o Réveillon em Salvador, Bahia, e só voltam para o Recife no terceiro dia de janeiro. "O Natal do ano passado foi péssimo, pois meus pais haviam se separado recentemente. Foi um clima muito nostálgico. Não havia como fingir que nada havia acontecido. Este ano, a gente não fez nem ceia", comenta Janayna.,

Na casa dos Borba Cunha a decisão de comemorar em separado foi conjunta. Embora eles tenham combinado esperar a queima de fogos e estouro das champagnes juntos, após a meia-noite, cada um está liberado para curtir o programa de preferência. Assim, sem muito `grilo', o pai volta para a casa da segunda esposa e os demais - mãe e quatro filhos - vão aproveitar a festa com os namorados.

"Nós não perdemos a oportunidade de estarmos unidos, mas também não sentimos o peso da obrigação porque podemos escolher o que fazer", revela Ana Gabriela, 20. "Como hoje tenho outro companheiro fico dividida entre ele e os meus filhos que requisitam minha presença. Desse modo, a solução que encontramos foi a melhor para todos", confirma a mãe, Tereza Cristina.

Para o bancário Reginaldo Alves de Lima, unir os seis filhos, entre 6 e 21 anos, de quatro casamentos, era impossível no Natal ou Réveillon, já que implicava em conciliar um amplo leque de interesses. Este ano, a idéia de fazer uma confraternização antecipada no dia 18 de dezembro foi aprovada em unânime.

"A nossa festa é como a de qualquer outra família, com muita alegria e distribuição de presentes. Os irmãos que durante o ano não se vêem com freqüência matam as saudades e eu fico extremamente satisfeito de tê-los comigo. Sem contar que depois, cada qual pode passar o final de ano com quiser, seja com as mães, amigos ou mesmo comigo e minha atual família novamente", comenta o bancário.

Os filhos mais velhos, o Reginaldo Júnior e Maira não decidiram ainda o que fazer, mas provavelmente vão romper ano junto com os amigos na Igreja Presbiteriana de Casa Caiada, onde residem. "Eu nunca me questionei muito quanto a essa forma de comemoração porque sequer me lembro direito como eram os natais com os meus pais. Eles se separaram quando eu tinha apenas três anos de idade. A lembrança que tenho de festa em família são as da casa da minha avó materna, com minha mãe, tios, tias e primos. O fato de ficar com os amigos é mais uma opção", revela Júnior.

Embora não impeça nada, quem não gosta muito da idéia é a mãe do rapaz, Socorro Egito que, apesar de oferecer liberdade e depositar toda confiança nos filhos, não se acostuma com o `desgarramento' dos pupilos. Na opinião dela e de seu atual marido, o ideal é reunir a família. "No fundo eu gostaria que fosse como na casa dos meus pais, com toda aquela parentada comemorando junta", revela.

Para o psicólogo Jorge Lyra, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), o modelo comercial exigido socialmente pode causar até mesmo sofrimento àqueles que não se enquadram exatamente no padrão estabelecido. "Nesse período, quanto mais festas, melhor, quanto mais amigos-secretos e presentes também. Espera-se que todos estejam sempre sorrindo", comenta Lyra.

Ele lembra que as pessoas que se encontram longe da família, seja por qualquer motivo, podem passar a acreditar que o `problema' de não estarem ligadas ao tão comentado espírito natalino está concentrado nelas. "Nasce a necessidade e a cobrança de estar sempre agradando", comenta.

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Jornal do Commercio
Recife - 26.12.99
Domingo